Crítica
Leitores
Onde Assistir
Sinopse
Maldição da Múmia acompanha o drama de uma família marcada pelo desaparecimento da filha de um jornalista, sumida misteriosamente no deserto. Oito anos depois, o retorno inesperado da jovem reacende esperanças e feridas mal cicatrizadas. No entanto, o reencontro logo revela sinais perturbadores, transformando o que deveria ser um momento de alívio em um pesadelo crescente, no qual segredos antigos e forças inexplicáveis vêm à tona. Horror.
Crítica
O primeiro contato, ao menos para os mais atentos, já antecipa um sinal de estranhamento – e até mesmo de alerta – afinal o título original deste longa não é apenas The Mummy, ou ainda The Mummy’s Curse, mas, sim, Lee Cronin’s The Mummy. Mas, afinal, quem é Lee Cronin, o diretor e roteirista de Maldição da Múmia? Ele não é um autor venerado e centenário do porte de um Drácula de Bram Stoker (1992), menos ainda um produtor milionário que decidiu assinar suas obras com o próprio nome, como De Tyler Perry: Duplicidade (2025). Com pouco mais de quarenta anos, o cineasta irlandês tem apenas um único longa digno de nota feito em Hollywood: A Morte do Demônio: A Ascensão (2023), que ainda que tenha ido bem nas bilheterias e ressuscitado uma saga um tanto esquecida, está longe de ser considerado um fenômeno. Ainda assim ele conseguiu o direito de outorgar para si essa versão do clássico A Múmia (1932), por mais que se entenda ser esse um longa de produtor. Afinal, quem ditou as regras nos bastidores foi Jason Blum, que aqui dá continuidade ao seu intento de recriar – e modernizar – os grandes monstros da Universal. Às vezes acerta (O Homem Invisível, 2020), em outras termina derrapando (Lobisomem, 2025). Dessa vez, o que conseguiu foi ficar no meio termo.

O esforço de Cronin em se mostrar mais autoral afastou essa releitura – uma nova interpretação, portanto, mais atual e menos atenta aos cânones da lenda – do que se conhecia a respeito do morto revivido e envolto por faixas dos pés à cabeça. O que propõe é quase o que aconteceria se, nos dias de hoje, alguém tentasse reproduzir esse embalsamento, porém a partir de uma provocação oriunda de uma praga lançada há muitos séculos. De tempos em tempos, uma família precisa replicar o ritual de mumificação a partir de inocentes para que seus membros não sejam afetados por repercussões terríveis. Quem acaba envolvida nesse processo é uma menina de não mais do que uma década de vida. A coisa fica ainda pior quando a garota é sequestrada de seus pais em pleno Cairo, sendo que esses são norte-americanos prestes a deixar o Egito. O desaparecimento da filha será um fantasma que passará a persegui-los onde quer que estejam.
Apesar das histórias não serem conectadas entre si, a proposta de Maldição da Múmia é similar à percebida em O Homem Invisível e em Lobisomem. Nos três casos, são as famílias dos afetados por tal desgraça – um homem que perde a tangibilidade, um pai que se transforma em lobo, uma filha que reaparece semimorta – e em todos eles não apenas demoram a perceber os efeitos do que aconteceu ao seu ente até então querido, como também pagarão preços altos demais por essa realização tão tardia a respeito do que estava se passando debaixo do mesmo teto dos demais. Quando a primogênita do casal Charlie (Jack Reynor) e Larissa Cannon (Laia Costa, de Victoria, 2015) é reencontrada, para os dois é como se um doloroso pesadelo tivesse chegado ao fim. Mal fazem ideia, porém, que o inferno deles estava apenas começando – e agora com mais força do que nunca. A garota é descoberta dentro de uma tumba sendo contrabandeada de um país a outro, e seu estado é deplorável – desnutrida, enfraquecida, desprovida de qualquer tipo de ânimo nos olhos, incapaz de se comunicar ou mesmo se mover sozinha. A mãe está desesperada para ocupar o lugar que lhe foi roubado tantos anos antes. O pai também busca essa reaproximação, mas é o primeiro a perceber que algo de errado está entre eles.
Se por um lado desperta curiosidade a abordagem escolhida, que se poderia dizer até mesmo naturalista, para uma fábula sobrenatural e aterrorizante, por outro é decepcionante perceber a incapacidade de Cronin em desviar dos mais óbvios clichês do gênero por ele escolhido. Um exemplo evidente é a parca iluminação de uma casa que, apesar de estar sempre com seus lustres e abajures acesos, praticamente não permite que nada seja visto às claras em seus cômodos e ambientes (claro, afinal, filme de terror precisam se desenrolar no escuro e no máximo de sombras possíveis). Outro elemento usado à exaustão é a trilha sonora como meio de ditar as reações da audiência – a dicotomia com o roteiro é tamanha que parece até mesmo ter sido reaproveitada de uma outra obra, tão não condizente com o tom assumido pela narrativa o uso da música e o emprego dos ruídos e efeitos sonoros se mostram. O exagero é o alvo a ser perseguido do início ao fim, enquanto que o texto busca revelar sua ameaça aos poucos, por indícios não comprometedores e que apenas com mais de metade da trama já passada é que se confirma suas intenções. Enfim, é como se dois filmes estivessem comprimidos em um só longa.

As próprias reações dos personagens são antagônicas. Laia Costa se esforça para entregar uma ‘mãe-coragem’ que nem ela mesma consegue sustentar por muito tempo (se a princípio afirma que irá lutar pela filha mumificada até o fim, basta a primeira tragédia acontecer para declarar: “acho melhor a gente ir embora daqui”). Jack Reynor há tempos vem tentando se firmar como herói de ação em Hollywood, porém o que tem se mostrado constante em sua filmografia é a capacidade de escolher projetos nos quais seu personagem tende a se envolver nas maiores furadas (como Midsommar: O Mal Não Espera a Noite, 2019, e a minissérie O Casal Perfeito, 2024, atestam). Como uma diretriz da Blumhouse, a lógica se concentra mais nos afetados e menos naqueles responsáveis pelo mal, e aqui mais do que em qualquer dos episódios já citados lamenta-se a falta de interesse dos realizadores em explorar as origens de toda a desgraça pontuada em Maldição da Múmia, um título que até demonstra ter a disposição os elementos necessários para se distanciar dos seus antecessores, mas carece de habilidade para combiná-los com efeito.
Últimos artigos deRobledo Milani (Ver Tudo)
- Quem Tem Com Que Me Pague, Não Me Deve Nada :: “Não basta ser intelectualizado quando o traquejo humano está em falta”, afirma Rodrigo Pandolfo - 20 de maio de 2026
- O Gênio do Crime :: “É uma responsabilidade enorme falar com o público infantil. A criança sabe o que gosta e fala na hora”, afirma Marcos Veras - 15 de maio de 2026
- Hungria: A Escolha de um Sonho :: “É a história de 98% dos brasileiros. Aqueles que precisam lutar muito mais para chegar lá”, afirma o ator Gabriel Santana - 14 de maio de 2026

Deixe um comentário