O Afinador

Crítica


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Sinopse

Em O Afinador, Niki é um talentoso calibrador de pianos cuja audição extraordinária desperta o interesse de criminosos. Enquanto utiliza sua habilidade para trabalhar com instrumentos de alto padrão, ele também acaba envolvido em atividades ilegais, abrindo cofres com precisão. Quando conhece Ruthie, uma estudante de composição, surge a possibilidade de um novo caminho, mas sua vida dupla ameaça colocar tudo a perder. Crime.

Crítica

Provavelmente o maior trunfo dessa produção, aquele ganho que possibilitou que o filme fosse, enfim, realizado, é também o seu maior problema. Afinal, como tornar crível que um homem como Leo Woodall possa ganhar a vida como… técnico de afinação de pianos? O roteiro escrito pelo diretor Daniel Roher, em parceria com Robert Ramsey (O Amor Custa Caro, 2003), até se esforça em justificar seu envolvimento com profissão tão em desuso. Mas não é o bastante. Afinal, não se faz necessário ter lógica, é preciso também parecer real – eis uma necessidade da ficção. Em O Afinador, no entanto, essa é apenas a primeira das conjunções a não fazer muito sentido. Pois é certo que esta não é uma história sobre um jovem que leva seus dias ajustando instrumentos musicais pela cidade. Sua profissão é apenas um ponto de partida. E se esse por um lado se revela inusitado, rapidamente se confirma como distração, um desvio que conduzirá o espectador a um cenário de fácil reconhecimento. Mais do mesmo, portanto.

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Faz tempo – décadas, para dizer a verdade – que Dustin Hoffman, duas vezes vencedor do Oscar de Melhor Ator e dono de outras cinco indicações, deixou de ser um nome que “fazia acontecer” em Hollywood. Às vésperas de completar noventa anos, ele hoje se recusa a encarar a aposentadoria aparecendo apenas em projetos que lhe são especiais, como uma presença carinhosa capaz de conferir prestígio ao todo. Dito isso, nada justifica seu envolvimento com O Afinador. Harry Horowitz pode ter seu nome à frente do serviço pelo qual seu personagem é contratado, mas o veterano ator se faz necessário apenas como uma desculpa para a jornada do protagonista – o jovem Woodall, é claro. Será por causa da amizade com o homem que tudo lhe ensinou, e que agora necessita de sua ajuda – em uma inversão bastante previsível de papeis – que o rapaz irá ser levado às decisões equivocadas que o colocarão não apenas em perigo, mas em risco de perder também aqueles que tanto estima.

Woodall foi descoberto dando vida ao garoto de programa sedutor da segunda temporada de The White Lotus (2022), para na sequência ser escalado para outras séries e projetos mais ou menos badalados, como Bridget Jones: Louca Pelo Garoto (2025) e Nuremberg (2025). Sua estreia como protagonista na tela grande, no entanto, se dá apenas agora com esse O Afinador, um thriller por demais genérico para alguém que prometia muito pelo físico sexy, um ar um tanto desligado e um jeito arrastado de falar, que tanto pode apontar para o mistério, quanto para o desinteresse. Elementos que em parte se ajustam ao seu Niki, que possui uma alegada “audição perfeita” que o obriga a estar sempre com fones de ouvido para amortecer os ruídos do mundo. Tal acuidade lhe torna ideal para aprimorar pianos. Mas também se mostra surpreendentemente adequada à tarefa de arrombar cofres com segredos que requerem toda atenção possível para serem decifrados.

Daniel Roher não é um realizador qualquer. Canadense, ganhou um Oscar pelo documentário Navalny (2022), superando concorrentes badalados, como All the beauty and the bloodshed (2022) – Leão de Ouro no Festival de Veneza – e Tudo o que Respira (2022) – premiado no Festival de Cannes. Mesmo assim, tal conquista não lhe garantiu status para tornar seus projetos seguintes naturalmente viáveis. Tanto é que sua estreia na ficção se deu anos depois, e por um único motivo: a concordância de Woodall, um astro em ascensão, em estrelar o projeto. E ele não se sai mal. Apenas repete muitos dos trejeitos de algumas de suas atuações anteriores, além de ser fisicamente inadequado – para um título que deliberadamente recorre aos mais comuns clichês do gênero em sua fórmula, apenas aqui opta por ir na contramão, colocando à frente da ação alguém que poderia posar como modelo ou aventureiro, e não como uma pessoa que se sente eternamente deslocada, desajeitada com as palavras e com os modos, que prefere a solidão ao convívio social. Se fosse exigido superar apenas essas descrenças, talvez não fosse tão problemático. Mas há todo o resto.

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Niki se torna bandido para levantar um dinheiro rápido e poder pagar as contas médicas do patrão e amigo, Harry, que está doente. Ou seja, esse é mais uma filme que, se fosse ambientado no Brasil, não duraria mais do que um curta-metragem – bastaria terem ido a um hospital público, o que não existe nos EUA. Assim, ele não só precisa dar seus corres, como ainda arruma tempo para uma namorada musicista. O cúmulo das coincidências acontece quando ele decide presenteá-la com um relógio que obteve em um dos assaltos, e mais adiante descobre que a joia pertence a um compositor por ela idolatrado, o que coloca o futuro profissional dela em risco. Um absurdo final que serve para enterrar qualquer pretensão de O Afinador ir além do thriller passageiro. Entretém levemente enquanto dura, Hoffman não tem muito o que fazer, Woodall está em sua zona de conforto e o enredo confirma-se tão previsível quanto esperado a partir de uma premissa nada surpreendente. O certo, portanto, é que qualquer um destes talentos envolvidos, assim como a audiência interessada, mereciam mais.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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