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Sinopse
Em L'Inconnue, David Zimmerman, um fotógrafo próximo dos 40 anos que leva uma vida reclusa, é levado por amigos a uma festa onde se depara com uma mulher misteriosa que o intriga profundamente. Após segui-la, ele desperta na manhã seguinte em uma realidade completamente transformada, preso em uma identidade que não é a sua. Fantasia/Suspense.
Crítica
L’Inconnue é o novo filme dirigido e escrito por Arthur Harari, co-roteirista de Anatomia de Uma Queda (2023), de Justine Triet, vencedor da Palma de Ouro e do Oscar de Melhor Roteiro. Baseando-se em uma graphic novel co-escrita com seu irmão Lucas Harari, o cineasta nos apresenta um universo em que quase tudo é esquisito e enigmático. A começar pelo protagonista, David (Niels Schneider), um fotógrafo recluso e introvertido, que parece bem desconfortável ao comparecer a uma festa a fantasia no início do filme. Alguém lhe oferece uma pílula colorida para tentar animá-lo. Sob o efeito da suposta droga (ou não), ele troca olhares com uma desconhecida (Léa Seydoux), com quem acaba fazendo sexo por lá mesmo, sem trocarem palavras ou qualquer gesto de afeto.

Quando chega em casa e se olha no espelho, David percebe que está dentro do corpo daquela mulher. Ele descobre se tratar de Eva, uma atriz alemã que por acaso havia fotografado numa festa de bodas em que ela trabalhava como garçonete. Quando consegue identificar o paradeiro de seu corpo original, ele já não está mais habitado por Eva, mas sim por Malia, uma jovem de 20 anos que posteriormente fez sexo com a suposta “entidade” que se apossou do corpo de David.
O filme passa a acompanhar o pesadelo vivido por ambos para lidar com a situação. O caminho mais fácil seria o da comédia de costumes, tipo Se Eu Fosse Você (2006), explorando os clichês das dificuldades para conseguir se adaptar ao corpo de uma pessoa do gênero oposto, mas isso sequer é colocado em questão. O tratamento do tema aqui é o mais sério e realista possível, sem elementos visualmente mágicos, como efeitos especiais associados à ficção científica.

Na tentativa de esclarecer o mistério, David e Malia procuram em fóruns na internet quem afirma ter passado por isso e depois testam desfazer o “feitiço” (se é que podemos chamar assim) transando para ver se David volta para dentro do próprio corpo. Não funciona. Ambos parecem condenados para sempre a viver em espaços biológicos que não os pertencem, e outras situações inesperadas se sucedem. As consequências propiciam reflexões profundas sobretudo de cunho filosófico, e esse parece ser um caminho melhor para apreciar esse belo e angustiante filme do que ficar a todo custo montando um quebra-cabeças cheio de peças faltando propositalmente.
Filme visto durante o 79o Festival de Cannes, em maio de 2026
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