Crítica


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Sinopse

Uma jovem está lidando com um problema que afeta muitos outros como ela no mundo todo: a anorexia. Sem perspectivas de se livrar da doença e ter uma vida feliz e saudável, a moça passa os dias sem esperança. Porém, quando encontra um médico não convencional que a desafia a enfrentar sua condição e abraçar a vida, tudo pode mudar.

Crítica

As produções bancadas pela plataforma de streaming Netflix foram o centro de uma polêmica no último Festival de Cannes, onde o diretor Pedro Almodóvar deu a entender que filmes realizados para exibição em televisores e computadores não deveriam participar de festivais. Para o espanhol, cinema de verdade deve ser pensado para a tela grande. Discussões à parte, a gigante tem investido em diversos gêneros, mas sempre parece se preocupar em agradar “toda a família”. Uma das últimas investidas é O Mínimo Para Viver, título nacional um tanto poético para o original To The Bone.

Escrito e dirigido pela americana Marti Noxon, o filme inicia com uma espécie de letreiro de alerta, informativo de que a produção é baseada em relatos de pessoas que sofreram distúrbios alimentares e que o espectador deve estar preparado para cenas fortes. Mas essa é apenas a primeira estranheza de O Mínimo Para Viver. Já em seus minutos iniciais fica claro que o foco é o público adolescente e, nesse caso, a diretora parece confortável, já que seu trabalho anterior foi a série Buffy: A Caça-Vampiros (1997-2003), lá nos anos 90. Conduzir o elenco jovem não é problema, ainda mais que há talento nesse quesito. Lily Collins parece enfim confortável num papel e entra para a turma dos atores que não medem sacrifícios físicos para viver seus personagens.

A protagonista Ellen, desenhista de 20 anos que sofre de anorexia, é o centro de uma trama que, pelo menos em sua primeira hora de duração, parece ser um filme-alerta sobre um problema que atinge pessoas, em especial jovens, do mundo inteiro. Ao ser internada na clínica do Dr. Beckham (Keanu Reeves, em boa performance, apesar das poucas cenas) ela passa por um novo método de tratamento, baseado na construção da autoconfiança. Ellen começa a conviver com pacientes semelhantes, mas que parecem estar ali para exemplificar os principais tipos de vítimas de transtornos alimentares: a menina acima do peso que come sem parar; a que se encontra no limite, por exemplo, usando aparelhos para continuar de pé; a que esconde o próprio vômito num baú; e o bailarino de joelho machucado, que não quer perder a forma responsável por levá-lo aos palcos. Junte a isso a contagem obsessiva de calorias, um sem número de abdominais, além do medo de dar a primeira garfada e não conseguir parar.

São cenas curtas que lembram aqueles vídeos educativos sobre doenças e desastres que todo mundo já viu na escola. Ao ponto da personagem da madrasta de Ellen ser retratada de maneira caricata, assim como o resto de sua família. Do figurino ao modo de falar, os personagens parecem saídos de desenhos animados e o contraste torna-se ainda maior pelo realismo da atuação de Lily Collins. É quase um sonho onde ela, doente, está cercada de metáforas das pessoas de seu cotidiano. Até o par romântico, que surge como porta de entrada à tal salvação de Ellen, não é um garoto comum. O excêntrico Luke (Alex Sharp) é tão cheio de referências que soa irreal.

Os poucos momentos belos de O Mínimo Para Viver poderiam ser retirados do filme e vendidos como vídeos motivacionais. A cena em que os pacientes, acompanhados do Dr. Beckham, vão a uma exposição de arte onde uma instalação reproduz um dia de chuva, acompanhada do discurso de “se sentir vivo” do médico, é tão clichê que a fotografia bem acabada, assinada por Richard Wong, fica em segundo plano. Mas o pior ainda está por vir. Na meia hora final, certo clima onírico e com referências psicanalíticas se instaura. Parece outro filme, como naqueles casos em que se muda o diretor no meio das filmagens. A tal redenção, o recomeço de Ellen, acontece como num passe de mágica, após dezenas de cenas nas quais ela não dá o braço a torcer e honra a fama de rebelde. E há causa para essa rebeldia, mas em nenhum momento ela é discutida a fundo. Era para ser um alerta em forma de arte sobre uma juventude bombardeada por anúncios que relacionam magreza à felicidade. Todavia, o filme se perde por não ser uma história bem contada, tampouco um olhar atento sobre o tema tão delicado.

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é jornalista e especialista em cinema formada pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Com diversas publicações, participou da obra Uma história a cada filme (UFSM, vol. 4). Na academia, seu foco é o cinema oriental, com ênfase na obra do cineasta Akira Kurosawa, e o cinema independente americano, analisando as questões fílmicas e antropológicas que envolveram a parceria entre o diretor John Cassavetes e sua esposa, a atriz Gena Rowlands.
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