Crítica


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Sinopse

Brad é um pacífico executivo e padrasto dos dois filhos de Sarah. Após enfrentar uma verdadeira batalha pelo carinho das crianças com o pai biológico delas, Dusty, ele agora precisará lidar com outro problema: a chegada dos avôs paternos.

Crítica

Todo mundo sabe o que esperar de um encontro entre Will Ferrell e Mark Wahlberg. Além do primeiro ser um dos maiores nomes do cinema-besteirol hollywoodiano e do segundo ser reconhecido pelos músculos e pose de galã, os dois já haviam atuado juntos em Os Outros Caras (2010), comédia de ação (ou seja, estilo ideal para estrelarem em conjunto) que arrecadou mais de US$ 170 milhões nas bilheterias de todo mundo. Assim, quando o primeiro Pai em Dose Dupla (2015) chegou às telas, não havia nada de muito novo ali – e, mesmo assim, o retorno do público foi impressionante, ultrapassando os US$ 242 milhões arrecadados. Porém Pai em Dose Dupla 2, apesar de ser aquele tipo de sequência que ninguém pediu, mas ainda assim necessária, adiciona alguns elementos interessantes à mistura – e isso, felizmente, termina por fazer toda diferença.

A principal e mais notória novidade, como se percebe de antemão, está no elenco, com as chegadas de Mel Gibson e John Lithgow. Os dois, logo fica claro, são escolhas mais do que apropriadas para interpretarem os pais de Dusty (Wahlberg) e Brad (Ferrell). O primeiro, grande astro dos anos 1980 e 1990, alçado à glória com Coração Valente (1995) – vencedor de 5 Oscars, inclusive Melhor Filme e Direção – e ao inferno com declarações polêmicas e afastamentos ocasionais, voltou às boas graças após ser indicado novamente ao prêmio máximo da Academia pelo recente Até o Último Homem (2016). Seu estilo bronco, porém de bom coração – no seu currículo conta uma indicação a Melhor Ator em Comédia ou Musical (!) no Globo de Ouro – termina por se encaixar perfeitamente ao personagem do seu filho, pois da última vez em que o vimos, no final do longa anterior, Dusty havia, enfim, aparado as arestas e feito as pazes com o pai adotivo de seus filhos, Brad. Já este ganha como figura paterna um hilário Don, defendido de modo cândido e quase ingênuo por Lithgow, um dos atores mais versáteis e subestimados da sua geração. Dono de suas indicações ao Oscar, ainda no início dos anos 1980, tem sido redescoberto nos últimos anos, por trabalhos como a série The Crown (2016) – que lhe valeu um Emmy neste ano – e o drama LGBT O Amor é Estranho (2014) – pelo qual foi indicado ao Independent Spirit Awards como Melhor Ator do ano.

Brad e Don – atenciosos, afetivos, empolgados, sinceros – são, literalmente, o oposto de Dusty e Kurt (Gibson) – cínicos, inseguros, selvagens, brutos. A dualidade, que havia sido forçada no primeiro filme, dessa vez surge de modo natural entre as duplas. As participações femininas diminuem, mas não a ponto de serem esquecidas – Sara, ex-mulher de um e atual esposa do outro, revela uma Linda Cardellini com bom timing cômico, enquanto que a modelo brasileira Alessandra Ambrósio, em seu quarto ou quinto filme nos Estados Unidos, finalmente ganhou algumas falas para decorar – ainda que ela siga se saindo melhor calada. Mesmo assim, há outras situações curiosas – o pequeno Dylan (Owen Vaccaro) descobre o amor, enquanto sua irmã, Megan (Scarlett Estevez), revela um talento insuspeito para o que não se esperar de uma menina da sua idade, como uma boa mira no tiro ao alvo e uma predileção por bebidas natalinas alcoolizadas. E se isso não for o bastante, a chegada de mais um brutamonte – John Cena, confirmando a veia cômica vislumbrada em Descompensada (2015) – para participar do momento musical de conclusão é suficiente para aumentar o poder de riso de toda a sequência.

Mas e a trama, do que se trata mesmo? Bom, como o que importa são as situações absurdas proporcionadas pelos encontros aqui descritos, tudo o que os cerca não mais são do que motivos para colocar um frente ao outro. O Natal chegou, e Dusty e Brad descobrem que os filhos estão estressados por terem dois Natais – o do pai oficial e o do pai adotivo – para frequentarem. Por isso, decidem fazer uma única festa, com a participação de todos, inclusive dos dois avôs paternos, que acabaram de chegar. Uma vez reunida a grande família em uma casa nas montanhas, a estrutura episódica do roteiro se desenrola. Há a briga pela temperatura do termostato – até que ponto é saudável dar liberdade exagerada aos filhos? – e o momento da “conversa” sobre relacionamentos amorosos com o primogênito, além das dificuldades dos filhos se abrirem com os pais e, principalmente, destes serem sinceros com seus herdeiros, abandonando, assim, uma figura idealizada e, por que não, um tanto forçada.

Quem decide assistir a um filme como Pai em Dose Dupla 2 sabe exatamente o que irá encontrar. A temática natalina, que domina esse segundo episódio, e o acréscimo de talentos comprovados ao elenco, entretanto, oferecem ganhos que vão além do mero e previsível clichê. Continuamos nos deparando com o adulto sendo derrubado por uma criança no balanço, o choque que faz a pessoa ser jogada longe ou a árvore que, ao ser cortada por engano, por pouco não esmaga um desavisado, mas estas piadas estão dosadas para não serem excessivas e, por isso mesmo, cansativas. Surgem com maior equilíbrio, e este é o verdadeiro ganho desta continuação. Claro que, acrescido de uma participação especial ~inacreditável~ ao final (sério, chega a ser surreal, de tão improvável – e acertada – que é) e de uma cena pós-crédito tão engraçada quanto delicada, que ainda resgata o bom humor de um dos momentos mais sensíveis do enredo (um presépio humano no qual quase tudo dá errado), terminam por fazer deste um típico ‘prazer-culposo’ de final de ano, do tipo onde tudo funciona de acordo com o esperado, sem se privar de uma ou outra surpresa como bônus.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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