Crítica

O cinema americana possui uma particularidade que, talvez, só encontre paralelo na Índia: sua maior e principal motivação é a financeira. Isso, obviamente, não implica na necessidade de inexistirem profissionais talentosos em Hollywood – muito pelo contrário, pois é justamente da quantidade de onde é possível surgir a qualidade, num sistema de erro e acerto. Mas explica também o porquê de certas realizações possuírem uma justificativa mercadológica muito mais racional do que qualquer tipo de implicação artística. Como é o caso de Atividade Paranormal: Marcados Pelo Mal, longa feito única e exclusivamente para atender às expectativas do espectador latino residente nos Estados Unidos, e que assim deve ser visto pela audiência internacional: como uma curiosidade, apenas.

Como se sabe, o Cinema é uma atividade em constante crise, que desde a invenção da televisão vem repensando como conquistar novos públicos, seja através de novidades tecnológicas (cinemascope, 3D, IMAX) ou temáticas. Atualmente, o público majoritário que ainda compra ingressos nas salas de exibição são os jovens entre 15 e 25 anos de classes B, C e D. Trata-se de um espectador novo, que talvez ainda não tenha meios econômicos para baixar filmes numa internet em alta velocidade, tv por assinatura ou on demand, ou que possua um smartphone de último tipo. Este perfil, percebe-se, se encaixa perfeitamente na audiência vinda de outros países, principalmente do México e América Central. E se é com esse espectador que Marcados Pelo Mal deseja se comunicar, ao menos não faz de forma a apenas replicar o que foi visto antes, como aconteceu na pífia tentativa de orientalizar a série ocorrida em Atividade Paranormal: Tóquio (2010).

Atividade Paranormal: Marcados Pelo Mal, assim como o citado Tóquio, é o segundo spin-off da série Atividade Paranormal, que ainda neste ano ganhará seu quinto episódio. Ou seja, não se trata de uma continuação direta dos eventos ocorridos com as irmãs Kristi e Katie (e com o marido desta, Micah), apesar de não ser totalmente desconectado. Dessa vez somos convidados a acompanhar Jesse (o novato Andrew Jacobs), um rapaz de origem latina de 18 anos que acaba de se formar no colegial. Ele mora com a família em um condomínio, e todos os moradores dali suspeitam que a vizinha do andar debaixo seja uma ‘bruxa’. Como se pode notar, não se perde muito tempo com distrações – apesar de uma piada ou outra, ao menos no início – e parte-se logo para os sustos (que, no entanto, são bem mais comedidos do que de costume). Quando Oscar (Carlos Pratts), um colega de escola, se suicida após afirmar estar possuído por algo terrível e que Jesse deveria “se matar antes que cometa um mal pior, afinal os dois possuem a mesma ‘marca’”, todos os amigos do protagonista passam a verificar um comportamento estranho no rapaz, algo que só poderá ser explicado através de uma investigação sobrenatural.

Avançando com cautela na trama que foi pincelada parcialmente em cada uma das sequências, Marcados Pelo Mal ainda fecha um inesperado elo com Atividade Paranormal (2007), o filme que deu início à franquia. Porém, por outro lado, é possível perceber um desgaste na fórmula da câmera carregada pelos personagens – seria impossível eles seguirem segurando-a após tudo que lhes acontece – e no próprio gênero de fantasmas do além dispostos a muita maldade. São os mesmos sustos, os olhos vidrados, a escuridão que cega. Até o final, que se passa numa casa aparentemente desconhecida, é quase um repeteco daquele visto em Atividade Paranormal 4 (2012) – apontando para a falta de inspiração do diretor e roteirista Christopher Landon. Assim, temos um pouco de mais do mesmo, porém com um sotaque diferenciado e uma pitada de informações extras destinadas a agradar aos fãs mais radicais. Aos demais, cabe se divertir com os (poucos) sustos e torcer para um final digno para a saga, o que não deve estar muito longe.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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