Crítica


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Sinopse

Gauthier, um jovem jornalista, descobre que é filho ilegítimo de Guy Jamet, um cantor francês famoso durante as décadas de 1960 até 1990. Com o lançamento de um álbum de coletâneas e uma nova turnê, Gauthier decide seguir Guy em seus shows.

Crítica

Falso documentário sobre uma lenda fictícia da música romântica francesa, Guy começa como algo motivado pela busca de um filho por seu pai. Gauthier (Tom Dingler) resolve fazer um filme sobre Guy Jamet (Alex Lutz), cantor bastante famoso outrora, que mantém um público saudosista fiel ao seu estilo massivamente considerado ultrapassado. As letras falam abertamente de amor, celebram estados exultantes que supostamente enlevam a existência, deliberadamente evitando as filigranas da realidade que tornam as coisas um tanto menos mágicas. Logo, porém, a motivação filial deixa a centralidade, relegada a um espaço intermediário, embora não inexistente ou banal, pois a narrativa prossegue "inventariando" a trajetória fascinante de uma figura imaginada, marcada por superexposição pública, intempéries pessoais e várias saudades. Impressionante, desde o começo, é a caracterização de Lutz, não exatamente pela maquiagem, mas em virtude dos trejeitos, do andar e falar que tornam veraz a postiça velhice.

Guy se empenha, com sucesso, em nos aproximar da personalidade ligeiramente arredia dessa falsa celebridade que enfrenta dificuldades para se encaixar confortavelmente na desiludida atualidade. Isso pode ser visto em trivialidades, como nas jocosas passagens dele tendo embates com aparelhos eletrônicos – porém sem um traço rançoso de lugar-comum –, e nos eventos que permitem ao filme expandir essa sutil, mas contundente, fricção entre passado e presente. Exemplos desse alargamento de visão, sem alardes, feito de maneira orgânica, é a conversa do famoso com uma fã na rua. A senhora reclama da era em que vive, das “cantoras vestidas de ciganas bradando por revolução”, reverenciando Guy como um pretenso emblema da tradição áurea. Diante da indignação de Gauthier com a falta de resposta do homem aparentemente complacente, a resposta é a constatação melancólica de que as pessoas não estão dispostas a ouvir contrariedades. Nada mais atual e triste. É um momento rápido, mas sintomático e pungente.

Outro instante em que Guy utiliza seu protagonista como uma espécie de ponte entre etapas distintas é o colóquio sobre o funcionário homossexual com dificuldades familiares. Superficialmente entendido como um artista conservador, que se apoia em sucessos por muitos considerados anacrônicos, ele fala diretamente à câmera sobre os inconvenientes do rapaz diante do posicionamento obscurantista dos seus, ressaltando a necessidade de privilegiar os direitos individuais. É mais um episódio em que o filme demonstra vontade de evadir as divisas criadas para demarcar uma vivência particular. Os números musicais são bonitos, repletos de uma nostalgia reverente a figuras reais, análogas ao cantor que, assim, alude a uma forte herança francesa de intérpretes românticos, cujo representante mais conhecido internacionalmente, provavelmente, é Charles Aznavour. No plano simbólico, temos a nova França, ávida por conhecer suas fundações, recebendo lições que transcendem laços sanguíneos ou afinidades ideológicas. É na simplicidade desse retrato que está sua força.

Há apenas uma quebra nessa convivência harmônica entre a câmera do filho e o pai que se desnuda paulatinamente. Guy questiona o olhar, se enche de cólera ao imaginar que pode ser ridicularizado pelo dispositivo dotado de potencial para gerar julgamentos. Alex Lutz, aqui se dividindo entre a função de protagonista e diretor, com isso também oferece a possibilidade de uma reflexão acerca do quanto preconcepções influenciam a nossa leitura. Espera-se de uma lenda viva certa fleuma, um charme prevalente, então reproduzido socialmente, mas o acompanhamento de sua rotina revela frivolidades nem sempre associadas a gente renomada. Sem estardalhaços, se ancorando numa habilidosa, embora não radical, mimese da linguagem documental a fim de conceber um acúmulo de camadas, o realizador gera um resultado complexo, principalmente por permitir essa interlocução entre períodos inteiramente diferentes, entendendo o afeto, por mais obsoleto que ele pareça na atualidade empedernida, como uma solução perfeitamente viável.

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Jornalista, professor e crítico de cinema membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Ministrou cursos na Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, na Academia Internacional de Cinema/RJ e em diversas unidades Sesc/RJ. Participou como autor dos livros "100 Melhores Filmes Brasileiros" (2016), "Documentários Brasileiros – 100 filmes Essenciais" (2017), "Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais" (2018) e “Cinema Fantástico Brasileiro: 100 Filmes Essenciais” (2024). Editor do Papo de Cinema.

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