Crítica


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Sinopse

Addie Moore é uma viúva solitária que decide, certa noite, convidar o vizinho, ele também viúvo, Louis Waters, para dormir em sua casa. A proposta inusitada, que tem por objetivo ajudar os dois a vencer a insônia, a princípio deixa o professor aposentado sem reação, mas conforme eles colocam o projeto em prática uma bonita relação de cumplicidade floresce.

Crítica

Quando uma parceria dá certo, vale a pena repetir. Se isso serve para os negócios, não seria diferente no cinema. Jane Fonda e Robert Redford deram vida a dois jovens com personalidades bem diferentes, mas muito apaixonados, na comédia romântica Descalços no Parque (1967), dirigido por Gene Saks. A química entre o então aspirante a galã e a bela filha de Henry Fonda garantiu a bilheteria do filme. Cinco décadas se passaram e os dois se reencontram para mais uma vez interpretar um casal, só que num ritmo bem diferente dos esfuziantes anos 1960. Nossas Noites, título bem menos poético do que o original Our Souls at Night, não é apenas um romance com protagonistas que já passaram dos 70 anos. É um retrato de como a presença é mais importante que a paixão.

Dirigido pelo indiano Ritesh Batra, responsável pelo ótimo The Lunchbox (2013), Nossas Noites começa com personalidade. A viúva Addie bate na porta do igualmente viúvo Louis e propõe que eles dividam a mesma cama. Uma frase como essa, vinda de uma mulher que já foi considerada símbolo sexual depois de seduzir meio espaço em Barbarella (1968), parece um convite para um sexo casual. Mas não é de orgasmos que Addie precisa, mas daquela sensação de conforto de ter alguém no travesseiro ao lado. Após quase cinquenta anos casada, ela já não sabe dormir sozinha. Como diz a música do Roberto Carlos, é difícil esquecer certos velhos costumes. Proposta aceita, os dois iniciam uma amizade que tem hora para começar e para acabar. Ele chega no fim da tarde na casa dela, jantam juntos e vão para a cama. Boa noite dito, abajur apagado, sono profundo.

Baseado num romance escrito por Kent Haruf, Nossas Noites segue um modelo linear de narrativa e se vale de artifícios ao estilo tiro certeiro em seu roteiro. Para intensificar a intimidade do casal, o neto de Addie vem passar uns dias com a avó e, para entretê-lo, Louis precisa relembrar os tempos de pai e retomar a paciência de lidar com perguntas complicadas e aulas de como arremessar bolas de beisebol. A dupla que divide o leito torna-se um casal. Essa transição é conduzida pela direção de arte que, com sutileza e elegância, vai tornando os figurinos de Addie mais coloridos e a casa de Louis mais iluminada. Aliás, nenhum dos dois se encaixa no estereótipo do idoso que muitos filmes, não apenas americanos, costumam utilizar. Ambos vivem sozinhos, tem suas rotinas e não parecem interessados em aderir ao tricô ou ao jogo de damas. Envelheceram o corpo, mas não perderem o ritmo típico da juventude, em eterna mudança.

Nossas Noites não pretende criticar o modo como a sociedade trata as pessoas de mais idade nem estimular que é impossível ser feliz sozinho. Mais que valorizar o amor maduro, é uma história sobre companheirismo, algo que alguns casais que exalam paixão nunca experimentaram. É alguém para contar o seu dia, para se queixar do tempo chuvoso, para dividir uma garrafa de vinho. O único porém fica por conta da cena de sexo de Addie e Louis, apenas insinuada. Hollywood ainda tem certo pudor em mostrar corpos com peles não tão viçosas nus e buscando prazer. Há de chegar este dia. Enquanto isso, tem-se aqui uma ótima pedida para espantar a solidão. Bons filmes também são ótimas companhias.

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é jornalista e especialista em cinema formada pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Com diversas publicações, participou da obra Uma história a cada filme (UFSM, vol. 4). Na academia, seu foco é o cinema oriental, com ênfase na obra do cineasta Akira Kurosawa, e o cinema independente americano, analisando as questões fílmicas e antropológicas que envolveram a parceria entre o diretor John Cassavetes e sua esposa, a atriz Gena Rowlands.
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