Crítica

Após uma trinca de longas históricos, que inclui os premiados Lincoln (2012) e Ponte dos Espiões (2015), o diretor Steven Spielberg retoma sua faceta mais leve e divertida – voltada ao universo infantil – explorada pela última vez em As Aventuras de Tintim (2011). Para este retorno, o cineasta escolheu a adaptação de uma das obras mais cultuadas do escritor britânico Roald Dahl, O Bom Gigante Amigo, que narra a história da pequena órfã Sophie (Ruby Barnhill) raptada por um gigante e levada para uma terra distante e mágica. Após superar o temor inicial, a garota desenvolve uma amizade com o ser de tamanho colossal, mas de alma gentil e bondosa, que é renegado pelos outros poucos membros restantes de sua espécie.

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Todas as criações de Dahl – muitas das quais já ganharam vida nos cinemas, como as duas versões de A Fantástica Fábrica de Chocolate (1971 e 2005), Convenção das Bruxas (1990), Matilda (1996) e O Fantástico Sr. Raposo (2009) – são carregadas de um humor bastante peculiar, de fina ironia, algo que a princípio poderia conflitar com o estilo mais pueril de Spielberg. No entanto, o cineasta consegue se adequar bem ao imaginário do autor, tirando do encontro entre as duas figuras solitárias que protagonizam a história o material necessário para desenvolver boa parte dos temas que povoam sua filmografia: os núcleos familiares erráticos, a visão de mundo através do olhar infantil, o chamado à aventura, a fantasia como ferramenta para a manutenção da esperança.

Tanto Sophie quanto o BGA (abreviatura de Bom Gigante Amigo, apelido colocado pela menina em seu companheiro) sofrem com uma constante sensação de não pertencimento. Ela, sem pais, vagando sozinha pela madrugada no orfanato, enquanto as outras crianças dormem, em busca de refúgio nas páginas dos livros que aprecia. Ele, motivo de piada entre os outros gigantes por ser o menor de todos e por não ser carnívoro, concentrando todas as forças em seu ofício como caçador e manipulador de sonhos. A identificação entre os dois é inevitável, e o laço que criam não só serve para preencher o vazio afetivo de ambos, como também simboliza a luta dos excluídos, dos oprimidos. Já a ida para a terra dos gigantes representa a fuga para a imaginação que Spielberg tanto preza – como em Hook: A Volta do Capitão Gancho (1991) – e que serve para que os personagens possam reconstruir suas próprias realidades.

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Os primeiros 15 minutos de projeção são primorosos na construção de uma atmosfera fantástica e misteriosa, causando no espectador o encantamento que marca os trabalhos mais emblemáticos de Spielberg. Embora seja mais reflexivo e econômico em termos de ação – fora algumas cenas específicas, como a dos gigantes brincando com as carcaças de carros – do que outros filmes do cineasta, O Bom Gigante Amigo se mostra envolvente e capaz de causar um fascínio constante, vide a belíssima sequência no lago da captura de sonhos. O deslumbramento visual também se estende à concepção das figuras detalhadas dos gigantes, cada um com suas particularidades, se equilibrando entre o realista e o estilizado. Uma prova de apuro estético que é completada pelo impecável trabalho dos dubladores das criaturas.

Emprestando sua voz ao BGA, o ator Mark Rylance está magnífico, realizando uma composição repleta de sentimento e de nuances perceptíveis em cada diálogo proferido pelo personagem – com sua pronúncia atrapalhada, que junta palavras e cria um divertido dialeto próprio. Um nível de qualidade que é mantido pelos intérpretes dos outros gigantes, como Bill Hader e Jemaine Clement. Já a adorável Ruby Barnhill demonstra enorme desenvoltura e naturalidade como Sophie. Um papel exigente – já que sua relação com o BGA ocupa quase toda a trama, havendo pouco espaço para coadjuvantes e para interação com outros atores – no qual a atriz-mirim transmite segurança sem perder a aura inocente de uma criança.

A ironia do texto de Dahl, citada anteriormente, é diluída ao longo da narrativa, e o humor particular do escritor acaba se concentrando muito na sequência do encontro com a Rainha. Mesmo soando um pouco deslocado do tom geral do filme, a cena é hilária, trazendo piadas extremamente divertidas, como aquela que envolve os efeitos da bebida borbulhante favorita do BGA – lembrando o trecho dos arrotos de A Fantástica Fábrica de Chocolate. Fica também a sensação de que os passeios noturnos repletos de magia do gigante pelas ruas desertas de Londres poderiam ganhar mais tempo na tela, e há ainda a promessa de um clímax grandioso que não é plenamente cumprida.

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Apesar destes deslizes, é possível notar uma entrega bastante sincera de Spielberg, que consegue balancear o lado emotivo da trama sem sucumbir à sua tendência pelo sentimentalismo exagerado. Em seus momentos mais inspirados, O Bom Gigante Amigo deixa transparecer a forte identidade de seus autores, o que faz com que se destaque dentro de uma indústria do entretenimento cada vez mais pasteurizada. Assim como o gigante de seu filme, Spielberg mostra que ainda é um grande criador de sonhos.

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é formado em Publicidade e Propaganda pelo Mackenzie – SP. Escreve sobre cinema no blog Olhares em Película (olharesempelicula.wordpress.com) e para o site Cult Cultura (cultcultura.com.br).
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