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Sinopse
Em Coyote vs. Acme, Wile decide processar a corporação depois que os produtos da empresa falham repetidamente em sua perseguição ao Papa-Léguas. Com a ajuda de um advogado, ele enfrenta um poderoso executivo da companhia em uma batalha judicial que acaba aproximando os dois improváveis parceiros. Aventura.
Crítica
Em 1990 – ou seja, há quase quatro décadas – a revista New Yorker publicou um artigo humorístico intitulado, justamente… Coyote vs. Acme. A proposta ali era simples: após dezenas (ou melhor, centenas) de episódios dos desenhos animados Looney Tunes nos quais o infeliz Wile E. Coyote (sim, esse é o nome completo do personagem) tenta a todo custo capturar a ave conhecida apenas como Papa-Léguas (o do famoso ‘beep-beep’), sem nunca conseguir, ele finalmente se dá conta de que talvez toda essa frustração não seja motivada por sua própria incompetência, mas, sim, por causa dos artefatos que usa em suas empreitadas – como catapultas gigantes, tênis-foguetes e outras milhares de armadilhas – invariavelmente produzidos pela mesma companhia, a tal Acme! Sua decisão seguinte, portanto, seria lógica: processar os culpados por todos os seus infortúnios. A ideia conquistou adeptos dispostos a transformá-la em um longa-metragem. O que poucos imaginavam, no entanto, é que somente em 2026 essa iniciativa se tornaria concreta. E por outro lado, se tamanha expectativa pode gerar avaliações difusas, o certo é que, entre mortos e feridos, o saldo é, na maior parte do tempo, positivo.

Coyote vs. Acme se insere na mesma linha de outros longas que combinam animação com live action. A grande referência desse subgênero segue sendo Uma Cilada para Roger Rabbit (1988), ainda que desde Mary Poppins (1964) até o recente (e ótimo) Tico e Teco: Defensores da Lei (2022) diversas tentativas tenham sido realizadas perseguindo o mesmo conceito. Os próprios Looney Tunes já haviam percorrido cenários similares, como no subestimado Looney Tunes: De Volta à Ação (2003) ou no esportivo Space Jam: O Jogo do Século (1996) – e em sua sequência tardia, Space Jam: Um Novo Legado (2021). Nenhum, no entanto, alcançou a excelência percebida na obra dirigida por Robert Zemeckis. E ainda não foi dessa vez, por mais que Dave Green (o mesmo do equivocado As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras, 2016) se mostre disposto a tanto. Felizmente, ele não estava sozinho nessa empreitada. E se esse filme hoje está ao alcance de todos, o responsável é, de fato, James Gunn. Afinal, foi ele – que assina enquanto produtor – que o tirou do limbo ao qual a Warner estava satisfeita em relegá-lo.
A história transcorrida nos bastidores de Coyote vs. Acme é tão ou mais interessante do que aquela vista em cena. Se a trama se desenrola de modo dinâmico, porém longe de ser surpreendente – o melhor a ser dito é que o diretor e seus roteiristas se mantiveram atentos em preservar a identidade e a natureza dos personagens, não os desviando de seus propósitos originais – por outro lado foram tantos altos e baixos no intuito de levá-lo às telas que, por mais de um momento, imaginou-se que o filme jamais veria a luz do dia. Entre idas e vindas, apenas em 2018 decidiu-se que o longa seria, de fato, realizado. Mais alguns anos se passaram, e em 2022 as filmagens receberam, enfim, sinal verde. Mas no ano seguinte a diretoria do estúdio mudou, e aqueles que recém haviam chegado no cargo decidiram simplesmente engavetar alguns projetos nos quais não acreditavam no potencial de retorno nas bilheterias. Talvez o título mais famoso dessa leva tenha sido o filme-solo da Batgirl, mas ao seu lado estava também… Coyote vs. Acme.
Foi somente com o lançamento posterior – e bem-sucedido – do menos ambicioso O Dia em que a Terra Explodiu (2024) – o primeiro longa totalmente animado com os personagens Looney Tunes, que também havia sido engavetado, mas depois transferido para a pequena Ketchup Entertainment, que assumiu o projeto e fez um ótimo trabalho com sua estreia nos cinemas – que Coyote vs. Acme enfim saiu do limbo e voltou à mesa de discussões. E dessa vez com Gunn mais envolvido do que nunca, pois já se encontrava no posto de diretor criativo na Warner e decidindo alguns dos passos seguintes de um dos estúdios mais tradicionais de Hollywood. O resultado é uma obra que explora seus personagens menos do que o esperado – não há uma profusão histriônica e descontrolada de animações em meio aos seres humanos, como poderia ser esperado – mas faz uso de seus pontos fortes com precisão e cuidado. O Coyote mantém firme o seu plano de vingança, o Patolino segue tão maluco quanto sempre fora, o Pernalonga aparece apenas de modo pontual – afinal, não era de interesse de ninguém que o coelho roubasse a cena para si, o que por pouco não acontece – e outros tipos facilmente reconhecíveis, como o Piu-Piu, Taz, Vovó e Frangolino, também se fazem presentes, garantindo as doses necessárias de nostalgia para os fãs que há muito esperavam por esse reencontro.

Mas e com as audiências de hoje, quais as chances de Coyote vs. Acme satisfazer esse público? Existem, sim, mas não se deve apostar em um retorno dos mais entusiasmados. Afinal, este é um filme que claramente ficou parado no tempo, tanto por tudo que enfrentou atrás das câmeras, como também por sua premissa narrativa, que se baseia por demais em uma lógica que existe há quase um século – Gaguinho, por exemplo, foi criado em 1935 – e deverá encontrar maior ressonância entre os já familiarizados com esse universo, suas manias e tradições. E se o elenco humano faz apenas o que dele se espera – Will Forte é o retrato da humilhação e da preguiça, enquanto que poucos se apresentariam tão bem enquanto exemplo de sucesso como John Cena, ao passo que Lana Condor é uma das poucas a se destacar por compartilhar da mesma energia de suas contrapartes animadas – o certo é que o coração dessa história está mesmo numa relação simples, porém repleta de camadas e possíveis interpretações. Até quando Coyote seguirá insistindo sem nunca alcançar seu intento? E o Papa-Léguas, seria vítima ou algoz, eternamente debochando dos fracassos do colega? Perguntas que permeiam os acontecimentos, mas não mais do que isso. Assim como esse longa, repleto de boas ideias, mas nem todas percorridas da forma como, de fato, fizeram por merecer.
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Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 7 |
| Celso Sabadin | 8 |
| Lucas Salgado | 7 |
| Daniela Pedroso | 7 |
| Ticiano Osorio | 8 |
| MÉDIA | 7.4 |

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