Crítica


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Sinopse

No ano de 1967, a cidade de Detroit vive cinco dias de intensos protestos e violência. Um ataque policial resulta em um dos maiores e mais intensos tumultos na história dos EUA, levando à federalização da Guarda Nacional de Michigan e ao envolvimento de duas divisões aéreas do exército.

Crítica

O clima de tensão que tomou conta de Detroit no fim dos anos 60, em virtude da crescente violência policial contra os cidadãos negros, é muito bem reproduzido pela cineasta Kathryn Bigelow em Detroit em Rebelião. Diferentemente de outros exemplares, em que a câmera inquieta soa como mero exercício de estilo, aqui ela é um elemento orgânico dentro do conjunto de procedimentos que visa manter a voltagem em alta. Não há propriamente um protagonista, no sentido clássico, mas vários personagens formando um mosaico vibrante e contundente dos conflitos raciais em voga na época retratada. É deflagrado um círculo vicioso, pois as manifestações brutalmente sufocadas pelos homens da lei são propiciadas, justamente, pela desmesura pregressa da força do Estado sobre determinadas populações. Não por acaso, consideram-se “delinquentes” os sujeitos da raça mais oprimida nos Estados Unidos. Até chegarmos ao episódio central, há uma demorada e habilidosa construção de atmosfera.

Ocasionalmente, a realizadora desloca seu olhar das ruas em convulsão para outros espaços em que igualmente a questão racial se impõe como preponderante. Dismukes (John Boyega) é um trabalhador de dois turnos que à noite veste a farda de segurança para garantir a integridade de comércios saqueados em meio aos protestos. Já Larry (Algee Smith) acalenta o desejo de ser um grande cantor. Suas aspirações são frustradas literalmente à beira do palco, por conta de outro motim significativo acontecendo nas proximidades do holofote com o qual sonhou. São duas pessoas invariavelmente atravessadas pelos desdobramentos da fatídica batida policial no Motel Algiers em 25/26 de Julho de 1967. Paralelo à apresentação deles, vê-se a atuação arbitrária de Krauss (Will Poulter), policial branco que não hesita em atirar num saqueador pelas costas, simplesmente por ser pretensamente o braço efetivo da lei. A espessura do filme decorre, exatamente, da forma como ele afronta instituições e pessoas.

Detroit em Rebelião não se presta a maniqueísmos ou a uma visão reduzida sobre as complexidades vigentes no episódio verídico que lhe serve como base. Ao mostrar o policial assassino voltando às ruas, mesmo sob a ameaça de processo criminal, o longa expõe a conivência da corporação, a sordidez de uma estrutura que permite a impunidade. Quando, finalmente, eclode o confronto no Motel Algiers é ressaltada a personalidade hedionda dos fardados que reproduzem uma dinâmica antiga de injustiça e selvageria. Kathryn Bigelow faz dessa extensa sequência um microcosmo representativo da posição dos negros nos Estados Unidos, com gente torturada física e psicologicamente, homens brancos sentindo-se autorizados a matar e a plantar provas para justificar desumanidades e preconceitos, exercendo um poder descabido para conter a, no máximo, irresponsabilidade de um jovem. Em meio a sucessão de agressões e mortes, claramente motivadas por racismo, surgem matizes que tornam tudo mais forte.

Dismukes, por exemplo, só sobrevive por entender e, de certa forma, aceitar a desvantagem com relação aos policiais armados até os dentes e abençoados por um sistema judiciário que também segrega. Kathryn Bigelow encara com vigor a gravidade do episódio, fazendo um filme absolutamente urgente, que resgata demandas ainda bastante mal resolvidas na contemporaneidade. O dinamismo do registo está diretamente ligado à premência das situações, ao estado de guerra instaurado nas ruas de Detroit em 1967. Will Poulter encarna um personagem odioso, cruel e, mesmo assim, infelizmente verossímil. Sua sanha agressiva, direcionada aos negros e às mulheres (inclusive às brancas), cria uma imagem desoladora da discriminação institucionalizada. O comportamento dos demais personagens após a tragédia, dos devastados aos conformados por falta de opção, reforça a estrutura da desigualdade, suas origens e implicações, auxiliando a fazer desse longa um ferino e, portanto, duro retrato do racismo.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, também leciona ocasionalmente na Academia Internacional de Cinema/RJ.
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