Crítica

Seguindo o bem-sucedido plano comercial/criativo de lançar versões live action de suas animações, a Disney se volta a um dos títulos mais emblemáticos de seu catálogo: A Bela e a Fera (1991), que fez história como o primeiro longa do gênero a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme, levando as estatuetas de Melhor Trilha Sonora e Canção. Mais do que qualquer outra das adaptações anteriores do estúdio, como Malévola (2014) ou Cinderela (2015), este novo A Bela e a Fera já exibia, desde os primeiros materiais de divulgação, sua inclinação pela fidelidade à obra animada. Uma aposta praticamente garantida na conquista do público via saudosismo, que se confirma ao longo do trabalho do diretor Bill Condon.

Ainda que com algumas alterações, como a inclusão de canções inéditas, o filme segue à risca a premissa sobre a jovem Bela (Emma Watson), que vive com o pai, Maurice (Kevin Kline), em uma humilde aldeia francesa no século XVIII. Certo dia, ao partir para uma feira de invenções, Maurice se perde na floresta, indo parar no castelo da Fera (Dan Stevens), que o faz prisioneiro. Para salvar o pai, a garota assume seu lugar e acaba descobrindo o segredo da criatura, na verdade um príncipe esnobe que, ao recusar abrigo a uma feiticeira disfarçada em troca de uma rosa, foi condenado a viver sob a atual forma bestial, tendo também seus empregados transformados em objetos domésticos. Para quebrar o feitiço, ele precisa demonstrar ser capaz de amar e ser correspondido antes que a última pétala da rosa encantada caia.

A opção por se manter tão próximo à animação, porém, termina sendo a principal fraqueza do longa. Ao contrário das últimas adaptações da Disney, Mogli: O Menino Lobo (2016) e Meu Amigo, o Dragão (2016), que atingiram o equilíbrio entre a reverência e a inovação, acrescentando camadas que os enriquecem e os diferenciam de suas fontes – seja pela veia aventuresca do primeiro ou o apreço pela fabulação do segundo – o filme de Condon não assume uma identidade própria. Tendo construído uma carreira diversa, com rumos no mínimo peculiares – do terror Candyman 2: A Vingança (1995) a episódios da Saga Crepúsculo – o cineasta sempre se mostrou mais à vontade comandando dramas biográficos sóbrios, como Deuses e Monstros (1998) e Kinsey: Vamos Falar de Sexo (2004), e essa tendência ao classicismo ressurge aqui.

Tal característica nota-se no registro austero que valoriza a suntuosa direção de arte e figurinos, assim como seus flertes pregressos com musicais, dirigindo Dreamgirls: Em Busca de um Sonho (2006) e roteirizando Chicago (2002), também se fazem presentes. Mas, apesar de toda a pompa dos valores de produção, raramente a condução de Condon consegue gerar o sentimento genuíno de encantamento que se espera. Além disso, ele também demonstra inabilidade para construir cenas de ação – vide o ataque dos lobos e o clímax nas torres do castelo – que carecem de tensão e fluidez. A falta de ritmo é sentida durante toda a projeção, com situações que se alongam sem terem conteúdo necessário para tal, contrariando a concisão narrativa do original.

Os segmentos musicais sofrem, particularmente, com esses excessos: números como o da divertida canção “Gaston” ou a releitura esteticamente atrativa de “Be Our Guest” sempre dão a impressão de timing desregulado. Esse tempo desperdiçado reflete no desenvolvimento apressado de personagens e dilemas, caso de Gaston (Luke Evans), o caçador galante que deseja a todo custo casar-se com Bela, apresentado como egocêntrico e bruto, mas, ao menos a princípio, de um modo cômico, destoante do comportamento cruel que assume abruptamente. Já a Fera padece da mesma construção, porém de modo inverso, mudando rapidamente do tom ameaçador e sombrio para o amável e generoso, assim como seu relacionamento com Bela. Por mais simpática e doce que seja, Emma Watson nunca recebe material suficiente – fora o interesse pela leitura e a rejeição ao casamento – para fazer crer plenamente que sua personagem seja a garota “incomum” e “a frente de seu tempo” que todos bradam.

O núcleo dos criados/objetos, por sua vez, é valorizado pelo ótimo elenco de vozes – Ewan McGregor (Lumière), Ian McKellen (Horloge), Emma Thompson (Madame Samovar), Nathan Mack (Zip), Audra Mcdonald (Madame Garderobe), Stanley Tucci (Maestro Cadenza) e Gugu Mbatha-Raw (Plumette) – no entanto, sua concepção visual não transmite a mesma sensação de humanidade dos personagens da animação, assim como a própria Fera. Existe a tentativa de inserir atualizações culturais aos ultrapassados conceitos dos contos de fadas, com a adesão à diversidade étnica e sexual. Este último quesito, representado pelo personagem LeFou (Josh Gad), fiel escudeiro de Gaston, cuja relação com seu mestre possui um elemento de atração física evidenciada por diversas insinuações bem-humoradas que, apesar de claras, tomam todo cuidado para não serem demasiadamente subversivas.

No entanto, apesar dessas adições bem-vindas, o resultado deste A Bela e a Fera remete a uma frase dita por Maurice, afirmando que os moradores da aldeia possuem um pensamento pequeno, e que “pequeno também significa segurança”. Pois, em meio à grandiosidade da produção, o longa apresenta uma ambição diminuta, ancorada na simples réplica de cenas clássicas – como a dança da Fera com Bela, ao som da canção-título, uma das poucas a conseguir emanar a magia esperada – como um meio seguro e suficiente para garantir o apelo junto à memória afetiva dos fãs. Um posicionamento cômodo que provavelmente trará sucesso, mas que não se sustenta como um produto independente e significativo por seus próprios méritos.

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é formado em Publicidade e Propaganda pelo Mackenzie – SP. Escreve sobre cinema no blog Olhares em Película (olharesempelicula.wordpress.com) e para o site Cult Cultura (cultcultura.com.br).
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