Crítica

Richard Gere sempre foi uma espécie de underdog em Hollywood. Ok, ele já foi um galã em ascensão na década de 80 com filmes como Gigolô Americano (1980), A Força do Destino (1982) e O Cônsul Honorário (1983), conseguiu manter o título ao lado de Julia Roberts em comédias românticas bem sucedidas como Uma Linda Mulher (1990) e Noiva em Fuga (1999), além de ter sido levado a sério em papéis como os representados em As Duas Faces de Um Crime (1996) e Chicago (2002). Este musical, inclusive, foi o que fez o ator chegar mais próximo da consagração da premiação da indústria ao lado de outra performance recente em A Negociação (2012). É um astro que nunca decepciona, seja na crítica ou nas bilheterias, mas parece estar sempre “quase lá”. Não à toa seu papel-título em Norman: Confie em Mim seja praticamente uma metáfora de sua carreira.

No longa dirigido pelo vencedor de Cannes Joseph Cedar, Gere vive um homem que está sempre lutando contra a maré. Como o próprio sobrinho Philip (Michael Sheen) lhe diz: "Você é como um homem afogado, tentando acenar para um navio de cruzeiro". A resposta não poderia ser outra senão “mas eu sou um bom nadador”. Ele é um empresário, um negociador. Do quê? Nem ele mesmo sabe dizer. A todo momento esta figura solitária tenta contatos e mais contatos de pessoas influentes. Magnatas, chefes de estado, políticos em ascensão​. Ninguém se salva das conversas de Norman, que parece desesperado em atingir o ápice de sua vida. A oportunidade vem na figura de Micha Eshel (Lior Ashkenazi), israelense que, três anos depois de conhecer e ganhar um par de sapatos do protagonista, se torna primeiro-ministro. E, claro, não esquece de seu amigo.

É o ponto de virada para Norman. Finalmente ele é reconhecido e tem seus quinze minutos de fama. Sua carreira de influenciador parece estar em alta. Isto até o ministro sofrer acusações de suborno em Israel, o que pode leva-lo à prisão. No alto de seus 67 anos, Richard Gere se entrega a este personagem como poucos vezes se viu em sua filmografia. É também seu ápice como ator, assim como um grande passo para Norman na ficção. Talvez por entender tanto esta ligação real, sua performance se torna humana a ponto de vermos que existem vários Normans no lado de cá da tela. Ele é aquela pessoa que não tem conexões de relacionamentos, amigos de verdade, nem sua família parece existir (ainda que cite sua filha diversas vezes). Fosse um filme menos político, poderia se dizer que Gere emula Woody Allen a cada instante devido às suas falas constantes beirando à neurose típica do cineasta nova-iorquino.

Se Cesar imprime muito de sua personalidade em sequências em que a decupagem é pouco vista no cinemão hollywoodiano, ele também​ entende que seu ator principal é a alma do filme. É difícil dissociar Norman de Gere e vice-versa. Por trás do verniz de longa político e empresarial, há a história de um homem em busca de reconhecimento, mesmo que não seja exatamente das pessoas certas. É um trabalho tratado com muito bom humor, o que torna as discussões de estado pouco enfadonhas para quem possa não entender o contexto geral de como as coisas ocorrem no alto escalão executivo. No entanto, é um belo tratado sobre a natureza humana através do estudo de personagem, o que facilita ainda mais a conexão com o público. E Richard Gere? Se o Oscar fosse agora, ele já poderia contar com uma indicação inédita em sua carreira. Algo que ele realmente parece almejar. Mesmo que não consiga, o ator é como Norman: ele sabe nadar. E numa maré selvagem como a de Hollywood, poucos sabem fazer isso com tanta distinção.

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é crítico de cinema, apresentador do Espaço Público Cinema exibido nas TVAL-RS e TVE e membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista e especialista em Cinema Expandido pela PUCRS.
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