Crítica


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Sinopse

Kenny Wells é um trabalhador que sonha em ser alguém e está desesperado para vencer na vida. Com poucas opções em vista, ele decide se unir a um geólogo para tentar um último e grandioso esforço: encontrar ouro na selva da Indonésia. A relação dos dois será testada quando a busca por ouro começa a interferir na sua vida pessoal.

Crítica

Ouro é o típico produto cinematográfico realizado para angariar prêmios. Isso não tira seus méritos artísticos, de forma alguma, mas é notório que os envolvidos tinham grandes pretensões a respeito do material em que estavam trabalhando. O início da temporada de prêmios em 2017 já mostrou, no entanto, que as expectativas haviam sido exageradas. Veículo para emplacar Matthew McConaughey novamente no Oscar, o longa-metragem dirigido por Stephen Gaghan (do ótimo Syriana: A Indústria do Petróleo, 2006) conseguiu apenas uma mísera indicação ao Globo de Ouro – e em categoria musical, para a canção-tema Gold, de Iggy Pop. Depois desse balde de água fria, o filme acabou pulando sua estreia nos cinemas no Brasil, chegando diretamente em plataformas de streaming. Baixada a poeira, a produção se revela um drama competente, com uma trama surpreendente, defendida por um elenco acima da média.

O roteiro é de Patrick Massett e John Zinman, dupla mais voltada às séries de TV, com apenas um crédito no cinema, o irregular Lara Croft: Tomb Raider (2001). Os dois demoraram quase 15 anos para retornarem à tela grande. Algo parecido pode ser dito pelo diretor que comandou esta produção. Stephen Gaghan não dirigia um longa-metragem para a telona há 11 anos, desde o supracitado Syriana. O cineasta “herdou” o comando de Paul Haggis, Michael Mann e Spike Lee, três profissionais da área que chegaram a estar envolvidos em algum momento da pré-produção de Ouro. Gaghan não tem problemas em retornar à ativa, entregando um trabalho menos complexo que seu anterior, mas não menos interessante.

Na trama, baseada em fatos reais, McConaughey vive o obcecado Kenny Wells, um garimpeiro que sonha em tirar o pé do atoleiro, encontrando ouro e mudando de vida no apagar das luzes da década de 1980. Para tanto, ele se associa a um famoso geólogo, atualmente fora do radar, chamado Mike Acosta (Edgar Ramírez) para explorar as pouco conhecidas reservas naturais da Indonésia. Wells não tem onde cair morto, mas consegue arranjar dinheiro suficiente para patrocinar uma parte da empreitada. Depois de um começo cambaleante, a dupla encontra o que tanto buscava. De volta aos Estados Unidos, vemos a vida conturbada que Wells passa a levar após sua aposta ter dado certo.

Cobiça é uma palavra chave para entender este longa-metragem. Cada personagem que passa pela tela deseja ter a vantagem no negócio que vai se desenhando. Kenny Wells fará de tudo para que ninguém o passe para trás em seu achado milionário, batendo de frente com grandes nomes do mercado. Matthew McConaughey ganhou peso, raspou a cabeça e usou dentes falsos para interpretar aquele homem inicialmente repulsivo, que tem uma jornada de autoconhecimento interessante no decorrer do filme. Um vira-latas de início, Wells é daqueles sujeitos que vão até as últimas consequências para provar seu valor. O ator concebe sua performance cheia de cacoetes, com gestos largos e postura atarracada, como se sempre estivesse contando um segredo ao seu interlocutor ao se aproximar. Depois de ter vencido o Oscar ao perder peso em Clube de Compras Dallas (2013), McConaughey apela para um dos modos mais conhecidos de chamar a atenção da Academia – se tornar menos atraente. Não deu certo no que tange a premiação, mas sua entrega ao papel aparece bem na tela. Sua parceria com Edgar Ramírez é um dos pontos altos do longa, assim como as cenas que divide com Bryce Dallas Howard.

Ouro tem uma narrativa com ótimo ritmo, nos deixando cada vez mais interessados naquela jornada curiosa em que Wells e Acosta se envolvem. Ajuda também o fato de termos muitos ótimos atores surgindo a cada minuto na tela. Bruce Greenwood, Corey Stoll, Toby Kebbell, Craig T. Nelson, entre outros, aparecem em pequenos, mas importantes papéis, dando maior escopo a este trabalho. Outro ponto a se destacar é o roteiro – quando se pensava que a história partiria para um caminho, ela toma outro rumo e verdadeiramente surpreende. Somando isso à ótima trilha sonora (com Joy Division, New Order, Pixies, Isley Brothers, Television e, claro, Iggy Pop), o longa de Stephen Gaghan se mostra imperdível, traído pelas suas grandes pretensões à época, mas tendo chance de encontrar seu público no streaming.

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é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista, produz e apresenta o programa de cinema Moviola, transmitido pela Rádio Unisinos FM 103.3. É também editor do blog Paradoxo.
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