Crítica

Reinvenção de Os Saltimbancos Trapalhões (1981), provavelmente a melhor realização cinematográfica da trupe composta por Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, este Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood faz bonito, seja ao transitar por caminhos novos, ou mesmo na intenção de acessar a memória afetiva do público saudoso do original. Igualmente inspirado na peça teatral Os Saltimbancos, de Sergio Bardotti e Luis Enríquez Bacalov, por sua vez uma adaptação do conto Os Músicos de Bremen, dos Irmãos Grimm, o filme conta uma história ligeiramente diferente, já que a grande dificuldade aqui é sustentar a lona armada diante dos novos tempos, nos quais as apresentações com animais não são bem vistas. Sem condições de manter o espetáculo funcionando, o Barão (Roberto Guilherme) decide deixar a administração nas mãos de Satã (Marcos Frota), ele que, por sua vez, arrenda o espaço para toda sorte de eventos eleitoreiros.

O diretor João Daniel Tikhomiroff consegue preservar o romantismo nessa otimista mensagem de resistência. Em meio a cenários estilizados – algo que, em princípio, incomoda um pouco, por deflagrar uma inverossimilhança no que tange à problematizada situação financeira do circo – Didi surge como o salvador da pátria, aquele que, inspirado por diálogos com animais durante o sono, resolve ir contra a maré e montar um espetáculo protagonizado por pessoas vestidas de bichos. Ele tem a ajuda imprescindível de Karina (Letícia Colin), a herdeira que retorna devidamente formada da metrópole para evitar a interrupção do show. Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood, então, tem viço próprio, principalmente no que concerne a essa desbragada declaração de amor pela arte, seja a circense ou mesmo a do cinema. Aliás, não são poucas as referências a filmes, sem contar a passagem por Hollywood.

A meca da sétima arte estadunidense é o desejo de Didi e companhia. Não à toa, num sonho, Karina tem uma experiência análoga a de Cecilia, personagem de Mia Farrow em A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen. O diálogo inventado entre os habitantes da tela e o espectador, reproduzido por Tikhomiroff para reforçar desta vez, não o possível refúgio dos problemas na seara ficcional, mas a relação umbilical entre a plateia e o que a luz projeta, é outro indício de que Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood se propõe a tecer loas aos artistas e ao nobre produto de seus esforços, cuja existência é fundamental. Os elaborados números musicais, minuciosamente coreografados, bem como a cantoria precisamente afinada dos coros amenizam ligeiramente o caráter mambembe do longa-metragem, é verdade. Todavia, o desempenho do elenco e, sobretudo, a centralidade de Didi e Dedé para o sucesso da empreitada dos fieis à mítica do circo, garantem o bom resultado.

Difícil não lembrar-se das trapalhadas de Mussum e Zacarias, especialmente quando todos entoam a emblemática canção Piruetas. Não que os novos atores façam feio, longe disso. Letícia Colin é uma Karina solar, jovial; Marcos Frota sai-se muito bem como o vilão caricato; Alinne Moraes e Maria Clara Gueiros têm seus instantes de brilho, assim como o grande Roberto Guilherme, espécie de quinto trapalhão, cuja participação é determinante, e Livian Aragão, a filha de Renato, que apresenta evidentes sinais de evolução como atriz. Mas, é na interação entre Didi e Dedé, não mais acrobáticos em virtude da idade, mas representando a excelência de um humor espontâneo, quase sem espaço nos dias de hoje, que Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood alcança suas mais altas notas. A paixão vencendo a ganância e a verdade triunfando sobre a mentira parecem coisas meio fora de moda, e infelizmente são, mas estão totalmente alinhadas com o ideário e o estilo do grupo que nos trouxe alegria por décadas.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, também leciona ocasionalmente na Academia Internacional de Cinema/RJ.
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