Crítica


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Sinopse

Quando o regime comunista do Khmer Vermelho assume o controle da capital do Camboja, Phnom Penh, a pequena Loung Ung é obrigada a deixar para trás sua casa e seguir com a família para o interior. Num campo de trabalho forçado, ela convive diariamente com o horror, a fome, o medo e a ameaça de separação dos pais e irmãos.

Crítica

Angelina Jolie é dona de uma presença magnética na tela e, não à toa, se transformou em uma das maiores estrelas de sua geração. Em mais de 20 anos de carreira, fez uma gama variada de personagens, diversos deles que a desafiaram a sair de sua zona de conforto. É notório que o grande público, sua base consolidada de fãs, deseja vê-la em frente às câmeras o maior número de vezes possível. Mas a verdade é que ela está construindo, nos últimos anos, uma carreira ainda mais interessante como diretora. E não se espante se, em determinado momento (não muito longe), ela abandonar de vez a carreira de atriz e se dedicar totalmente à sua veia de cineasta. Realmente tem talento para tanto, com um olhar sensível sobre assuntos que nem sempre são abordados pelos profissionais de Hollywood. Basta ver sua filmografia ficcional, iniciada com o Romeu e Julieta na guerra da Bósnia Na Terra de Amor e Ódio (2011), passando pela epopeia de um atleta transformado em prisioneiro de guerra em Invencível (2014) e culminando em seu último trabalho com o ex-marido Brad Pitt, o intimista À Beira Mar (2015). First They Killed My Father é o quarto longa de ficção da diretora e a consolida como uma profissional não apenas competente, mas tremendamente corajosa.

Produzido pela Netflix, o longa tem inúmeros pontos que poderiam afastar as grandes plateias. Não é falado em inglês, não tem atores conhecidos em seu elenco, é longo e tem uma trama pesada, com crianças sofrendo horrores no Camboja comandado pelo partido comunista. Esse desafio parece a ter motivado ainda mais a querer contar essa história, baseada em fatos reais narrados no livro de memórias da cambojana Loung Ung. A cineasta leu o livro enquanto estava naquele país filmando Lara Croft: Tomb Raider (2001) e quis conhecer aquela mulher de perto. As duas viraram amigas e decidiram tocar o projeto (Ung é roteirista e produtora executiva do filme). Para a realizadora, tudo é ainda mais pessoal pois seu filho adotivo Maddox é cambojano e seria a chance de mostrar a ele uma história de sua terra. Com Ted Sarandos, da companhia de streaming, apoiando sua visão para o filme, a diretora se embrenhou em dois meses intensos para tornar este desejo em realidade.

Ambientada em 1975, a trama conta a história da pequena Loung Ung (Sareum Srey Moch), a filha caçula do casal Ung (Phoeung Kompheak e Sveng Socheata), enquanto ela e sua família são desalojados de sua casa e obrigados a trabalharem em campos afastados da cidade por conta do jugo do Khmer Vermelho, o partido comunista que tomou o poder na época. Acompanhamos a trajetória da menina através de seus olhos inocentes, que testemunham uma barbárie que ninguém deveria viver. Como o título em inglês entrega, primeiro matam seu pai, depois a levam para um campo onde foi treinada como um soldado, junto de diversas outras crianças. Existiria alguma esperança dela se reencontrar com os seus? De deixar aquela realidade para trás?

Jolie não poupa o espectador ao apresentar de forma crua os horrores por quais passaram os cambojanos naquele período. Condições deploráveis de trabalho, alimentação inexistente, intenso doutrinamento e repressão à individualidade são alguns dos pontos mostrados pela cineasta. Um dos acertos de First They Killed My Father é manter a ação toda em volta de Loung Ung e em seu olhar infantil. Afinal de contas, é através dela que estamos observando aquela nefasta realidade e o filme funciona muito por conta da soberba performance da jovem Sarreum Srey Moch. Curiosamente, nos momentos felizes (e inicias, portanto) da trama, ela não convence tanto. Talvez a estrutura das cenas, com a música e a dança, surja um tanto artificial. Mas quando os horrores do Khmer iniciam, Moch entrega uma interpretação maiúscula, construída basicamente em seus expressivos olhos. A cineasta entende a força de sua atriz mirim e, diversas vezes, fecha o enquadramento no rosto da jovem, nos tornando muito próximos daquela personagem.

Por mais que mostre os horrores daquela realidade cambojana, First They Killed my Father não se exime de nos apresentar também as belezas naturais do país. Gravado em locação, o verde vivo das paisagens foi capturado com suntuosa beleza pelo diretor de fotografia Anthony Dod Mantle. A plasticidade das imagens é, obviamente, um contraponto à feiura daquele período. O Khmer obrigava que a população tingisse suas roupas de preto, para que todos fossem iguais, sem distinções. Mas a natureza em sua volta, colorida, vibrante, surge como se desafiasse aquela ideia pasteurizada do partido comunista.

First They Killed my Father poderia ser um pouco mais enxuto em sua duração, mas nunca perde a atenção do público. A trajetória de Loung Ung e a forma sensível como Angelina Jolie filma esta história são predicados mais do que suficientes para uma conferida. O fato do longa-metragem ser uma produção Netflix permite que muitos o assistam com facilidade, o que pode ajudar nas chances de prêmios para este trabalho. O filme já é o candidato do Camboja para o Oscar e tem potencial para ao menos estar na lista dos cinco finalistas.

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é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista, produz e apresenta o programa de cinema Moviola, transmitido pela Rádio Unisinos FM 103.3. É também editor do blog Paradoxo.
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