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A terceira noite do 54º Festival de Cinema de Gramado foi marcada pela exibição de Pele de Rinoceronte, longa dirigido e produzido por Marcello Ludwig Maia e escrito por Josefina Trotta. Inspirado no feminicídio de Ângela Diniz, um dos casos criminais mais emblemáticos da história brasileira, o filme parte de uma história conhecida para investigar não apenas a violência contra a mulher, mas também a maneira como imprensa e sociedade constroem a memória de um crime. A sessão foi recebida com aplausos no Palácio dos Festivais, e agora a produção busca o Kikito na competição de longas brasileiros. 

Na manhã desta segunda-feira, 17, Débora Falabella e Naruna Costa conversaram com o Papo de Cinema sobre a experiência de integrar o projeto e as diferentes camadas de violência presentes na obra.

FESTIVAL DE GRAMADO 2026

UM CASO CONHECIDO POR OUTROS OLHOS

Em Pele de Rinoceronte, Débora interpreta uma repórter policial encarregada de cobrir o caso para um jornal popular, enquanto Naruna vive uma advogada responsável pela acusação contra o réu. Paralelamente, a trama acompanha a própria vítima, interpretada por Camila Lucciola, reconstruindo seus últimos dias. Ao cruzar esses diferentes pontos de vista, o longa evita restringir sua abordagem ao crime em si e amplia a discussão para o modo como uma mulher é transformada em personagem depois de sua morte. A imprensa, o sistema judiciário e o imaginário social passam a fazer parte da investigação proposta pelo filme, que também lança um olhar sobre o machismo estrutural.

Festival de Cinema de Gramado 2026 :: Equipe de Pele de Rinoceronte no tapete vermelho. Foto: Edison Vara
Festival de Cinema de Gramado 2026 :: Equipe de Pele de Rinoceronte no tapete vermelho. Foto: Edison Vara

É justamente nessa construção por camadas que Naruna Costa encontrou uma das características mais interessantes do trabalho. Para a atriz, Pele de Rinoceronte consegue inserir questões que vão além do feminicídio sem necessariamente precisar verbalizá-las. Foi maravilhoso poder trazer também essa camada racial para um filme que tem a questão do feminicídio como mote principal, mas conseguir colocar isso de uma forma sutil. Acho que o filme tem essa maravilha de trazer muitas sutilezas de todas essas violências, com uma abordagem que vai para além do que é explícito, do que é dado. Isso é muito importante”.

MULHER NEGRA NOS ANOS 1970

A própria existência da personagem interpretada por Naruna já carrega, segundo a atriz, uma dimensão social importante. “Sem precisar falar, o filme já traz esse assunto quando me coloca para fazer uma advogada que tem uma posição importante sendo negra nos anos 70. Isso, sem precisar tocar no assunto, já comenta essa presença em um país que, infelizmente, é um país racista. E, quando a gente faz esse comentário, que é mínimo, ele ressalta para quem ainda não entendeu”.

A escolha também amplia a própria compreensão sobre as diferentes formas de violência que atravessam a narrativa. Para Naruna, olhar para o caso décadas depois significa perceber que algumas das estruturas que permitiram determinadas justificativas para a violência contra mulheres continuam presentes. Acho que esse caso traduz muitas atrocidades. Para além da figura dela, que foi uma figura importante no âmbito social brasileiro, existem muitas camadas que revelam e ressaltam o quanto a gente está caminhando para trás. E falo isso porque 2026 apresenta números altíssimos de casos de feminicídio, que estão aumentando em relação ao ano passado. Então, para mim, é um caso que traduz muitas camadas desse assunto de uma forma muito interessante”.

POR QUE CONTINUAMOS VOLTANDO A ESSA HISTÓRIA?

A permanência do caso no imaginário brasileiro também ajuda a explicar por que ele continua sendo revisitado pelo audiovisual. Para ela, não se trata apenas da dimensão pública da vítima, mas de tudo aquilo que o crime revelou sobre a maneira como a violência contra mulheres foi historicamente interpretada.

Festival de Cinema de Gramado 2026 :: Pele de Rinoceronte
Festival de Cinema de Gramado 2026 :: Pele de Rinoceronte

Não é à toa que esse caso volta a ser debatido no audiovisual, nos documentários, porque, para além da figura dela, o que esse caso carrega é essa impunidade. A ideia de legítima defesa da honra, a ideia de crime passional, dessa autorização que os homens têm para violentar suas companheiras com o pano de fundo do amor, do ciúme ou da passionalidade. Nesse sentido, acho que ele é muito importante.”

DÉBORA FALABELLA: 25 ANOS DEPOIS

Além do novo filme, para Débora Falabella, a passagem por Gramado também possui uma dimensão pessoal. A atriz retorna ao festival décadas depois de ter sido premiada no início de sua carreira, com Françoise, em 2001. “Gramado me deu o prêmio de Melhor Atriz quando fiz um curta em Belo Horizonte. Foi meu primeiro filme. Eu nem tinha saído de BH ainda. Foi um trabalho do Rafael Conde, preparado, inclusive, pela Yara de Novaes, que é uma grande parceira artística minha. É um curta pelo qual tenho muito carinho”.

A lembrança daquele momento vem acompanhada de uma curiosidade: embora tenha recebido o reconhecimento do festival, Falabella sequer pôde viajar até Gramado para receber o troféu. “Foi um filme feito na rodoviária de Belo Horizonte, um filme lindo, e tive a oportunidade de ganhar esse primeiro prêmio em Gramado. Na época, não vim buscar porque estava fazendo uma novela (Um Anjo Caiu do Céu). Estava começando e ninguém me liberava (risos). Pude voltar no ano seguinte, com Dois Perdidos e Uma Noite Suja. Depois disso, fiquei 25 anos sem vir. Então, para mim, está sendo muito emocionante voltar de uma outra forma, bem mais madura, e com esse filme que é tão importante para a gente”.

HISTÓRIA QUE NÃO TERMINOU

Vale lembrar que Ângela Diniz nunca esteve tão presente no audiovisual quanto nos últimos anos. Filmes, como Ângela (2023), e séries, como Ângela Diniz: Assassinada e Condenada (2025), passaram a revisitar sua história por diferentes perspectivas, permitindo que um caso durante muito tempo associado apenas ao crime passional seja hoje observado sob novos prismas. Agora, resta esperar pelos próximos capítulos dessa trajetória em Gramado e descobrir se Pele de Rinoceronte transforma a boa recepção no Palácio dos Festivais em Kikitos.

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Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]

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