Crítica


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Sinopse

Ava, 13 anos, está de férias na praia quando descobre que vai perder a visão em um processo mais rápido do que o esperado. Sua mãe decide agir como se nada estivesse acontecendo para passarem o melhor verão de suas vidas. Ava enfrenta o problema à sua maneira.

Crítica

Estrear no formato longa-metragem como diretora pode ser um desafio doloroso para alguém que tenha poucos curtas no currículo e um trabalho mais focado no roteiro. Ava, da francesa Léa Mysius, tem como temática principal o universo adolescente de uma garota que descobre estar prestes a perder a visão. A premissa poética da ideia de deixar de ver o mundo no momento da vida em que se deveria descobri-lo, permitiria que o filme presenteasse o público com uma personagem repleta de nuances emocionais. Mas parece que a jovem cineasta de 29 anos deixou os hormônios adolescentes falarem mais alto e o que poderia ser denso tornou-se confuso.

De férias com a mãe e a irmã bebê no litoral, Ava, interpretada por Noée Abita, descobre que sua doença está num grau avançado e que, em breve, ficará cega. Este universo é apresentado ao público de maneira solar, com famílias se divertindo na areia enquanto a protagonista tem o primeiro contato com Lupo, um cachorro de pelo negro, espécie de símbolo da escuridão que está prevista para o futuro da protagonista. Pequenas amostras da relação complicada da garota com a mãe, que constantemente questiona sobre o início da sexualidade da filha, e trechos de seu diário narrando o avanço de sua cegueira, são apresentadas ao público com ares de cinema fantástico. E talvez seja este detalhe, que poderia ser apenas um charme em uma cena, que parece estragar o desenvolvimento de Ava.

A atuação da protagonista, assim como as situações na qual sua personagem é introduzida, decaem cena à cena a partir do que poderíamos chamar de segundo ato do filme. Após uma apresentação delicada, numa cena onde Ava descansa ao sol, de maiô na beira da água, a diretora rende-se a uma estratégia tipicamente masculina para explorar o corpo de sua atriz. Ângulos e posições de câmera parecem refletir uma perda de inocência, como se Ava deixasse para trás os trejeitos de garota e tivesse o real impacto que seu corpo pode provocar aos olhares dos homens. É uma mudança tão brusca e que vai contra as críticas que a garota faz diversas vezes ao comportamento de sua mãe. Aliás, Laure Calamy, que interpreta a figura materna, é pouco aproveitada, e a diretora parece colocá-la em cena apenas para reforçar seus problemas com a maternidade.

Ava, o filme, gira em torno de Ava, a personagem, a ponto de começar a andar em círculos. Para resolver este “problema”, Léa Mysius resolve inundar o quadro com tudo que sua imaginação conseguir criar. A paixonite por um garoto misterioso torna-se profunda após uma série de cenas que mais parecem saídas de um videoclipe. Com os corpos pintados de argila, ela e o garoto assaltam turistas em uma praia de nudismo. Surreal. Divertido, até. Mas no lugar errado. Perde-se o foco no desaparecer do mundo para Ava. As anotações questionadoras de seu diário dão lugar a uma série de loucuras que ainda incluem um casamento cigano. Noée Abita se esforça para manter seus olhos acesos e nos lembrar do que está acontecendo com sua personagem, mas as confusões que a cercam transbordam e quase esquecemos qual o real drama da adolescente.

Como dito no início deste texto, é fato que ingressar num mundo predominantemente masculino como o cinema não é tarefa fácil. Ainda mais para uma diretora dando recém os primeiros passos de sua carreira. Mas mesmo que a vontade seja explorar ao máximo sua criatividade, é preciso pé no freio e olhar atento para as pequenas coisas. Perder a atenção é fácil quando se tem mais de um horizonte para alcançar. Ava peca pelo excesso. Há muitos bons filmes dentro dele, mas que não funcionam juntos.

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é jornalista e especialista em cinema formada pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Com diversas publicações, participou da obra Uma história a cada filme (UFSM, vol. 4). Na academia, seu foco é o cinema oriental, com ênfase na obra do cineasta Akira Kurosawa, e o cinema independente americano, analisando as questões fílmicas e antropológicas que envolveram a parceria entre o diretor John Cassavetes e sua esposa, a atriz Gena Rowlands.
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