Framing Britney Spears: A Vida de uma Estrela
-
Samantha Stark
-
Framing Britney Spears
-
2021
-
EUA
Crítica
Leitores
Onde Assistir
Sinopse
Pessoas que gravitam em torno da estrela Britney Spears avaliam sua carreira enquanto ela protagonizada uma disputa judicial para retomar as rédeas de suas vidas pessoal e profissional.
Crítica
É importante começar esclarecendo alguns aspectos a respeito deste filme. Primeiro, ele endossa uma tese clara a respeito do regime de tutela sob o qual Britney Spears vive há doze anos: de acordo com a diretora Samantha Stark, a cantora tem sua liberdade limitada pelas escolhas autoritárias do pai, sujeito pouco afetuoso que buscaria se beneficiar da fortuna da filha. Em outras palavras, o documentário representa um manifesto do movimento #FreeBritney, escutando fãs, amigos e colaboradores que compartilhem esta avaliação do caso. Nos letreiros finais, a cineasta esclarece que tentou conversar com os familiares da protagonista, além da própria cantora, mas não obteve resposta. É compreensível que a parte adversa tenha rejeitado a participação num projeto munido de teses prontas, buscando referendá-las através de suposições e depoimentos de terceiros. Nesta narrativa, indícios sólidos de abuso de autoridade são misturados a fofocas e especulações a partir de fotos em redes sociais. Tudo vale para corroborar a tese defendida pela direção.

Segundo, The New York Times Presents Framing Britney Spears (2020) constitui, conforme atesta seu título original, um produto jornalístico. Trata-se de um telefilme, parte de uma série de documentários biográficos realizados pelo jornal norte-americano. Desta maneira, ele assume sua vertente de reportagem destituída de ambição artística. Para a nossa surpresa, ao invés de uma roteirista, o filme conta com uma “editora-chefe”, Liz Day. Em consequência, o projeto investe numa estrutura convencional, intercalando dezenas de entrevistas com escasso material de arquivo. O ritmo frenético lembra os programas de televisão, frutos desta época quando se tem medo que o espectador pule para outro canal, ou abra uma aba diferente em seu navegador de Internet. Em meio à ágil sucessão de imagens, uma das principais reflexões diz respeito ao papel nocivo dos tabloides. Stark sugere que a presença invasiva dos paparazzi e a sede por polêmicas a respeito da cantora teriam sido determinantes em seu declínio emocional. Ela critica o sensacionalismo e a falta de empatia de veículos que faturaram milhares de dólares em cima da crise pessoal e familiar de Britney Spears.
Ironicamente, o documentário adota um tom próximo àquele dos tabloides que critica. A personagem é reduzida à posição de filha problemática e artista de psique frágil. A direção aponta dedos aos veículos que jamais investigaram a situação emocional da artista, nunca tentaram entender a relação conflituosa com o pai, nem permitiram que ela se expressasse por si mesma. Ora, esta vídeo-reportagem de 2020 se pauta pela sucessão de escândalos, incluindo fotos de Britney Spears com o cabelo raspado e atacando o carro de um fotógrafo, além de inúmeras capas de revistas pop com especulações bombásticas sobre os casamentos, divórcios e internações. No entanto, jamais preenche as lacunas acusadas em terceiros: continuamos sem saber de que males padecia a jovem, ou em quais termos ela se relacionava com o pai. Personalidades do YouTube, incluindo duas jovens autoras de um podcast sobre o Instagram de Britney Spears ganham a oportunidade de especular a respeito da vida dela, porém nenhum psicólogo ou estudioso do meio musical o faz. Stark permite que intrigas e teorias da conspiração se misturem às evidências, prejudicando a credibilidade de sua argumentação.
O principal incômodo diante de Framing Britney Spears: A Vida de uma Estrela provém da leitura da protagonista enquanto objeto, ao invés de sujeito. O filme se constrói na terceira pessoa, a partir de impressões e episódios narrados por outros. Stark se interessa somente pelas entrevistas de Britney Spears quando a cantora cai no choro, ou quando se exalta: busca-se a catarse para reforçar a tese de exaustão emocional. Devem existir inúmeras provas do abuso de autoridade legal do pai sobre a filha, além da vontade desta em sair do regime de tutela, no entanto, nenhuma evidência é apresentada. Para um trabalho de investigação jornalística, é problemático que o espectador se depare com uma enxurrada de rumores. Visto que todas as vozes convergem à mesma mensagem, somos levados a acreditar nesta versão marcada por muita convicção e poucas provas. Fala-se pouquíssimo sobre as músicas, a ascensão como dançarina e criadora, a relação com os fãs e outros elementos fundamentais para compreender a origem do ícone pop. Nesta disputa de narrativas, o New York Times se lança com a voracidade de um veículo caça-cliques, apresentando pouco embasamento às graves insinuações.

É provável que o maior interesse da obra provenha de sua leitura enquanto sintoma do jornalismo e do cinema documental mainstream em tempos de crise. Samantha Stark e a equipe de repórteres do prestigioso jornal contentam-se em jogar lenha na fogueira, sem apresentar qualquer informação nova, ou indício permitindo observar esta história por outro ponto de vista. Documentários criminais e biográficos como A Máfia dos Tigres (2020), Eu Te Amo, Agora Morra (2019), Leaving Neverland (2019) e Cena do Crime: Mistério e Morte no Hotel Cecil (2021) operam em chaves igualmente sensacionalistas, no entanto fundamentam sua narrativa com substancial pesquisa e análise de dados. Já Britney Spears fica relegada ao ponto de vista dos fãs, dentro de um filme que oferece o palco a pessoas ressentidas e envolvidas demais no caso para apresentarem qualquer distanciamento – seja a grande amiga demitida do posto de assistente, o advogado retirado do caso contra a sua vontade ou a advogada que participou da decisão sobre a tutela apenas num primeiro momento. Stark menciona pontos essenciais, a exemplo do machismo da mídia e do moralismo do público norte-americano quanto à sexualidade da cantora. Infelizmente, estes questionamentos nunca são desenvolvidos. A diretora fica presa à forte vontade de acreditar em sua tese pessoal e de nos convencer pela intensidade de sua fé (no sentido estrito da palavra). Já a batalha legal e o complexo caso psicológico permanecem um mistério.
Últimos artigos deBruno Carmelo (Ver Tudo)
- Ilha Silenciosa - 18 de setembro de 2025
- Eu, Empresa - 5 de setembro de 2025
- O Bem Virá - 15 de maio de 2025
Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Bruno Carmelo | 4 |
| Diego Benevides | 5 |
| Lucas Salgado | 5 |
| Daniel Oliveira | 7 |
| MÉDIA | 5.3 |

Deixe um comentário