Crítica


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Sinopse

A história de um homem que viveu 111 anos, teve quatro famílias e fez descobertas científicas importantes. É mais que um documentário falso. É um documentário impossível.

Crítica

Um dos expoentes do cinema gaúcho, com uma carreira que remonta aos idos dos anos 1970, Carlos Gerbase chega ao seu oitavo longa-metragem com Bio, uma aposta arriscada que tenta subverter expectativas anunciadas desde o início da sua realização. Selecionado para a mostra competitiva nacional do 45o Festival de Cinema de Gramado, o filme se apresenta como um falso documentário ao retratar a vida de um indivíduo que (quase) nunca é revelado. Ficamos sabendo dele a partir dos outros, daqueles com quem conviveu e pelas impressões que nestes deixou. Uma premissa evidentemente curiosa, e que se é feliz em boa parte da sua execução, em certos momentos resvala em algumas contradições que, de forma inequívoca, terminam por comprometer o produto final.

De alcance limitado, Bio se vale mais pela proposta de formato diferenciado do que pelo conteúdo pretensamente reflexivo que almeja promover. Gerbase já havia deixado claro esse tipo de interesse em produções anteriores, como, por exemplo, 3 Efes (2007), lançado há uma década e que se anunciava como o primeiro a ser exibido simultaneamente em todas as plataformas – até então – disponíveis: cinema, televisão, dvd. Quem viveu aquele momento, recorda: se falou muito mais da iniciativa democrática de divulgação do que do enredo em si. Pois bem, é mais ou menos o que ocorre aqui novamente. E se entre um e outro o cineasta entregou dois trabalhos bem distintos, o documentário 1983: O Ano Azul (2009) e a ficção Menos Que Nada (2012), investindo em gêneros opostos, dessa vez decidiu unir os formatos sob um único exercício. E o resultado é justamente isso: uma tentativa curiosa que não consegue evitar alguns tropeços.

Partindo de uma montagem matematicamente estudada – o filme inteiro é composto por núcleos distintos, quase esquetes isolados, invariavelmente formados pela união de três depoentes com falas que, ao serem intercaladas vão, aos poucos, se revelando próximas de um episódio em comum – e dotado de um visual monocórdio, com raras variações de ambiente, somos apresentados à jornada deste homem incomum, que deste o momento de sua concepção até o inevitável instante de sua morte tocou aqueles de que se aproximou de modo singular. Ele viveu de 1959 até 2070 – sim, a trama avança futuro adiante – e cada ano pontuado ganha subtítulos circunstanciais, como capítulos de um livro que se desenrola: o nascimento, o carnaval, o zoo, Nova Iorque, etc. Filho indesejado, foi criado à parte dos irmãos (bem) mais velhos. Na adolescência, foi estudar Direito, até descobrir a paixão pela Biologia. Um acaso o fez partir para a carreira de Ator, trocando o Rio Grande do Sul pelo Rio de Janeiro. De passagem pelos Estados Unidos, acabou fixando residência na Big Apple. Da vida, algumas constâncias: o fascínio pelos macacos bugios, animais aos quais dedicou quase toda a sua experiência profissional, a admiração e fascínio por uma das luas de Saturno, os muitos filhos e as diversas mulheres. Em resumo, tudo motivado por uma única verdade: uma incapacidade endêmica de proferir qualquer tipo de mentira.

Como se percebe, há elementos de sobra para o alcance de um conto intrigante e envolvente. No entanto, sucumbe à experimentação, deixando de lado possibilidades concretas para investir em concepções frágeis. A ação em Bio inexiste - ela se passa quase que exclusivamente no campo da imaginação - e tudo a que temos acesso são os depoimentos destas 39 pessoas escolhidas para relatar a trajetória deste homem. Assim, temos quase quatro dezenas de atores sozinhos, sentados diante de uma câmera, detalhando eventos e impressões. Um documentário tradicional, caso fosse feito sob esse formato, seria inevitavelmente acusado de ultrapassado, antiquado, desprovido de criatividade. Como, por sua vez, o estilo é apenas uma escolha ficcional, alguns poderão recair a um encantamento inexistente, vítimas de uma sedução que não sustenta uma análise mais profunda. Ao abrir mão de uma montagem dinâmica e de elementos de passagem que, enfim, proporcionassem algum tipo de conexão com o público, preferindo se apoiar quase que exclusivamente na capacidade deste de fantasiar aquilo que o filme se exime de mostrar. E sem imagens, onde resta o cinema?

Há outras questões também passíveis de questionamento, como o uso de um protagonista ausente que somente diz a verdade – mas que, diante da ameaça de prisão do sogro que o baleou, afirma ter sido vítima de “tiros acidentais” (uma singela mentira é permitida? Se sim, por que tamanha franqueza em todas as demais ocasiões?). Do impressionante elenco, alguns se confirmam aptos ao jogo proposto – como Marco Ricca, Maitê Proença e Zé Victor Castiel, que conseguem alternar humor e densidade dramática com segurança – enquanto que outros apenas denotam uma falta de direção, em composições que destoam do texto que deveriam defender – Mateus Almada, Julio Conte e Luciano Mallmann são os mais equivocados, principalmente por investirem em exageros que mais distraem do que auxiliam em suas histórias. Mas o mais curioso, que vai de encontro direto ao cerne desse conjunto, é a opção de não revelar o rosto do personagem principal. Esta é uma escolha que não encontra justificativa em cena, confirmando-se mais como uma vaidade de estilo do que uma necessidade do roteiro.

Com inspirações que podem se relacionar com o Terrence Malick de A Árvore da Vida (2011) – mas sem a dinâmica e o fluxo filosófico inerente ao recluso diretor – e no Woody Allen de Zelig (1983) – ainda que carente do humor refinado do nova-iorquino – Gerbase faz uma obra diferenciada dentro do cenário nacional. Algo, porém, permaneceu deslocado nesta trajetória entre conceito e prática. Audacioso, por outro lado revela-se desprovido de elementos para bancar essa teatralidade. Por fim, tem-se uma jornada extenuante, tanto em tela quanto para o espectador. Um filme feliz em reunir pontos que se destacam, dono de intenções ótimas e de motivações melhores, ainda que revele um todo problemático em suas incongruências e ineficaz em alcançar plenamente suas próprias ambições. Há muito a ser dito sobre Bio, e isto sempre é um bom indício. Porém, é também inequívoco que essa discussão venha a se restringir mais ao que o filme poderia ter sido ao invés do que, de fato, se vê na tela.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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