Crítica

Uma das verdades sobre o ato de se fazer cinema é que bons livros podem gerar filmes tão bons quanto, às vezes melhores, muitas vezes piores. Isso, claro, porque a expectativa em torno destas adaptações sempre é muito alta. Mas e quando é o contrário? Livros ruins tem muito mais chances de se tornarem filmes melhores, pois piorar o que já é ruim é bastante difícil, e quando se menos espera é que se pode se surpreender. Dito isso, gostaria de deixar claro que de forma alguma considero os quadrinhos do belga Hergé com o personagem Tintim “ruins”... apenas estão longe de se enquadrarem no meu gosto. Poderia dizer que são um tanto ultrapassados, conservadores, antiquados. Nunca os havia lido, e só o fiz para me ambientar um pouco antes de assistir ao filme. E talvez tenha sido justamente por isso que conferir o trabalho de Steven Spielberg e Peter Jackson foi um prazer tão grande!

Desde o início dos anos 80 Spielberg desejava adaptar para a tela grande as histórias do repórter investigativo Tintim e seu cãozinho Milu. Na época, obviamente, a ideia era fazer um filme live action, com atores de verdade, mas o problema era encontrar um cachorro que atendesse todas as peripécias vistas nos gibis. Diante essa impossibilidade o projeto foi ficando de lado, até que O Senhor dos Anéis apareceu. Foi Spielberg que entregou a estatueta de Melhor Filme, em 2004, à Peter Jackson, na cerimônia do Oscar em que O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei se consagrou como grande vencedor. Os dois não se conheciam até então, mas ali nasceu uma amizade que hoje, quase dez anos depois, resultou em puro cinema. Após os efeitos impressionantes que transformaram o personagem Gollum em realidade na saga de Tolkien, Spielberg e Jackson partiram para uma animação baseada na captura de performance – no mesmo estilo dos anteriores O Expresso Polar (2004) e Os Fantasmas de Scrooge (2009), por exemplo. E assim temos hoje esse As Aventuras de Tintim, que dá início a uma nova série cinematográfica, apresentando a popular criação do quadrinhista Hergé aos antigos fãs e, principalmente, a uma nova geração, com a vantagem de se livrar do aspecto envelhecido dos desenhos mais convencionais numa roupagem muito mais moderna e dinâmica.

O filme se baseia principalmente no livro O Segredo do Licorne (ou Unicórnio, dependendo da tradução), e termina num momento de grande clímax, deixando tudo pronto para a sequência. Tintim é um jovem repórter que compra um navio em miniatura numa feira de antiguidades. Logo ele descobre se tratar de uma das três reproduções de um mítico galeão que afundou no meio do oceano, levando consigo um tesouro incalculável. Quem o comandava era Sir Francis Haddock, e o responsável pelo desastre foi o pirata Rackham. Mas o que Tintim desconhecia era que sua nova aquisição esconde uma pista para esse mistério, o que o coloca em contato direto com o atrapalhado Capitão Haddock e em confronto com o vilão Sakharine, os dois descendentes dos marinheiros que deram origem a toda essa história! Nessa busca alucinante eles enfrentarão tiroteios em alto-mar, naufrágios, caminhadas por desertos escaldantes, divas da ópera e até um batedor de carteiras cleptomaníaco, que será felizmente capturado pelos bravos inspetores de polícia Dupont e Dupond!

O elenco de vozes – e responsável também por toda a ação, pois os movimentos dos atores é que vemos na tela, uma vez que foram capturados digitalmente – é um destaque à parte. Spielberg trouxe Daniel Craig, com quem havia trabalhado em Munique (2005), enquanto que Jackson foi responsável pelos dois protagonistas: Andy Serkis (referência nesse estilo, tendo atuado em conjunto com essa tecnologia na trilogia O Senhor dos Anéis, no recente King Kong e em Planeta dos Macacos – A Origem) e Jamie Bell (visto também em King Kong). Este último é um Tintim bastante adequado, com agilidade e postura valente e confiante, bem de acordo com o que se espera do jovem herói.

As Aventuras de Tintim estreou no final de 2011 na Europa, onde o personagem é muito mais popular, para chegar na última semana do ano nos Estados Unidos e somente agora, quase um mês depois, no Brasil. A estratégia faz sentido, ainda mais quando analisamos os resultados de bilheteria: com um orçamento em torno de US$ 130 milhões, e o faturamento até o momento já está em quase três vezes esse valor em todo o mundo. Sucesso de bilheteria e elogiado pela crítica (ganhou o Globo de Ouro de Melhor Longa de Animação e é favorito ao Oscar), essa estreia do realizador de Tubarão (1975), Os Caçadores da Arca Perdida (1983), Jurassic Park (1993) e Guerra dos Mundos (2005) no mundo da animação foi com o pé direito. E que venham os próximos!

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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