Minha Querida Senhorita

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Sinopse

Em Minha Querida Senhorita, uma jovem de família tradicional descobre ser intersexo, o que desencadeia um processo de questionamento pessoal e ruptura com expectativas impostas. Ao lidar com identidade de gênero e pertencimento, ela enfrenta conflitos internos e sociais enquanto busca construir sua própria trajetória e vínculos afetivos. Drama/Romance.

Crítica

Poucos lembram, mas Minha Querida Senhorita (1972) foi um longa espanhol indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no mesmo ano em que O Poderoso Chefão (1972) se consagrou com o prêmio principal. Na ocasião, o título dirigido por Jaime de Armiñan perdeu a disputa para um outro espanhol, o mestre Luis Buñuel, que concorria pela França com o hoje clássico O Discreto Charme da Burguesia (1972) – ou seja, percebe-se que tal derrota não pode ser considerada uma vergonha. Mas o certo é que, ainda que no resto do mundo esse fato tenha sido esquecido, em seu país natal o feito segue repercutindo, tanto pela temática, como pelo reconhecimento que a obra arregimentou para si ao longo das décadas seguintes. A ponto de merecer agora uma refilmagem, novamente batizada como Minha Querida Senhorita. E se a nova versão de imediato desperta um olhar atento pela atualização que propõe à história, essa por si justifica o interesse, visto que aborda, com respeito e cuidado, um assunto que segue nebuloso e envolvido por uma mística que anseia por esclarecimento e profundidade: a intersexualidade.

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As primeiras cenas do filme realizado sob o comando de Fernando González Molina já apontam para algo misterioso: um casal discute o que fazer dali em diante, enquanto a mãe se mostra protetora com a filha, ainda um bebê de colo. O homem está indeciso, como que temeroso pelo futuro que os aguarda. A mulher, porém, se mostra decidida, certa do que fazer e de como se portar a partir daquele momento. Há um corte temporal, e mais de vinte anos depois a família parece levar uma vida em harmonia. Adela (Elisabeth Martínez, estreante no cinema) é uma jovem de voz calma e gestos comedidos que trabalha e circula pela cidade de Pamplona, no norte da Espanha, com imensa familiaridade. Tanto é que, numa volta para casa em um dia de chuva, um instante de distração resulta em um leve incidente de trânsito – mais um susto do que uma tragédia, é fato. Mas o suficiente para reconhecer na motorista do outro veículo uma amiga e levar a avó, que a acompanhava no passeio, a necessitar apenas de algumas sessões de fisioterapia para garantir que está tudo certo com ela. Algo que parece pequeno, mas que representará o início de uma mudança radical.

A presença a profissional a cuidar da matriarca será o primeiro sinal. No hospital, quando reencontra um antigo amigo, Adela perceberá em si outro tipo de atenção. E aos poucos notará não se conter mais em si. O que move sua vontade e desejo? O rapaz que desperta memórias ou a jovem que a trata de um modo diferente? Adela é ou não gay? Antes disso, há outra questão. E essa é revelada quando, ao se aproximar da mãe, pede a essa que a acompanhe em uma visita a um ginecologista. A mais velha resiste: “por que mudar de médico, se desde pequena é o mesmo doutor que a atende?”, protesta. Mas a garota insiste: “preciso de um especialista. Tenho 26 anos e nunca fui a esse tipo de consulta”. É assim que o espectador descobrirá o que tem pela frente: Adela não é menina, nem menino. Ela é uma pessoa do gênero intersexo – que até pouco tempo era chamado de “hermafrodita”, termo em desuso por ser considerado incorreto e pejorativo – ou seja, que possuía ao nascer características sexuais (cromossomos, gônadas ou genitais) de corpos femininos e masculinos. Foram os pais, portanto, que decidiram que ela seria vista como menina, e se encarregaram de concordar com os procedimentos médicos necessários para que assim ela se tornasse.

Mas a mudança é profunda, e não meramente física. Pode-se interferir no corpo, porém como trabalhar com a mente, que guarda a verdade mais profunda de cada pessoa? Adela viveu por anos como mulher. Seria ela, no entanto, uma legítima representante do sexo feminino? Na busca pelo seu eu, sai de casa parte rumo ao desconhecido, imaginando que em uma cidade maior teria condições de se reinventar. Essa quebra de narrativa é por demais brusca, e ainda que o filme não trabalhe esse direcionamento de forma orgânica, entende-se os motivos que acompanham a protagonista. Com novos amigos e após adotar uma identidade inédita – apresenta-se como A.D. apenas – ele agora é um rapaz. Ou seja, faz por outro caminho o mesmo que os pais decidiram no seu nascimento. É preciso ir além de um corte de cabelo e de um modo de se vestir. E eis o melhor que essa história tem a oferecer: o atestado que está no entorno – ou seja, nas famílias alternativas que cada um tem condições de organizar para si – a capacidade de se entender, se organizar e enfim se encontrar. Adela – ou A.D. – é uma pessoa em formação. Não muito diferente de tantas outras. E estará no momento em que aceita esse processo que a paz que almeja para si poderá ser alcançada.

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Molina se tornou conhecido pela Trilogia de Baztán, composta por três filmes baseados em romances da escritora Dolores Redondo: O Guardião Invisível (2017), Legado nos Ossos (2019) e Oferenda à Tempestade (2020). Com Minha Querida Senhorita ele deixa de lado um pouco as reviravoltas inesperadas e a cartilha dos suspenses detetivescos, ainda que siga demonstrando resistência em um maior detalhamento na natureza de seus personagens, contentando-se em apenas arranhar a superfície desses. Martínez é ela própria uma atriz intersexo, o que carrega sua interpretação de um simbolismo próprio. No entanto, carece de experiência cênica, o que fica claro nas passagens mais densas da trama, evidenciando uma fragilidade em sua atuação. Por mais que uma das estrelas do longa original tenha dado sua aprovação a essa nova leitura – a gigante Julieta Serrano faz uma participação especial durante uma cena extra exibida junto aos créditos de encerramento – fica evidente o abismo que há entre as duas. Ganha-se em representatividade ao mesmo tempo em que se carece de maior dimensão dramática. É preciso saber escolher a luta a ser empenhada. E se essa versão de 2026 cumprir o legado e colocar esse assunto tão delicado em debate, o saldo se confirmará positivo.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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