Crítica


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Sinopse

Durante a Guerra Civil, em uma escola de meninas no sul da Virgínia, algumas garotas estão abrigadas no colégio e afastada dos homens. Certo dia, após encontrarem um soldado machucado que precisa de cuidados médicos, decidem oferecer abrigo e cuidar de suas feridas. Mas, com sua chegada, a casa é estranhamente tomada por uma forte e perigosa tensão sexual que gera rivalidade entre as estudantes. Tabus são quebrados em uma inesperada reviravolta de acontecimentos.

Crítica

Estados Unidos. Virgínia. Meados do século XIX, em plena Guerra Civil Americana. Uma mulher resiste ao avanço dos sulistas, ao mesmo tempo em que se esforça para manter uma aparente normalidade. Ela comanda uma escola para garotas, e com ela sobraram apenas quatro meninas, além de mais uma professora. As seis ali permanecem, basicamente, em suas próprias palavras, “por não terem mais para onde ir”. Esta tranquilidade está prestes a acabar quando a mais nova delas, durante um passeio pelas redondezas em busca de cogumelos, encontra um militar ferido. Logo o identifica como inimigo, e pode ser um perigo para elas. Mas é também um homem que necessita de ajuda. Esta indecisão entre tê-lo por perto por motivos diversos e afastá-lo sabiamente, porém sem muita convicção, forma o cerne da trama de O Estranho que Nós Amamos, um filme belo aos olhos, mas distante de maiores emoções.

A diretora Sofia Coppola, premiada por este trabalho no Festival de Cannes, afirma ter feito uma nova adaptação do romance de Thomas Cullinan, e não uma refilmagem do longa homônimo de 1971 estrelado por Clint Eastwood e Geraldine Page. É uma afirmação sensata, pois parece ela estar mais interessada em suas figuras femininas do que na presença masculina que passa a interferir nestas vidas. O estranho chega debilitado, mas logo entende que terá que usar de outras armas para fazer valer suas vontades: não mais rifles e escopetas, mas, sim, palavras e seduções. Da pequena que o encontrou – “você é a minha melhor amiga” – à diretora do local – que percebe nele, enfim, a ausência que um homem faz em sua vida – todas acabam sucumbindo aos seus encantos. Mas seria ele, de fato, tão irresistível? Ou estaríamos, mais uma vez, diante do conto do homem que tudo pode e das mulheres que pouco fazem além de servi-lo?

Apoiando-se em uma narrativa convencional, quase teatral, desenvolvida em poucos ambientes e constituída por uma fotografia esteticamente delicada, porém fria em seu retrato, Coppola faz de seu filme um conto neogótico, que trata das luzes com a mesma cadência que as trevas deveriam impor. O soldado flerta com a jovem adolescente, ameaça um beijo na veterana e pede a mão da professora virginal. Cada uma delas, a seu momento, facilmente são colocadas em posições de inveja e ciúmes. No entanto, o desenvolvimento das ações não se sustenta por muito tempo no mesmo ritmo. Logo um tropeço – ou seria, literalmente, um cair das escadas – impõe uma nova ordem. As coisas mudam, a dinâmica entre eles se altera e, quando percebemos, um novo filme surgiu, sem muito cuidado nem equilíbrio. E o pior: parece não saber dialogar com a trama que estava sendo desenhada até aquele momento.

Nicole Kidman é o nome de maior destaque do elenco, mas sua participação se reduz a momentos pontuais, nos quais pouco lhe é exigido além de uma controlada segurança, aquela que qualquer um dos seus admiradores sabe bem ser ela capaz de produzir. Kirsten Dunst, que há muito deixou de ser uma menina, repete a parceria com a diretora – após o ótimo As Virgens Suicidas (1999) e o irregular Maria Antonieta (2006) – para entregar um tipo sofrido, sem nuances, que começa opaco e termina, literalmente, apagado. Elle Fanning, por outro lado, mostra porque há um bom tempo tem se destacado em Hollywood mais do que a irmã Dakota, roubando toda e qualquer oportunidade que lhe é oferecida – ainda que essas sejam escassas. O elenco principal é completado por Colin Farrell, que possui o porte másculo necessário ao personagem, mas não sabe muito bem o que fazer com ele. Se no início elas parecem cair de amores pela sua simples presença, sem esforço algum da parte dele, um segundo momento impõe uma reviravolta brusca que, além de deixá-lo perdido, destoa do conjunto e serve apenas para antever uma conclusão bastante previsível.

Sofia Coppola é uma esteta da imagem, assim como seu pai um dia já foi. A diferença é que ele sempre teve em mente a importância do contar uma história, enquanto que ela busca, a cada novo trabalho, um abstracionismo que se aproxima vertiginosamente do irreal. A sua versão de O Estranho que Nós Amamos tenta se impor como um conto feminista, mas tudo o que consegue é uma plasticidade fraca que não se sustenta diante do turbilhão de sentimentos que emula, mas que repetidamente insiste em negar. As peças estão em seus lugares, porém soltas, desprendidas de um objetivo que as conduza. Como resultado, resta a suspeita de que há um filme interessante em algum lugar deste conjunto, só que tão ofuscado por elementos aleatórios que nunca consegue reunir a força suficiente para vir à tona. E assim, o discurso termina por sucumbir a uma forma rígida que até chega a vislumbrar um rumo, sem nunca, no entanto, colocar-se de forma efetiva em curso.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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Grade crítica

CríticoNota
Matheus Bonez
5
Leonardo Ribeiro
7
MÉDIA
5.7

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