Crítica


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Sinopse

Depois de se separar de Flavio, Claudia se vê como uma alma perdida aos 50 anos de idade e acha que a solução para seus problemas é reconquistar o ex-marido. O que ela não imagina é que Flavio já seguiu em frente e que reconquistá-lo será uma batalha.

Crítica

Ao mais recente filme da cineasta Francesca Comencini, a priori, interessa perscrutar os estilhaços de um elo rompido. Aliás, em sua parte inicial, são sintomáticas as equivalências feitas entre o amor e a guerra, desde as diretas às simbólicas. A protagonista é Claudia (Lucia Mascino), professora universitária que, sem mais aquela, contesta veementemente a fala de seu colega Flavio (Thomas Trabacchi) num colóquio literário. O ímpeto dela é desproporcional, quase um ataque gratuito à opinião alheia julgada completamente equivocada. Ao contrário dos prognósticos, mesmo com a briga e o desconforto instituídos publicamente, eles saem para almoçar e logo depois engatam um relacionamento amoroso que dura sete anos. Em Histórias de Amor que Não Pertencem a Este Mundo se alternam diversos tempos narrativos. A gênese do namoro, dentro desse esquema engenhoso, é apresentada com excertos do passado entrecortando as tentativas da mulher de suportar a dor da separação no presente.

O mais curioso, e também contraproducente, da concepção de Claudia é seu permanente estado de beligerância. Já no começo ela é desenhada na tela como uma mulher essencialmente instável e impulsiva, pronta a tomar decisões intempestivas e perder as estribeiras em circunstâncias muitas vezes bobas. O filme se detém essencialmente em sua figura, deixando aos demais personagens a mera coadjuvância, absolutamente disposto a reforçar seu caráter inconstante. A realizadora corre um sério risco ao optar pela insistência em mostrar Claudia frequentemente vitimada por sua ansiedade e baixa autoestima, sem preservá-la de possíveis leituras mais rasas acerca de suas motivações. Vários estereótipos femininos ganham espessura, não combate, em Histórias de Amor que Não Pertencem a Este Mundo. Enquanto Flavio permanece calmo, sereno, explodindo apenas quando a situação chega ao extremo, sua namorada é pintada como um soldado sempre pronto à batalha.

Histórias de Amor que Não Pertencem a Este Mundo cresce sobremaneira exatamente ao permitir a instauração das nuances, inclusive no que diz respeito à representação das demais pessoas em cena. Flavio, por exemplo, passa a ser encarado de perto, com suas próprias inseguranças à mostra, principalmente ao engatar namoro com uma menina bem mais nova. Embora o paralelo estabelecido entre ele e sua ex – pois ela igualmente se envolve com uma jovem aluna – seja pouco sutil, por claramente despertar reações semelhantes em ambos, ele cumpre a função de tirar um pouco o peso de Claudia. Desse ponto em diante, Francesca Comencini deixa as coisas fluírem num curso mais orgânico, sem a necessidade de enfileirar rompantes de descontrole, inclusive notório, para deixar claro o sofrimento decorrente da desavença do antigo casal. Questões relevantes como a visão acerca da feminilidade no “mercado do sexo” tratam de delinear complexidades que suportam melhor os personagens.

É preciso, portanto, vencer certa antipatia por Claudia. Esse sentimento é suscitado e alimentado por determinadas opções diretivas. Felizmente, com o passar do tempo, somos convidados a chegar mais próximo dela, a criar empatia por sua dor genuína, que, aí sim, naturalmente pode causar algum rompante emocional mais exagerado. Histórias de Amor que Não Pertencem a Este Mundo se beneficia, também, da inteligente estrutura do roteiro que, vencida a fase mais histriônica, enriquece a nossa fruição por estabelecer pontos de contato entre as múltiplas experiências. É bonita a maneira como Francesca Comencini aborda o envolvimento de Claudia com a aluna, não fazendo disso um cavalo-de-batalha, concedendo aos instantes de paixão e erotismo uma importância evidente à superação da dor. Ao se desvencilhar de uma visão predominantemente marcada pelo excesso, concentrado nas minúcias e nas vicissitudes humanas, o filme cresce a olhos vistos, rumo ao fim esperançoso.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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Grade crítica

CríticoNota
Leonardo Ribeiro
6
MÉDIA
6.5

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