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Sinopse
Em O Mago do Kremlin, após a queda da União Soviética, o produtor de TV Vadim Baranov se torna um estrategista das sombras ao ser recrutado para ajudar a construir a imagem pública de Vladimir Putin. Mestre em manipular percepções, ele passa anos moldando o líder russo por meio de narrativas políticas e controle da informação, até que os bastidores desse jogo de poder começam a vir à tona. História/Suspense.
Crítica
Talvez apenas Donald Trump desperte tanto curiosidade quanto indignação entre os líderes mundiais atuais da mesma forma como Vladimir Putin, o atual governante da Rússia. Portanto, a realização de uma cinebiografia do político russo, comandada por um cineasta europeu acostumado a investigar intrigas sociais tanto na esfera pública (Wasp Network: Rede de Espiões, 2019), quanto no âmbito mais íntimo (Acima das Nuvens, 2014), logo despertou grande expectativa. Porém, o que Olivier Assayas alcança em O Mago do Kremlin, adaptação do livro de Giuliano Da Empoli, é, no mínimo, decepcionante. Não apenas por algumas das escolhas narrativas, mas também pela estrutura empregada. O resultado é modorrento e entediante, algo tão fatal para esse tipo de produção quanto os próprios atos daquele no centro das atenções, aqui minimizados de tal forma que chegam até mesmo a suscitar desinteresse. Veja só o tamanho da contradição!

Para começo de conversa, o principal não é Putin, aqui interpretado com gana e comedimento por Jude Law. Tanto é que esse leva quase uma hora para entrar em cena, e quando assim o faz, o olhar sobre ele é sempre enviesado, por meio de intermediários. Nunca frontal, nunca direto. Isso é reflexo imediato da escolha de um outro personagem para ser o protagonista. Observar o efeito de uma personalidade gigante por meio daqueles ao seu lado não é um recurso novo, mas por vezes pode se mostrar eficiente. Foi assim com Ben-Hur (1959), por exemplo, cuja trajetória do judeu em desgraça servia de paralelo para a jornada de Jesus Cristo. Mas ao assumir o conselheiro Vadim Baranov como seu ponto de partida, Assayas acabou refém de alguém que por mais de uma ocasião ameaça incendiar a narrativa, mas em nenhuma dessas passagens consegue ir além de um fogo morno. E sem querer fazer coro ao que foi dito recentemente por Quentin Tarantino, muito se deve à escolha de Paul Dano para dar vida ao personagem. O ritmo dormente, quase pacífico, de uma figura descrita como manipuladora e engenhosa soa inverossímil, para não dizer absurda.
Há mais problemas, é claro, além do ponto de vista assumido. Dois outros nomes que geram mais distração do que material válido – e não por eles, mas pela ausência de oportunidades que não chegam a lhes ser concedidas – são os de Jeffrey Wright e o de Alicia Vikander. O primeiro até surge no início como narrador, apenas para ser substituído sem muita cerimônia logo em seguida, para não mais voltar. Tudo o que tem a fazer é sentar e escutar, quase como um observador privilegiado, mas não mais do que o espectador em casa (ou no cinema). Desperdiçar um intérprete da sua envergadura e complexidade em um papel tão mínimo e insignificante chega a ser ofensivo. Ainda pior, porém, é a gratuidade das participações da sueca vencedora do Oscar por A Garota Dinamarquesa (2015). A despeito dela e Dano não terem a menor química enquanto casal, a inserção da atriz na trama – em mais de uma oportunidade – é feita à força, numa imposição digna de produtores e empresários alheios ao tecido narrativo. É quase como se alguém manifestasse a expressa ordem de tê-la em cena apenas para “criar algum contexto romântico”, o que não faz sentido a um enredo que se anuncia como politizado e pretensamente polêmico.
Tem-se, então, pela maior parte do tempo, um insípido Dano narrando suas desventuras pelos bastidores do poder. O mais surpreendente, porém, é a ausência de novidades entre os episódios descritos. Sinal de que nem mesmo essa fórmula percorrida parece funcionar de acordo com o esperado. Pois na maior parte, não é exatamente ele que se mostra à frente dos acontecimentos. Ou o foco está no amigo empresário que aproveita a Perestroika para fazer fortuna (Tom Sturridge, mais um mal aproveitado), ou no parceiro de ocasião ao lado de quem executa um plano destinado a falhar (Will Keen, talvez o único de todo o elenco a exibir algum tipo de brilho), ou no próprio Putin, que só decide dar às caras após as intervenções destes citados antes, e mesmo assim, sem nunca perceber a narrativa tomando partido de suas decisões. Em resumo, não se tem nada diferente daquilo que poderia ser verificado por meio de uma consulta rápida na Wikipedia, ainda que Law se esforce para ir além da caricatura – mesmo que o diretor não demonstre o mesmo nível de comprometimento com a performance do astro inglês.

Tornando evidente sua destreza em lidar apenas com dramas pessoais, Assayas enterra qualquer esperança de retomar as rédeas do ambicioso O Mago do Kremlin em um desfecho anticlimático e até mesmo tedioso, justamente pela sua fácil antecipação. Mas até chegar nesse ponto se faz necessária uma jornada de quase 150 minutos que muito promete, mas pouco – ou quase nada – entrega. Qualquer investigação sobre como funciona a mente de um dos homens mais poderosos – e perigosos – do mundo, assim como daquele que se anuncia como a eminência parda, fica somente na promessa, sem que se aproxime desse tipo de articulação ou profundidade. Não apenas se desperdiça os talentos reunidos, como a oportunidade, talvez única, de um mergulho não póstumo, mas contemporâneo e simultâneo com o próprio exercício do que aqui poderia ter ocupado espaço de crítica e reflexão. Arrastado, tudo o que consegue e girar em torno de si mesmo, almejando alturas que não apenas não se vislumbram, como também ainda mais distantes se mostram. Frustração, portanto, é o que melhor define essa experiência – ou falta dela.
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Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 3 |
| Daniela Pedroso | 7 |
| Carlos Helí de Almeida | 6 |
| Ailton Monteiro | 4 |
| Arthur Gadelha | 5 |
| MÉDIA | 5 |

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