Extermínio: O Templo dos Ossos

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Sinopse

Em Extermínio: O Templo dos Ossos, o dr. Kelson se encontra em uma nova e chocante relação, com consequências que poderiam mudar o mundo como eles o conhecem. O encontro de Spike e Jimmy Crystal se torna um pesadelo do qual ele não consegue escapar. Nesse contexto, os infectados não são mais a maior ameaça para a sobrevivência, a desumanidade dos sobreviventes se torna mais aterrorizante. Horror.

Crítica

Pode-se afirmar com tranquilidade que muito melhor teria agido Danny Boyle se tivesse deixado o seu Extermínio (2002) como obra única, rica na memória e intocável. Afinal, todas as sequências produzidas a partir do seu sucesso se mostraram aquém das expectativas, e Extermínio: O Templo dos Ossos, não foge à regra. Não que seja um desastre como Extermínio 2 (2007), do qual Boyle assinou apenas a produção executiva, estratégia por vezes usada apenas para manter seu nome ligado a um conteúdo que no original lhe pertenceu, permitindo assim que outros decidam os rumos deste ponto em diante. Pois eis que foram necessárias quase duas décadas para que tal propriedade voltasse a ser explorada, e o resultado foi o mediano Extermínio: A Evolução (2025), que se não agradou por completo, ao menos serviu para oferecer novo sangue à saga. Nia DaCosta, diretora do interessante A Lenda de Candyman (2021), do frustrante As Marvels (2023) e do pouco visto – porém elogiado – Hedda (2025), é quem assume o comando deste quarto capítulo. E se acerta no tom crítico, esquiva de questões importantes da trama, gerando um sentimento de frustração entre os fãs mais imediatos, ao mesmo tempo em que pode abrir novas portas de aproximação.

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Ainda que seja uma sequência direta de Extermínio: A Evolução, esse O Templo dos Ossos é quase com um spin-off. Um personagem coadjuvante do terceiro filme, visto apenas na metade final daquele longa, aqui assume o centro dos acontecimentos. O doutor Kelson, interpretação grandiosa e delicada de Ralph Fiennes, é o responsável pelo espaço apontado no título. Porém, quem chegou a pensar ser essa uma prequel, contando as origens desse lugar e o que teria acontecido a essa pessoa que restou sozinha no comando de tal estrutura, eis um alerta: o que se vê em cena não é nada disso. Chega de olhar para trás. O que está a ser desenrolado vai adiante. O médico que acredita na ciência para curar o vírus que dizimou grande parte do planeta transformando pessoas em zumbis agora tem um inimigo ainda maior para confrontar: o fanatismo religioso.

Sim, pois são duas as tramas a discorrer em paralelo nessa história pensada por Alex Garland, roteirista de três dos quatro filmes da franquia (ficou de fora apenas do segundo) e diretor de títulos como o oscarizado Ex-Machina: Instinto Artificial (2014) e Guerra Civil (2024), esse estrelado pelo brasileiro Wagner Moura. De um lado, Kelson segue em suas pesquisas, tendo agora diante de si a melhor das cobaias: o ‘alfa’, mutante visto em A Evolução e que agora é por ele batizado como Sansão (Chi Lewis-Parry, cujo físico avantajado fez dele figura requisitada em produções permeadas por muita ação e confrontos, como Gladiador II, 2024, e O Sobrevivente, 2025). O doutor não apenas consegue se aproximar da besta raivosa, como domá-la, acalmando a fera e levando-a de volta ao homem pacífico que um dia foi. Seria a descoberta de um antídoto? O milagre pelo qual tantos esperam? Eis um sentido que poderia apontar a um desenrolar auspicioso para esse universo. Mas nem DaCosta, e menos ainda Garland, demonstram estarem interessados em percorrer tal direção.

Afinal, em paralelo a essas descobertas, o público é apresentado a sir Jimmy Crystal (Jack O’Connell, especializando-se em tipos diabólicos, como visto no recente Pecadores, 2025), um fanático que acredita ser filho direto de Satã, responsável pelo caos que domina a Terra. Ele se sente encarregado de arregimentar consigo seguidores que sigam seus passos e obedeçam cegamente suas ordens de terror, morte e violência. E o mais recente destes agregados é Spike (Alfie Williams, o filho de Aaron Taylor-Johnson no longa anterior). Eis um grupo preocupado apenas em acentuar o terror já presente por todos os lugares que passam. Porém, quando se deparam com a forte imagem desse ser coberto por sangue (que desconhecem ser apenas iodo) em um cenário formado por crânios e ossadas, logo supõem estar ali o fruto de um imaginário mais fantasioso e dissimulado, que não se revelaria facilmente, ao mesmo tempo em que guardaria outras intenções a partir de qualquer interação com estes estranhos. Momento esse que acaba acontecendo, e uma vez que Kelson e Spike se colocam novamente um diante do outro, a verdade a respeito do passado de ambos não tardará a se manifestar.

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Nia DaCosta equilibra tensão e debate em medidas iguais, oferecendo tanto sequências angustiantes como passagens reflexivas. Alex Garland, por sua vez, segue atento ao universo por ele criado, oferecendo conexões – sim, Cillian Murphy está de volta, mas sua função está para ser melhor elaborada num eventual quinto filme – com o antes ao mesmo tempo em que deixa clara sua preocupação com o que poderá vir a seguir. Talvez fosse interessante um maior aprofundamento sobre o desespero que toma conta de mentes frágeis e ignorantes sobre as causas que regem as leis da natureza, mas percorrer tal caminho representaria também esperar demais de um blockbuster hollywoodiano. Conciso em sua proposta de estabelecer tal debate, enquanto também se mostra acessível aos que somente agora passaram a acompanhar estes eventos, Extermínio: O Templo dos Ossos situa-se no meio do caminho entre a grandiosidade prometida e a mediocridade ao qual muitos similares acabam relegados. E entre um ou outro acerto, resigna-se em se manter na média, ocupando espaço ao menos até que uma esperança – de cura? de salvação? por um filme melhor? – surja, de fato, no horizonte.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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