Coração Selvagem

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Sinopse

Em Coração Selvagem, o ex-militar James Belmont e seu cão Odin ficam isolados na natureza selvagem do Alasca após um acidente aéreo. Cercados por condições extremas e ameaças constantes, os dois precisam unir forças para sobreviver, enquanto a experiência reforça o vínculo entre homem e animal. Aventura.

Crítica

Paul Newman, Marlon Brando, Denzel Washington… são nomes que carregam magnetismo suficiente para transformar simples presença em acontecimento. Brad Pitt, sem dúvida, é desta casta. Seja o jovem sedutor de Thelma & Louise (1991), o anarquista de Clube da Luta (1999) ou o astronauta de Ad Astra (2019), são muitos os personagens que poderiam comprovar isso. Não importa o papel, é difícil desviar os olhos quando Pitt está em cena. Até quando divide o quadro com… um cachorro. No isolamento gelado do Alasca, David Ayer coloca esse charme diante de uma história em que força e vulnerabilidade caminham lado a lado: Coração Selvagem, a mais nova incursão do cineasta pelo cinema masculinista. Só que, desta vez, ele parece interessado em suavizar algumas arestas. 

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James Belmont (Pitt) e Odin são companheiros de guerra. Ele, veterano das Forças Especiais do Exército dos Estados Unidos. O pastor-alemão, cão de combate treinado para acompanhá-lo em missões. A batalha ficou para trás, mas não exatamente seus efeitos, já que ambos carregam marcas físicas e emocionais do passado. Eles partem para o Alasca em busca de alguma distância do mundo, num final de semana de calmaria. O plano, porém, dura pouco. Após um acidente, ambos acabam isolados no meio da natureza selvagem. Sem comunicação, longe de qualquer ajuda e cercados por ameaças, resta encontrar o caminho de volta.

Ayer conhece como poucos esse território em que homens não costumam dizer exatamente o que sentem. Em seus filmes, intimidade não passa por grandes declarações. Ela aparece na proteção, na piada feita no instante errado e, sobretudo, na disposição de permanecer ao lado do outro quando tudo desaba. Marcados para Morrer (2012) e Corações de Ferro (2014) talvez sejam os exemplos mais felizes dessa vocação, enquanto Esquadrão Suicida (2016) e O Cobrador de Impostos (2020) mostram como a mesma fórmula pode perder robustez. Coração Selvagem, porém, encontra reforço interessante no roteiro de Cameron Alexander, estreante em longas. O encontro entre os dois não abandona a brutalidade característica de Ayer, mas acrescenta fragilidade à equação. É aí que dureza e sensibilidade fazem um blend charmoso e, acima de tudo, bastante sincero.

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James poderia facilmente ser apresentado como aquele veterano indestrutível, que encara qualquer adversidade como quem está apenas cumprindo expediente – algo que o diretor já fez em duas oportunidades com Jason Statham. Mas, desta vez, prefere algo novo. Belmont carrega o peso de quem já viveu situações-limite demais e agora parece tentar entender o que fazer com aquilo que restou. Seu olhar frequentemente se perde, como se a cabeça estivesse longe dali, revisitando companheiros, lembranças de combate e responsabilidades que continuam pesando mesmo depois do uniforme pendurado no armário. E Pitt entende muito bem esse registro. Não precisa elevar a voz e fazer de cada trauma um discurso. Basta olhar. Há momentos em que a câmera encontra o rosto do ator e parece captar exatamente aquilo que James não consegue verbalizar.

É também nesse espaço mais silencioso que Coração Selvagem se torna melhor. A ação existe, claro, e envolve quedas, ferimentos, predadores e outros tantos obstáculos capazes de transformar qualquer caminhada em pesadelo. Ainda assim, o que realmente sustenta a narrativa é a relação entre James e Odin. O vencedor do Oscar aparece despojado, envelhecido pela experiência, enquanto o cão funciona como parceiro, memória viva e âncora emocional. A fotografia de Mauro Fiore – vencedor da estatueta da Academia por Avatar (2009) – aproveita a grandiosidade da paisagem neozelandesa usada para representar o Alasca, fazendo da natureza algo maior do que mero cenário. Há beleza, mas também sensação constante de perigo, como se aquele paraíso pudesse virar armadilha a qualquer instante. 

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Coração Selvagem também é declaração de amor aos animais. E, convenhamos, esse território vem acompanhado de cartilha própria. Música entrando na hora certa, close no olhar do animal, separação forçada, perigo crescente… sabemos exatamente quais botões emocionais estão sendo apertados. O filme chega perto do melodrama em determinados momentos, além de recorrer a algumas conveniências de roteiro e a efeitos digitais que nem sempre convencem. Mas Ayer segura as rédeas antes que tudo desande para o sentimentalismo excessivo. O resultado é aventura de ritmo eficiente, capaz de arrancar tensão e algumas lágrimas sem abandonar completamente a aspereza que marca o diretor. 

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Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]
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