Crítica
Leitores
Onde Assistir
Sinopse
Em Destruição Final 2, após escapar do apocalipse, a família Garrity é forçada a sair do bunker onde se refugiou. Para garantir a própria sobrevivência, eles atravessam uma Europa devastada e congelada, enfrentando ameaças constantes. A jornada testa seus limites físicos e emocionais. Ação.
Crítica
Na hora de se batizar um filme estrangeiro para o público brasileiro, algumas adaptações, por vezes, se fazem necessárias. Porém, a escolha inicial pode eventualmente demonstrar potencial para uma armadilha da qual, não podendo se livrar, enfrenta-se sem medo do ridículo. Um exemplo clássico é o conto adolescente Meu Primeiro Amor (1991). Caso os distribuidores locais tivessem optado por uma tradução direta – no original, My Girl, ou seja, Minha Garota – não teriam enfrentado o constrangimento de nomear a sequência de Meu Primeiro Amor 2 (1994). Afinal, se o anterior foi o início, como ter um novo “começo”? Não teria sido melhor uma versão alternativa, do tipo Meu Segundo Amor? Pois o mesmo se deu com Destruição Final: O Último Refúgio (2020). Se a destruição era final e o refúgio era o último, como pode ser possível uma continuação? A despeito de todas as probabilidades, no entanto, eis aqui esse Destruição Final 2, que mostra que o título do longa que deu origem a essa agora saga estava, no mínimo, equivocado. O fim que se esperava não foi tão definitivo. E eis a promessa de mais um lugar seguro em meio a uma terra devastada. Em resumo, se tem o anúncio de uma continuação, mas o público irá se deparar mesmo é com uma refilmagem. Sem tantos clichês ou expectativas como seis anos atrás, mas, ainda assim, com pouco a entregar diante de promessas que, mais uma vez, não irão se cumprir.

Também se faz curioso prestar atenção na denominação em inglês: Greenland, ou seja, Groenlândia, território europeu que até pouco tempo andava esquecido da maioria, mas que nos últimos tempos tem ocupado o noticiário internacional pelo interesse colonizador que despertou no atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Se em O Último Refúgio um cometa estava em colisão com a Terra e alguns poucos sortudos haviam garantido uma colocação em um bunker situado na… Groenlândia (!), dessa vez para lá esses poucos sobreviventes não mais se dirigem. A direção é inversa. De lá partem, em busca de uma melhor oportunidade de vida. E o foco segue com a família Garrity. Deixa-se de lado as discussões matrimoniais entre John (Gerard Butler) e Allison (Morena Baccarin). Se antes o roteiro de Chris Sparling (o mesmo do interessante Enterrado Vivo, 2010, mas também do mal-recebido A Hora do Desespero, 2021) fazia uso desse recurso para torná-los mais do que apenas o estereótipo daqueles em busca de salvação a qualquer custo, dessa vez o peso desse diferencial recai apenas sobre os ombros dele: o pai-herói pode enfrentar muita coisa, mas também tem seu ponto fraco. E o dele será um câncer, motivado pela radiação que tomou conta do planeta. O fim, ao menos para o protagonista, dessa vez está mais perto do que nunca.
Há poucas distrações no elenco capazes de tornar a jornada dos Garrity mais episódica. O não quer dizer que tal lógica foi abandonada por completo. Uma vez cientes de que precisam deixar o tal porto que não mais lhes traz tanta segurança, passam a acreditar em uma outra possibilidade. E a teoria proposta é, no mínimo, curiosa. Sabe-se que, milhares de anos atrás, um outro meteoro teria caído na Terra, ocasionando a extinção dos dinossauros. Pois, o que pouco se difunde, ao menos pelo conhecimento popular, mas que é investigado pela ciência, é que tal colisão teria sido essencial para o surgimento da fauna e flora – ou seja, da vida – que hoje habita o planeta. Portanto, morte e ressurgimento andando lado a lado. Bem o que propõe o roteirista da vez, Mitchell LaFortune (escrevendo em parceria com Sparling). Após ter trabalhado com Butler em Missão de Sobrevivência (2023), o escritor surge com essa ideia: seria a vez dos sobreviventes irem em direção ao ponto onde o meteoro teria caído, pois de lá partiria o recomeço. Um novo Éden, portanto.
Da mesma forma como já havia feito no longa anterior, o diretor Ric Roman Waugh – outro dos favoritos de Butler, no quarto filme dessa parceria – organiza sua narrativa tal qual um videogame. Primeiro, precisam sair de onde estão, que de fortaleza segura se mostra, de um instante para outro, numa armadilha prestes a esmagá-los. Depois vem a jornada pelo mar, seguida por uma travessia terrestre na qual contam apenas consigo mesmos. Os contatos que vão estabelecendo pelo caminho reforçam o tom de fábula: se antes era cada um por si, dessa vez estes encontros reforçam a lógica de que talvez a humanidade, frente a uma tragédia maior, tenha se unido em nome de um bem maior: a sobrevivência comum. Como a pandemia do covid-19 deixou claro, essa matemática não se mostrou tão eficaz. Mas o cinema é também terreno para a imaginação, e não custa pensar que tal cenário seja possível. Quer dizer, há, sim, um preço a ser pago. E esse está na diferença entre o bom cinema e o mero passatempo. Não se exige muito esforço para entender em qual desses conceitos esse longa se encaixa.

Se Gerard Butler construiu sua carreira com demonstrações de força física – são raros os títulos de sua filmografia que lhe exigiram maior profundidade dramática – o desafio que se impõe de construir um homem convalescente disposto a um último sacrifício para garantir a continuidade não de si, mas dos seus com os quais se importa, é alcançado apenas em parte. Pois lhe falta profundidade para dotar de nuances essa caminhada – a impressão é que só habita um extremo ou outro, o do forte ou o doente, sem conseguir transitar entre estes pontos. A brasileira Baccarin se sai um pouco melhor, mas quem convence nesse conflito interno, entre o caos ao redor e o turbilhão de emoções vividas internamente, é o recém-chegado Roman Griffin Davis – o eterno Jojo Rabbit (2019), agora já um adolescente, que substitui Roger Dale Floyd como Nathan, o filho do casal. Ele responde, com vivacidade no olhar e disposição em se arriscar, pela melhor surpresa de uma trama que poucas novidades apresenta, ao mesmo tempo em que se mostra satisfeita em apenas reciclar uma estrutura já deficitária.
Últimos artigos deRobledo Milani (Ver Tudo)
- A Graça - 19 de março de 2026
- Devoradores de Estrelas - 19 de março de 2026
- Uma Segunda Chance - 19 de março de 2026
Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 4 |
| Lucas Salgado | 2 |
| MÉDIA | 3 |

Deixe um comentário