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Sinopse
Pequenas Criaturas se passa em Brasília, no ano de 1986. Helena mal se instalou com a família na capital futurista do Brasil quando o marido parte em viagem de negócios. Abandonada em uma cidade desconhecida, ela questiona suas escolhas se sentindo frustrada e perdida. Drama.
Crítica
Tudo é uma questão de perspectiva. Certas coisas – pessoas, situações, sentimentos – podem parecer gigantes, se isoladas, ou minúsculas, se comparadas com outras. Porém, é importante manter algo em mente: somente o aquele diretamente afetado sabe a jornada por ele percorrida. E o esforço depreendido para tanto. Esta é uma lição pela qual os personagens de Pequenas Criaturas precisam, juntos ou de forma individual, aprender. Por vezes esse ensinamento poderá surgir naturalmente. Mas haverão situações que não irão esperar o melhor momento para se impor. A necessidade se fará manifestar, independente daqueles envolvidos estarem prontos, ou não, para o que virá depois. No filme escrito e dirigido por Anne Pinheiro Guimarães, cada um tem a sua própria cruz para carregar. Mas há também a fortuna proporcionada por encontros quase que ao acaso. Do não dito. Do que não necessita explicação. Que apenas acontece. E assim, também transforma.

Codiretora de Transe (2022), Guimarães passou antes pela televisão e streaming, tendo se envolvido com episódios de séries como Nós (2020) e Desjuntados (2021). Pois Pequenas Criaturas dialoga diretamente com estes trabalhos, e não tanto com seu longa anterior. O foco, afinal, é mais amplo, não direcionado a apenas um quadro, mas interessado em mais de uma dinâmica: na esposa abandonada, no caçula que procura dar sentido ao que se passa ao seu redor de um jeito muito próprio, no primogênito que ainda não entendeu seu lugar no mundo, na vizinha que sorri para se manter viva, no tipo esquisito que ninguém entende, no melhor amigo que passou pela pior das experiências e ainda assim encara a vida com leveza. Cada um destes dramas poderia gerar um percurso pessoal a ser trilhado com atenção e profundidade. Colocados lado a lado, no entanto, proporciona-se a formação de um cenário maior, mais intrigante e revelador. Eis o presente que o filme tem a oferecer a sua audiência.
Helena (Carolina Dieckmmann, lidando bem com as limitações de uma personagem que demora a agir, contentando-se, na maior parte da trama, a apenas observa os acontecimentos e a reagir quando provocada) se mudou com os filhos para Brasília, ainda nos anos 1980, quando a cidade era tomada por estradas fantasmas e prédios vazios, por causa do trabalho do marido. Porém, ao chegar lá, descobre que ele tem uma amante e não está particularmente comprometido com a harmonia familiar. Sozinha, a protagonista precisa descobrir o que fazer a seguir. Mas antes de definir um destino ao grupo que lhe foi legado, precisa identificar em si a força para o próximo passo. Há muito hermetismo nessa proposta, e para um melhor entendimento o espectador deverá mergulhar junto com ela nesse desalento ao qual se vê sujeita. A apatia encontra oportunidades de vazão, mas insiste em permanecer.
Enquanto a mãe busca por si mesma, os filhos fazem o que podem com os pedaços de vida que lhes sobram. O mais velho, já quase adolescente, tem um mundo a descobrir. Os novos cruzamentos que atravessarão seus dias tanto podem ser preenchidos por ameaças de bullying como por novas amizades. Ele terá que decidir por qual desses vieses se arriscar e como lidar com as pedras que insistirão em marcar estes caminhos. Também se perceberá um forte debate interno nas interações do pequeno, tanto em relação à companhia que aprenderá a abrir mão, como às novas que acabará acolhendo. Todos eles, cada um ao seu modo, terá que descobrir não apenas seus lugares nessa formação que lhes restou, mas também como enfrentar o que ainda está por vir.

Nem tudo é perfeito, no entanto, em Pequenas Criaturas. Talvez o ponto mais problemático da história seja a construção do personagem de Fernando Eiras, desenhado desde o princípio como uma ameaça, apenas para mais adiante a diretora se revoltar contra a audiência acusando essa de um julgamento apressado. É como se dissesse: “conheça, antes de tirar suas próprias conclusões”. Porém, numa realidade cada vez mais complicada como a presente, tal proximidade pode representar um perigo difícil de ser remediado – e manchetes de jornal e estatísticas públicas comprovam essa veracidade. Uma vez superado esse desconforto propositalmente inserido no contexto, mas sem um encaixe que o justifique, restará em cena um conto sofrido, mas ainda assim digno de certo encanto, de superação e afetos compartilhados. Pode parecer pouco, mas aqui é o suficiente para que a mudança encontre o seu espaço.
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Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 7 |
| Daniela Pedroso | 8 |
| Alysson Oliveira | 4 |
| Ailton Monteiro | 7 |
| MÉDIA | 6.5 |

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