Crítica


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Sinopse

Uma menina treinada desde a infância para ser uma assassina sanguinária aceita um acordo de trabalho que a libertará do árduo ofício depois de dez anos de serviço. Mas, mesmo depois de cumprir o prazo e começar a trilhar uma rotina normal, dois homens aparecem e a colocam de frente com seu passado.

Crítica

A Vilã começa em alta voltagem, com um proeza verdadeiramente impressionante no que tange à encenação da ação. Utilizando admiravelmente o ângulo subjetivo, num falso plano-sequência – mas cujos cortes são bem escondidos –, o cineasta Jung Byung-gil nos convida a assumir literalmente o ponto de vista de alguém em processo de aniquilação de seus (numerosos) inimigos. O comportamento da câmera realmente nos conecta com a selvageria. O grafismo da violência sobressai nessa jornada de brutais matanças, com facas cortando jugulares, objetos pesados arremessados contra cabeças logo partidas e vertendo sangue, num bailado hipnótico, encerrado com o rosto impávido de Sook-Hee (Kim Ok-bin), a protagonista responsável pelos cadáveres, confrontando a polícia de prontidão. Espera-se, portanto, depois dessa abertura repleta de adrenalina, virtuosa tecnicamente, que o filme possua várias outras passagens tão ou mais empolgantes. Infelizmente, não é o que ocorre.

O mistério acerca da identidade dessa assassina extremamente habilidosa vai sendo resolvido aos poucos, mais especificamente por obra dos flashbacks que entrecortam o transcorrer do presente em que ela é recrutada por uma agência para ser homicida profissional. Essa estrutura de roteiro é mal utilizada aqui, vide o desequilíbrio flagrante entre as esferas temporais. Não acrescenta muito, fora os dados mais óbvios, saber, exatamente durante o treinamento, que ela fora criada desde pequena num ambiente agressivo, sendo, então, fruto singular de preparações precoces. Aliás, nem a capacitação juvenil aparece, sendo apenas mencionada timidamente. Em meio ao adestramento imposto à adulta Sook-Hee, durante o qual ela descobre, inclusive, sua vocação ao teatro, importante ao cotidiano normal para acobertar suas reais missões mortais, a vemos perdendo o pai e jurando vingança. O episódio é obviamente inspirado (copiado?) em Kill Bill: Vol. 1 (2003), na tragédia de O-Ren Ishii (Lucy Liu).

O miolo se mostra, francamente, como o grande ponto fraco de A Vilã. Toda a construção que permeia a volta da protagonista à sociedade e a relação com um agente disfarçado, incumbido de vigiá-la de perto, é bastante frágil. O tom do filme recorrentemente se desloca da ação ao drama, sem, contudo, que haja uma interlocução expressiva entre os gêneros. Ainda na esteira da obra referencial de Quentin Tarantino, assim como a personagem de Uma Thurman, Sook-Hee é uma mãe em processo de vendeta. Sua filha é fruto de um relacionamento traumático do passado, e não falta em cena o equivalente ao Bill de David Carradine, aqui interpretado por Shin Ha-kyun. As similaridades são abundantes. Outra homenagem evidente – e essa soa como um tributo, mesmo – é a cena da mulher entrando furtivamente no banheiro, pegando peças de uma arma, deixadas antes no vaso sanitário, e ameaçando um alvo na rua. Evidentemente, Jung Byung-gil estabelece aqui uma ponte entre sua assassina e a icônica Nikita, de Luc Besson.

Mas, o que depõe inapelavelmente contra uma fruição mais prazerosa do filme é a sua inabilidade para desenvolver os personagens envoltos num clima de conspiração marcado por mentiras. A antes impermeável Sook-Hee passa a demonstrar vulnerabilidades, algo em si ótimo, não fosse a incapacidade do cineasta para extrair densidade dos conflitos internos de sua personagem principal. Próximo do encerramento há outra passagem impressionante, similar em tudo à de abertura, com direito a duelos de espadas entre motociclistas em movimento e uma admirável coreografia de luta dentro de um ônibus em curso. A rima entre as prodigiosas sequências inicial e final ressaltam a fragilidade dos segmentos entre elas. A Vilã permanece refém desses dois momentos assombrosos, não apresentando semelhante ímpeto e energia ao costurar as intrigas e potencializar o drama de Sook-Hee, ao tentar mostrar sua dimensão humana e, portanto, passível de falhas, deflagrada diante dos amores, o novo e o antigo, e da filha pequena.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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