Crítica


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Sinopse

Crítica

Teresa viveu a vida inteira para uma família. Para uma só família. Uma família, no entanto, que não era sua. Não a sua família. Aquela que nunca teve chance de formar. Passou sua existência à sombra de outros, dedicando-se um trabalho que mais se assemelha à escravidão, ainda que nunca o tenha visto como tal. Acreditava ser parte daquele todo, uma crença que se desfez irremediavelmente ao se perceber descartável. Quando os patrões morrem, sobram os filhos, aqueles que viu nascerem e crescerem, tratando-os como se fossem seus, ainda que nunca tenham sido. E para estes, o olhar é para frente, nunca para trás. Chegou a vez dela partir. E para quem não tem um chão para chamar de seu, qualquer lugar pode ser o certo. Na cidade grande, no pequeno vilarejo ou mesmo no meio do nada. Ela é A Noiva do Deserto, filme conduzido com sensibilidade por uma dupla de realizadoras, as argentinas Cecília Atán e Valeria Pivato, mas que ascende a um novo patamar graças a interpretação precisa e delicada da chilena Paulina Garcia.

A casa que sempre pensou ser parte de si não mais lhe pertence. Os novos donos, aquelas crianças que hoje usam gravatas, vestidos longos e dirigem carros importados, não mais veem nela qualquer utilidade. Não são ingratos, ou ao menos assim não se julgam, e refletem que fim dar – ou, de modo mais polido, como tão bem convém em situações como essa, como direcioná-la dali em diante. A solução parece ser mandá-la a familiares distantes, talvez perdidos no tempo, aqueles que, quiçá, talvez encontrem sentido na sua presença. Ninguém a pergunta, entretanto, o que deseja para si. Qual caminho prefere seguir a partir de agora. Nunca foi lhe dada essa opção, e se ela enfim se apresenta, é incapaz de reconhecê-la. Mas o choque da realidade não tarda. Nem que essa venha após uma noite dormida ao relento.

Teresa embarca em um ônibus, horas de distância da nova vida – ou seria apenas uma continuação do existir anterior? Durante o trajeto, uma parada providencial a obriga a mudar de caminho. É esquecida, mais uma vez, como se fosse invisível, tal qual já está acostumada. Estranha, por sua vez, quando é o contrário que lhe acontece: alguém pode, enfim, prestar atenção nela? E antes que a chuva venha, antecipada pelos ventos da mudança, sai atabalhoada, ainda carente daqueles instantes de simpatia e dedicação. Na correria, a bolsa fica para trás. E com ela, sua carteira, a identidade, o pouco dinheiro e qualquer anotação a respeito do destino que deveria seguir. Perdeu tudo, mas não desistirá de reencontrar o que é seu. Ainda que ignore que este não está no meio de entulhos abandonados, e, sim, dentro dela mesma.

Paulina Garcia, vencedora do Urso de Prata no Festival de Berlim por Gloria (2013), do Kikito no Festival de Gramado por As Analfabetas (2013), e indicada ao Independent Spirit Awards por Melhores Amigos (2016), por este trabalho foi premiada no Festival de Huelva e indicada aos Premios Fénix – o Oscar do cinema latino-americano. Reconhecimento que faz jus ao talento e à maestria que aqui apresenta. Com muito pouco, oferece ao espectador uma miríade de emoções, simplesmente com um olhar, com duas ou três palavras perdidas, com um sorriso escondido ou uma defesa que é lentamente deposta. É nela que o filme vive e se sustenta, e por mais que seu parceiro em cena – um ótimo Claudio Rissi (Nove Rainhas, 2000), que vai da desconfiança ao enternecimento com absoluta segurança – esteja no melhor do seu jogo, e nela em que todas as atenções se concentram. E de forma merecida.

Neste lugar que parece não ter fim, sem saber se está indo ou chegando, pronta tanto para partir quanto para chegar, Teresa parece, enfim, perceber que cabe a ela – e somente a ela – a decisão entre ficar, partir ou voltar, para onde ou quando. Como a santinha da beira da estrada, também vê que chegou sua hora de abandonar o que não mais lhe serve e assumir uma nova postura. O mundo, enfim, está aos seus pés. E é preciso se desapegar daquilo que não mais faz sentido para, a partir de então, começar uma nova jornada, que talvez nem seja aqui ou agora, mas tenha começado muito antes e só vá se concluir lá adiante. É nela, afinal, em que reside a decisão. Essa tomada de consciência não só é um ato de coragem, mas também de maturidade e reflexão. Construída no deserto, sim, mas pronta para o mundo.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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