Crítica

Nomes fundamentais durante a retomada das animações da Disney na virada dos anos 1980 para os 1990, com sucessos como A Pequena Sereia (1989), Aladdin (1992) e Hércules (1997), os diretores Ron Clements e John Musker assumem desta vez a responsabilidade de dar continuidade a uma nova fase dos longas animados do estúdio, que busca aderir cada vez mais à demanda da sociedade contemporânea pela exposição de temas como a diversidade e a representatividade feminina. Essa tendência, iniciada pela própria dupla com A Princesa e o Sapo (2009), que trazia a primeira protagonista negra da história da Disney, se apresenta de forma plena em Moana: Um Mar de Aventuras, produção co-dirigida por Don Hall e Chris Williams.

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A trama acompanha a personagem que dá nome ao longa, a jovem filha do chefe da ilha de Motunui, na região do Pacífico Sul, que, mesmo relutante, começa a se preparar para seguir a tradição, e o desejo do pai, e se tornar líder de seu povo. Porém, quando uma antiga profecia envolvendo o poderoso ser de lava Te Kã ameaça a existência de Motunui, Moana se entrega à sua atração pelo mar, iniciando uma viagem em busca do lendário semideus Maui, que através do poder de seu anzol mágico é capaz de assumir qualquer forma animal. Juntos, eles enfrentarão diversos obstáculos para devolver o coração da deusa Te Fiti, pedra preciosa roubada por Maui que despertou a ira de Te Kã, e restabelecer a paz.

Narrativamente, a jornada apresentada por Clements e Musker se mostra mais familiar e menos complexa do que a de Zootopia (2016) – a outra animação Disney lançada neste ano – mas, através do tratamento dado ao desenvolvimento da protagonista, subvertendo vários paradigmas sobre o papel da mulher neste tipo de aventura, os cineastas conseguem imprimir uma grande força ao seu trabalho. Desde o início, Moana é retratada como uma garota que luta por sua independência e lida com um conflito de identidade, pois mesmo assumindo naturalmente uma posição de poder como chefe da ilha, ela se sente presa a essa responsabilidade, desejando responder ao chamado do oceano – símbolo máximo de liberdade – e colocar em prática sua liderança por meio do resgate das raízes desbravadoras de seu povo.

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O longa segue uma construção de personagem semelhante a de Merida em Valente (2012), como não ter um interesse romântico, querer provar seu valor ao pai e manter uma forte conexão com outra figura feminina. No caso da arqueira ruiva essa ligação se dava com a mãe, já no de Moana é a avó que assume tal papel, uma personagem extremamente sensível, que com seu espírito livre se transforma em um modelo para a neta. Os tipos masculinos surgem, num primeiro momento, como símbolos que contrapõem a emancipação de Moana, como o pai que reprime os desejos da filha, visando sua proteção, ou Maui, que inicialmente subestima a garota: “Se usa vestido e tem um animal de estimação, é uma princesa”, afirma o semideus de ego inflado. Clements e Musker, porém, não se excedem e tomam o devido cuidado para não demonizar as figuras masculinas, utilizando tais confrontos com perspicácia para extrair seu potencial cômico e reforçar a mensagem de empoderamento do longa, que se estende também à importância da deusa Te Fiti na história.

Novamente trabalhando com o ambiente marinho, como em A Pequena Sereia, mas pela primeira vez com animação em computação gráfica, os diretores criam um universo de paisagens visualmente deslumbrantes para embalar seu discurso, se aproveitando muito bem das particularidades da cultura e da mitologia da Oceania, como as tatuagens com movimento no corpo de Maui, criadas em animação tradicional, que funcionam como se fossem sua consciência. O design dos personagens também se destaca pelos traços marcantes, com a corpulência do semideus ou mesmo a concepção de Moana, que foge dos padrões estéticos ocidentais. Outro elemento cultural polinésio incorporado ao longa são os ritmos musicais presentes na trilha composta por Lin-Manuel Miranda, Mark Mancina e o samoano Opetaia Foa'i, contendo belas canções como a apoteótica “How Far I'll Go” e a divertida “You're Welcome”. Por sua vez, a sequência musical mais elaborada, com o caranguejo Tamatoa, não flui com a mesma perfeição, ainda que seja rica esteticamente.

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A animação não deixa de se sujeitar a algumas convenções formulaicas, como os animais que possuem a função exclusiva de alívios cômicos – o simpático porquinho e Heihei, o galo de inteligência diminuta, que lembra a gaivota perturbada de Procurando Dory (2016) – as piadas envolvendo elementos culturais modernos – como Twitter e Facebook – ou o didatismo de certas passagens, como Moana reafirmando não ser uma princesa. Mas são pequenos detalhes que não prejudicam o resultado final de Moana: Um Mar de Aventuras como um entretenimento de qualidade, capaz de fazer sorrir com suas piadas, de elevar a adrenalina em espetaculares sequências de ação – como o ataque dos piratas de coco – e de emocionar. Caso da cena do primeiro encontro da protagonista, ainda bebê, com o mar, que com sua extrema delicadeza faz suscitar o sentimento da clássica “magia Disney”.

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é formado em Publicidade e Propaganda pelo Mackenzie – SP. Escreve sobre cinema no blog Olhares em Película (olharesempelicula.wordpress.com) e para o site Cult Cultura (cultcultura.com.br).
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