Crítica


8

Leitores


1 voto 10

Sinopse

Cruzando a fronteira entre a realidade e a ficção, esta é a história da escritora e poeta brasileira Cora Coralina, uma mulher que trabalhou como doceira durante quase toda sua vida, apenas publicando seu primeiro livro aos 75 anos de idade. No entanto, nem mesmo todos os anos de espera a impediram de se tornar uma das autoras brasileiras mais importantes de sua geração.

Crítica

Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas é um nome longo e que não soa familiar. Mas foi com ele que a poeta goiana Cora Coralina foi registrada pelos pais. Mesmo que o mundo tenha conhecido seus versos sob um pseudônimo, Anna, ou melhor Aninha, sempre esteve presente em sua obra, já que era esse o nome da personagem que narrava e vivia as histórias criadas pela escritora. Inspirado pelo livro Raízes de Aninha, uma biografia poética escrita pelos pesquisadores Rita Elisa Seda e Clóvis Carvalho Britto, chega aos cinemas o documentário Cora Coralina: Todas as Vidas, que pretende ir muito além de contar a trajetória de uma das mulheres mais importantes da literatura brasileira.

Dirigido por Renato Barbieri, o filme mistura trechos ficcionais com vozes femininas declamando trechos dos poemas de Cora com muita emoção. Walderez de Barros, Tereza Seiblitz e Camila Márdila dão vida às linhas escritas em diferentes fases da vida daquela mãe de seis filhos que, apesar de escrever desde os 14 anos, só viu seu trabalho ser publicado em forma de livro aos 76. Entre a primeira palavra e o primeiro autógrafo, Cora viveu, como diz seu poema mais famoso, muitas vidas, e é nelas que o diretor fixa seu olhar para tentar desvendar de maneira poética quantas foram as mulheres que ela foi sem precisar deixar de ser a Aninha que morava na Casa da Ponte, hoje ponto turístico em sua cidade natal e cenário frequente em sua obra.

A direção de arte bem conduzida, em especial nos figurinos, ajuda a criar intimidade com cada uma das “Coras” apresentadas. A presença de mais duas atrizes apenas declamando e não atuando como personagens, as ótimas Zezé Motta e Beth Goulart, torna um pouco confuso o fluxo do roteiro, mas nada que atrapalhe a imersão no universo lírico e épico criado pela escritora, sempre flertando com o estilo narrativo, o que facilita o trabalho de construção das cenas, assim como a forte oralidade do estilo de Cora, que escreve como fala, sem perder a magia. Há uma série de planos aéreos das cidades de Jabuticabal e Andradina, lugares onde Cora trabalhou como doceira e batalhou pelos direitos trabalhistas. Parece que o objetivo dessas cenas é mostrar os cenários que inspiraram Cora a nunca abandonar o trabalho, mesmo com a idade avançada, e também seus poemas. O problema é que o estilo de filmagem lembra muito o dos vídeos de agências de turismo, valorizando a paisagem e tirando um pouco de seu lado poético, indo contra a proposta inicial de fazer um documentário preocupado mais com a arte que com o registro. O que ameniza esse pequeno deslize é a trilha sonora em clima de canção de ninar e a presença de cena das atrizes, todas em equilíbrio com a alma de Cora.

Num país onde a obra literária de mulheres é pouco valorizada, em especial quando toca em temas tidos como masculinos, Cora Coralina: Todas as Vidas, assim como Lygia: Uma Escritora Brasileira (2017), pode ser o início da redescoberta da prosa e da poesia feminina no sentido mais puro da palavra. Mulheres escrevendo sobre o que é ser mulher, sem o aval dos homens sobre isso. Barbieri foi respeitoso e deu brilho aos avanços que Cora teve ao longo de sua vida, que incluem ter se casado com um homem separado e trabalhado pesado para manter os filhos sem depender de alguém. Uma amostra de que documentário não é só um tipo de produção importante no cinema brasileiro, mas que pode ter tanta poesia quanto uma obra de ficção. Escritores para servirem de inspiração não nos faltam.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
é jornalista e especialista em cinema formada pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Com diversas publicações, participou da obra Uma história a cada filme (UFSM, vol. 4). Na academia, seu foco é o cinema oriental, com ênfase na obra do cineasta Akira Kurosawa, e o cinema independente americano, analisando as questões fílmicas e antropológicas que envolveram a parceria entre o diretor John Cassavetes e sua esposa, a atriz Gena Rowlands.
avatar

Últimos artigos deBianca Zasso (Ver Tudo)

Grade crítica

CríticoNota
Bianca Zasso
8
Robledo Milani
5
MÉDIA
6.5

Veja também

Comentários