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Sinopse
Em À Paisana, durante a festa de Ano-Novo de sua mãe, Lucas, um jovem policial, perde uma carta que nunca deveria ser lida. Em meio ao sufocante ambiente familiar, a busca por essa mensagem desperta memórias de um passado que ele tenta deixar para trás. Drama/Romance.
Crítica
Lucas tem um segredo. Algo que arde dentro dele. Que não aguenta mais conter em si, disfarçando sua existência, agindo como se aquilo não lhe atingisse. Ele precisa deixar sair, se manifestar, tomar conta de quem ele é e de como os outros o veem. E é mais do que apenas revelar sua condição de homossexual – algo que, é sempre bom reforçar, não se trata de uma escolha, mas de uma parte intrínseca do seu ser. Lucas está apaixonado. Ou, ao menos, isso é o que acredita. Pois tudo o que teve até aquele momento foi um relance de felicidade. Algo que nunca havia sentido. E do qual não está disposto a desistir tão fácil. Em À Paisana, Lucas sofre por ele e pelos outros. Pois revelar-se a si e aos demais significa abandonar aquele que ele construiu ao longo dos anos. O filho, o profissional, o primo, o namorado, o homem. Deixar para trás aquilo que não mais lhe serve e abraçar uma nova realidade. Parece simples, mas se trata da mais difícil das decisões. Um processo árduo e exigente, sobre o qual o diretor e roteirista Carmen Emmi se debruça com cuidado e atenção.

O contexto é específico, e merece ser esmiuçado. Estamos em Nova York, no final dos anos 1990. Aplicativos de sexo e de relacionamentos ainda não existiam, e nem mesmo a internet era popular como hoje. A homossexualidade não era mais proibida por lei – como fora algumas décadas antes – mas após um assassino ter sido pego por ter matado mulheres que se recusaram a praticar sexo oral nele, prática que ele afirmava ter aprendido com homens gays em banheiros públicos da cidade, a força policial estabeleceu um grupo de ação específico, destinado a apreender homossexuais por atentado ao pudor, quando esses se expunham em atos obscenos nesses ambientes. Lucas é um dos melhores desse time. Bonito e jovem, atraía facilmente os olhares libidinosos de rapazes que o seguiam até mictórios de shopping centers. Uma vez lá, assim que abriam as calças e ficavam nus, o policial se afastava, permitindo que um colega cercasse o acusado, levando-o sob custódia.
Lucas, portanto, é uma isca. Serve como elemento de atração aos outros, mas o que fazer quando o atraído é ele mesmo? É o que acontece a partir do momento em que conhece Andrew, no mesmo centro comercial em que deveria caçar aqueles que, naquela época e contexto, eram vistos como transgressores. No último instante, quando o predador está prestes a dar seu golpe final – ou seja, induzir aquele que nele está interessado a se expor – desiste, recua, se afasta e, ao mesmo tempo, o protege. Um contato, no entanto, permanece. E assim uma porta para uma possibilidade futura se abre. Porém, é pouco diante dos dilemas enfrentados por esse jovem policial, de imenso potencial, mas igual capacidade de se deixar levar pelos problemas que o afetam. Não lhe bastam apenas esses vividos quando em trabalho – ainda que, como o título antecipa, o uniforme não chega a lhe ser uma exigência, pois o disfarce é que o torna tão eficiente – mas há ainda aqueles de origem pessoal. O pai recém falecido, a mãe agora viúva, o tio abusador, a ex-namorada que lhe representa uma nova incerteza.
Após ter chamado atenção como um dos protagonistas de Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes (2023), o britânico Tom Blyth percorre em À Paisana uma jornada mais sutil, mas não menos poderosa. Como Lucas, ele é tormenta e tempestade, contaminando-se por esses dilemas que transbordam, tanto ao seu redor, como dentro de si mesmo. A contrapartida é o registro sólido e imutável de Russell Tovey enquanto Andrew. Esse, mais experiente, torna explícita de imediato sua intenção para com aquele que agora conhece. Mas seu alerta não é ouvido. E a insistência do novato também será motivo da ruptura entre os dois. Mas essa não é uma história de amor. É, sim, o andar de alguém que precisa de transformação. E mudar é também sofrer.

Carmen Emmy afirma ter realizado um drama com traços autobiográficos, e esse desenho aumenta a capacidade de identificação com sua audiência. Se por um lado recai a estereótipos como a dor do homem gay que necessita ser aceito e se mostra inseguro quanto ao futuro, por outro apresenta circunstâncias suficientes para mostrar que o percurso atravessado por Lucas é mais do que mero acaso. Dos embates familiares ao acolhimento que encontra nas entregas romântica e sexual (tanto dela, quanto dele), À Paisana vai assim deixando suas marcas pelo caminho, tanto no personagem, quanto na audiência, que aqui irá se deparar com o retrato de um tempo que parece ter ficado para trás, mas que também aponta a uma preocupação que até hoje a muitos aflige. Se recursos dramáticos, como trocas de nomes e hesitações profissionais poderiam ser minimizadas em nome de uma maior fruição, há também de se reconhecer o tamanho do comprometimento dos envolvidos. Um discurso denso, mas acessível. E, portanto, merecedor da atenção que desperta.
Filme visto durante a 49a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2025
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Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 7 |
| Daniel Oliveira | 5 |
| Arthur Gadelha | 6 |
| Daniela Pedroso | 7 |
| MÉDIA | 6.3 |

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