Chorão: Só os Loucos Sabem

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Sinopse

Em Chorão: Só os Loucos Sabem, a trajetória do artista é revisitada desde os primeiros anos em Santos, entre o universo do skate e da música. Ao lado de Graziela, o artista encontra uma relação que marca sua vida pessoal e criativa, enquanto transforma experiências de amor, rebeldia e vulnerabilidade em canções que atravessam gerações. Biografia.

Crítica

É impossível falar da música brasileira dos anos 2000 sem passar por Charlie Brown Jr. e, claro, por Chorão. A banda santista ajudou a traduzir inquietações de toda uma geração, misturando rock, skate, reggae, rap e dose cavalar de rebeldia. Essa importância agora chega ao cinema com Chorão: Só os Loucos Sabem, de Hugo Prata e Felipe Novaes. Prata, aliás, já havia se aventurado pelo gênero em Elis (2016), sobre outra personalidade gigantesca da música brasileira. Só que aqui existe desafio ainda maior: como homenagear alguém tão amado sem fingir que seus problemas não existiram? O “Marginal Alado” era capaz de compor as baladas mais doces e, ao mesmo tempo, protagonizar conflitos e ser agressivo. O filme parece querer celebrar tudo isso. Pena que, na maioria das vezes, prefira dar aquela boa varrida de pó para debaixo do tapete antes de receber as visitas.

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José Loreto é o escolhido para interpretar Chorão desde a adolescência, quando o músico ainda dividia a vida entre skate, música e o desejo de encontrar seu lugar no mundo. O recorte, porém, não é apenas profissional. Inspirado nas memórias de Graziela Gonçalves (“Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz?”, de 2018), o roteiro de Duda de Almeida dedica bastante espaço à relação entre os dois, transformando a companheira em segunda protagonista. O livro original, afinal, nasceu justamente como relato de uma história de amor de quase duas décadas, atravessada por fama, crises e dependência química que marcou os últimos anos do cantor. A escolha faz sentido, mas acrescenta uma responsabilidade: é preciso contar Chorão e Grazi ao mesmo tempo. E há ainda uma camada curiosa nisso tudo, já que Nanda Marques, intérprete de Graziela, conheceu Loreto durante as filmagens e os dois posteriormente assumiram relacionamento. É quase como se o título tivesse encontrado uma história de amor dentro da própria história de amor. Charmoso? Sim. Arriscado? Também.

O grande acerto está justamente em Loreto. O ator entende que interpretar Alexandre Magno Abrão não significa apenas colocar boné, roupa larga e andar de skate. É preciso encontrar aquele sujeito que podia ser extremamente carinhoso e, poucos minutos depois, explodir em agressividade. A própria trajetória do cantor foi marcada por essas contradições, tanto nas relações pessoais quanto dentro do Charlie Brown Jr. Loreto capta isso no corpo, no olhar e, principalmente, na energia. Há momentos em que ele parece estar sempre a dois segundos de explodir. É uma interpretação visceral, dessas que podem marcar quem está do outro lado da câmera. Talvez seja o mais perto que o longa chega de compreender seu protagonista. Porque, para além da persona pública, havia ali um homem generoso, agressivo, dependente e contraditório. Era justamente essa mistura que fazia Chorão ser Chorão.

O problema é que o filme parece ter medo de encarar esse homem até o fim. Drogas, ameaças e a própria instabilidade que acompanharam sua trajetória aparecem de maneira muito mais comportada do que poderiam. O show, então, vira quase uma metáfora involuntária: onde estão os copos voando, a bagunça, o excesso, a sensação de que aquele palco poderia sair do controle a qualquer momento? Há bebida, mas pouca. Drogas, praticamente nenhuma. O caos fica mais sugerido do que vivido. E aí a comparação com outras cinebiografias musicais se torna inevitável. Bohemian Rhapsody (2018) escolheu uma versão bastante higienizada de Freddie Mercury, enquanto Rocketman (2019) preferiu encarar as falhas de Elton John de maneira mais frontal. No Brasil, Cazuza: O Tempo Não Para (2004) e Tim Maia (2014) também entenderam que mostrar alguém no fundo do poço não significa necessariamente desrespeitá-lo. Pelo contrário: o humaniza ainda mais. 

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A empreitada cai num problema parecido com o de Michael. O desejo de preservar a imagem do ídolo acaba limitando a própria cinebio. O recente longa sobre o Rei do Pop também preferiu a mitificação ao mergulho nas contradições do homem. Aqui, o recurso é parecido, com a narrativa constantemente entrecortada por músicas em estúdio e momentos pensados para acionar a memória afetiva do fã. Tudo é embalado de maneira bastante palatável, daquelas para serem exibidas na Sessão da Tarde. Só que aí surge um problema de público-alvo. Quem já ama Charlie Brown Jr. certamente reconhecerá canções e personagens sem precisar de grandes explicações, mas talvez sinta falta justamente da sujeira e do caos sem filtro que ajudaram a construir o mito. Já quem chega sem essa bagagem encontra trama sem linha do tempo clara e que pressupõe conhecimentos pregressos. Fica no meio do caminho. Comportado demais para quem conhece a história e pouco explicativo para quem gostaria de conhecê-la. E aí sobra uma pergunta bastante simples. Afinal, para quem foi feito Chorão: Só os Loucos Sabem? 

Filme visto no 54º Festival de Cinema de Gramado (2026).

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Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]

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