Crítica


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Sinopse

Max, um organizador de eventos por trinta anos, está prestes a realizar um grande casamento, e acredita que tudo irá correr como o planejado. A equipe da festa, que será em um imponente castelo do século XVII, já foi selecionada por ele em ocasiões anteriores: garçons, cozinheiros, fotógrafo e músicos. Mas o que não imaginava era que, em uma noite repleta de emoções, algumas coisas sairiam do controle.

Crítica

Do que trata, afinal, Assim é a Vida? Anunciado com toda a pompa e circunstância que um novo filme dos diretores Eric Toledano e Olivier Nakache – a mesma dupla responsável pelo irresistível Intocáveis (2011) e pelo subestimado Samba (2014) – merece, este é um daqueles longas sobre tudo e, ao mesmo tempo, o nada. Temos um flash, um episódio recortado dentre a vida de um grupo de pessoas – ou seriam somente personagens? – que, em comum, tem o fato de compartilharem, ao menos durante este intervalo de tempo, interesses em comum. E o que acontece a cada uma dessas figuras, seja em maior ou menos escala, não só diz respeito aos eventos em si, mas também à repercussão destes nas leituras conduzidas por aqueles que os observam, ou seja, os próprios espectadores. Assim, tem-se um conto absoluto, ainda que repleto de falhas inegáveis. Tal como se dá com qualquer um, independente de que lado da tela se esteja.

Max Angély (Jean-Pierre Bacri, de Além do Arco-Íris, 2013) está tentando ajudar um casal a se decidir pelo melhor na cerimônia de casamento que estão organizando. Flores, doces, arranjos, decorações, figurinos: tudo entra em discussão. Os noivos, como é de se esperar, querem não apenas o mais bonito e gostoso, mas, também, o mais barato. O organizador, por sua vez, só pode aceitar clientes pechinchando até certo ponto. A partir dali, é a qualidade do seu trabalho que estará em jogo. E, em casos assim, quando o limite é ultrapassado, é melhor abdicar do compromisso do que assumir algo fadado ao fracasso. Ou seria possível uma terceira via, intermediária entre as reduções da realidade e os exageros dos sonhos? Se aquele dia parecia ter começado com o pé esquerdo, os acontecimentos seguintes pouco fariam para mudá-lo de ideia de que esta seria uma jornada destinada ao desastre. Porém, talvez até o inferno se torne um lugar melhor com as companhias certas.

O episódio pela manhã é apenas uma nota de rodapé diante de tudo que há pela frente: um casamento em um legítimo castelo no interior da França, com direito à serviço aos moldes de Luiz XV, música ao vivo, fogos de artifício e até um desfecho tão engenhoso quanto impossível. Só que todas as surpresas programadas não serão páreo diante o inesperado, filho este que não reconhece mãe nem pai, apenas oportunidade. De que adianta Max ter refeito em sua cabeça milhares de vezes todos os passos certos a serem dados, se aquela que é seu braço direito não para de discutir com o cantor, se o fotógrafo não consegue ficar longe dos doces e salgados a serem servidos aos convidados, se o garçom, que também é seu cunhado, se descobre apaixonado pela noiva e uma intoxicação alimentar tratará de colocar boa parte de sua equipe fora de combate? E não pense que isso é tudo: estamos, acredite se quiser, apenas no começo.

Como todo bom filme francês, Assim é a Vida também é daqueles em que cada um dos seus personagens – ou seriam pessoas? – e os diálogos que se desenvolvem entre eles são mais importantes do que os eventos com os quais se veem envolvidos. Com personalidades bem construídas, é possível se importar com cada um dos seus pequenos dramas, pois, ainda que apresentados em coletivo, os vemos como indivíduos. Torcemos pela amante ultrajada disposta a uma última cartada para ter ao seu lado o homem que ama, assim como lamentamos os dois possíveis destinos oferecidos à moça de branco: o noivo egocêntrico ou o ex-colega sem noção? Os trabalhadores ilegais ali estão como um toque de realidade, como que a nos lembrar: as alegorias podem ser bonitas, mas só funcionam quando ligadas a uma realidade urgente e precisa. O mundo pode parecer uma festa sem fim, mas o amanhã não tarda a se manifestar como alerta de que novos caminhos – ou antigos trajetos – precisam ser percorridos.

Indicado ao Goya – o Oscar do cinema espanhol – como Melhor Filme Europeu, ao lado de títulos como o sueco The Square: A Arte da Discórdia (2017), vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, e Toni Erdmann (2016), indicado ao Oscar como Melhor Filme Estrangeiro, Assim é a Vida é uma daquelas gemas que qualquer olhar mais apressado não será capaz de identificar todos os seus inegáveis méritos, por mais discretos e dissimulados que estes se apresentem. Muito, é claro, está nas mãos dos dois realizadores, hábeis em buscar o melhor em cada uma das situações que desenham. Mas de nada isso adiantaria se não fossem os ombros mais do que capazes de Bacri, se que demonstra um protagonista à altura do desafio que lhe é proposto. Porém, ainda que um ou outro acerto se destaque, o mais importante a ser reconhecido é que, independente deste feito ou daquele deslize, o que importa é a satisfação do cliente e a tranquilidade de se ir para casa com a certeza do dever cumprido. Pois um resultado assim não se alcança em cada detalhe e, sim, numa soma que se revela maior do que suas partes em separado.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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