Crítica


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Sinopse

Na sequência da revolução sexual e do surgimento do movimento feminista, a partida de tênis de 1973 entre a campeã mundial feminina, Billie Jean King, e o ex-campeão dos homens, Bobby Riggs, foi divulgada como A Guerra dos Sexos. Esse jogo se tornou um dos eventos esportivos televisionados mais vistos de todos os tempos, chegando a 90 milhões de telespectadores em todo o mundo. À medida em que a rivalidade entre King e Riggs aumentava, fora de campo, cada um enfrentava batalhas mais pessoais e complexas.

Crítica

Há no início de A Guerra dos Sexos uma evidente vontade de discutir a discrepância entre o tratamento dispensado a homens e mulheres. A insurreição da multicampeã Billie Jean King (Emma Stone) contra o machismo corporativo das associações esportivas ensaia se tornar a grande bandeira da realização de Jonathan Dayton e Valerie Faris. Em meio a discursos aberta e publicamente chauvinistas, que deflagram formalmente a pouca propensão do filme às sutilezas, aparece a figura espalhafatosa de Bobby Riggs (Steve Carell), tenista aposentado, e sua compulsão por apostas. Aos poucos, porém, não é necessariamente o desenvolvimento paralelo das trajetórias, mais tarde confluentes, de ambos que enfraquece os postulados do conjunto. O discurso é direto, francamente exposto, mas combalido enquanto força motriz na medida em que outras dinâmicas o perpassam, promovendo uma diluição de sua importância e vigor. Por outro lado, a bela reconstituição de época ajuda a tornar as coisas críveis.

Logo que a indignação de Billie ganha corpo, com a realização de um campeonato alternativo no qual as mulheres possuem pagamentos minimamente compatíveis com o público alcançado, o olhar da produção se volta à seara doméstica. É conferido um tempo significativo à construção do encantamento da protagonista por sua cabeleireira. O envolvimento amoroso delas é um tabu e, portanto, acaba requisitando os holofotes, dirimindo ligeiramente a exposição das engrenagens perversas que atuam à manutenção do status falocêntrico da sociedade. Mesmo totalmente posta em jogo, a questão do relacionamento homossexual não chega a se impor como fator determinante para sucessos ou fracassos. Esse conflito é subaproveitado, se resumindo a poucas cenas do marido de Billie passando da tristeza à resignação e outras em que o desempenho das quadras parece afetado pelo torvelinho que a atravessa. A vitória como condição legitimadora, aspecto trazido à tona, se esvai sem vingar.

A própria participação de Steve Carell só engrena quando a questão sentimental de Billie praticamente estagna. Numa jogada abertamente de marketing, seu personagem desafia mulheres em atividade para partidas em que, supostamente, ele provaria a supremacia do macho. O caráter superficial de A Guerra dos Sexos aparece, inclusive, na exibição do primeiro desses jogos tira-teima, em que uma, a priori, às do esporte joga como iniciante. Faltam nuances ao longa-metragem de Jonathan Dayton e Valerie Faris e sobram conversas repletas de frases de efeito, bem como pausas dramáticas milimetricamente calculadas e, por isso, quase artificiais. O bom desempenho do elenco trata de abrandar as debilidades diretivas e de roteiro. Emma Stone, ventilada desde já como uma das possíveis postulantes às láureas na próxima temporada de prêmios estadunidense, segura bem a responsabilidade de construir cinematograficamente essa mulher aguerrida, mas afetada diretamente pelo amor inesperado.

Quando, efetivamente, os caminhos de Billie e Bobby convergem, A Guerra dos Sexos se volta à esfera midiática, já que a excentricidade do veterano parece não ter limites. Curioso notar a disposição dela, mesmo fortemente afrontada pelo discurso deliberadamente machista – ele entende-se porta-voz de uma parcela do público tão torpe quanto sua sanha por notoriedade –, em não afrontá-lo com uma retórica bélica, nesse sentido, se recusando a emular as estratégias do “inimigo” no embate embalado por uma trilha sonora finíssima (e tem como errar ao pincelar grandes músicas dos anos 70?). O filme se ressente, porém, do excesso de vieses e da fragilidade deles enquanto nutrientes uns dos outros, do que resulta um conjunto competente, mas pouco afeito a mergulhos profundos nas questões propostas. É uma cinebiografia quadrada, sem tempero singular, que se assiste com prazer, mais em virtude da representatividade dos fatos que propriamente do engenho cinematográfico.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, também leciona ocasionalmente na Academia Internacional de Cinema/RJ.
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