Eles Vão Te Matar

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Sinopse

Em Eles Vão Te Matar, uma jovem sem nada a perder se vê presa dentro do Virgil, um local isolado e controlado por um culto demoníaco. Ao longo de uma única noite, ela precisa lutar pela própria sobrevivência enquanto enfrenta rituais macabros, violência crescente e uma ameaça constante de se tornar a próxima oferenda. Ação.

Crítica

Não há dúvida a respeito do caráter recreacionista que o cinema – assim como as artes em geral – possui de forma quase intrínseca. Além de educacional, provocador, instigante e questionador, tal manifestação tem em si um imenso potencial enquanto entretenimento. Ou válvula de escape, diriam alguns (tantos). Portanto, diante de um filme de 90 minutos, nos quais em 89 desses a protagonista – que não apenas é mulher, mas ainda por cima negra – é exibida em cena apanhando, sendo violentada, dilacerada, ultrajada, desrespeitada, espancada por cerca de 89 minutos, sendo que apenas no último ela consegue dar a volta por cima e se vingar dos seus agressores, a pergunta que fica é: quem aproveitou mais essa jornada? Os que querem assistir a uma personagem feminina sofrendo todos esses tipos de abusos, ou aqueles na torcida por sua superação? A matemática é simples. Eles Vão Te Matar se encaixa numa linha recente de produções que seguem essa lógica: até parecem defender um certo tipo de poder das mulheres, mas na maioria esmagadora de suas durações o que exibe é justamente o contrário. Como se somente vendo-as como mártir fosse possível aceitá-las. E o caso aqui é ainda pior: além de misógino, tem-se um discurso racista e conservador em curso.

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Não causa espanto esperar até o final dos créditos de Eles Vão Te Matar e descobrir – ou confirmar – que quase a totalidade dos profissionais envolvidos nessa realização são… homens. Do diretor Kirill Sokolov – que na sua Rússia natal havia comandado uma produção semelhante aqui batizada como Por que você não morre? (2018), mas cujo protagonista era um homem, ao contrário do que teve que lidar nessa sua estreia em Hollywood – ao roteirista Alex Litvak (Predadores, 2010), do produtor Andy Muschietti (da catástrofe The Electric State, 2025) ao diretor de fotografia Isaac Bauman (A Maldição do Queen Mary, 2023), do compositor Carlos Rafael Rivera (Caçada Mortal, 2014) ao montador Luke Doolan (Missão Resgate: Vingança, 2025). E porque se faz necessário citar estes envolvidos? Pois são eles que definem como essa narrativa será entregue ao espectador: o abuso de uma trilha sonora exagerada, o proveito de cortes de imagem reiterativos que acentuam a violência, o reforço de efeitos esquemáticos que logo cansam, a seleção do elenco e o rumo dos acontecimentos. São essas as pessoas que ditaram essa série de eventos. Nenhuma escolha, afinal, é por acaso.

O argumento é tão desgastado, que só poderia estar envolto em uma sátira – como, até certo ponto, imagina-se ser o caso. Duas irmãs em fuga de um pai abusivo são separadas à força por esse homem violento. Dez anos depois, a mais velha – após passar uma temporada na prisão – descobre o paradeiro da caçula e decide resgatá-la. A menina estaria trabalhando como empregada em um condomínio de alta classe altamente recluso que seria suspeito do desaparecimento de muitas das suas funcionárias, que para lá vão e nunca mais são vistas. Asia se dirige ao local e consegue adentrar naquele ambiente vigiado fingindo ser outra pessoa, apenas para, na primeira noite, ser vítima de um ataque quase mortal – não fossem suas habilidades de luta e combate acima do normal. O que percebe é que está em meio a um culto satânico, cujos devotos se tornariam imortais após oferecerem vítimas em nome do Demônio em pessoa. E ela, obviamente, deveria ter sido a próxima escolhida.

Tal qual um videogame, por mais que siga vencendo seus opositores que querem a todo custo eliminá-la, este intento nunca chega a ser bem-sucedido, pois ela está lidando com um exército de malditos que simplesmente não podem morrer. Primeiro ponto de observação: Asia é interpretada por Zazie Beetz. E ela é a única mulher negra de destaque em todo o elenco. Todos os seus agressores são brancos, e em sua maioria, homens. As duas únicas mulheres que se opõem a ela – uma sumida Heather Graham e uma oscarizada Patricia Arquette – servem para propósitos específicos: a primeira como alívio cômico, a segunda enquanto ameaça derradeira, colocando a atriz a reforçar a mesma tecla interpretativa que vem explorando em seus trabalhos da última década. E quando um homem se dispõe, enfim, a ajudá-la – o único outro negro presente, aliás – quando questionado do motivo de suas ações, expõe tal argumento: “os sacrifícios anteriores eram escória das ruas, mas essa é uma garota legal”. Ou seja, para ele – ou para o roteirista, que se exibe por meio desse diálogo – mesmo o mocinho da história acredita que existem pessoas que merecem morrer, e outras, por serem “cidadãos do bem”, a esses se justificaria a salvação.

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Igualmente decepcionante são as escolhas dos talentos envolvidos – se é que assim tais decisões podem ser qualificadas. Beetz foi indicada ao Emmy por Atlanta (2018) e teve papel de destaque em Coringa (2019) e Deadpool 2 (2018), mas quantas protagonistas ela teve ofertada na última década? Portanto, quando uma oportunidade assim lhe aparece, teria condições de recusar? Figuras de um só personagem, como a citada Graham (a rollergirl de Boogie Nights, 1997) ou Tom Felton (o Draco Malfoy da saga Harry Potter) não parecem demonstrar maiores preocupações, enquanto que Myha’la – como a irmã menor a ser resgatada – faz o mesmo já visto na série Industry (2020-2026) ou no apocalíptico O Mundo Depois de Nós (2023). De Arquette, sim, seria de se esperar mais, mas não estaria ela condenada a repetir a mesma sina de papeis irrelevantes dos irmãos – e o Oscar, conquistado por Boyhood (2014), é que teria sido seu ponto fora da curva? No final das contas, Eles Vão Te Matar é mesmo um aviso ao público: cuide-se, pois quem por aqui ousar se arriscar poderá de fato morrer… por misoginia alheia, racismo estrutural, conservadorismo extremo e, além de tudo, tédio.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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