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Sinopse
Em A Ilusão, durante o ano de 1860, durante a Expedição dos Mil, Giuseppe Garibaldi enfrenta o poderoso exército Bourbon enquanto tenta conquistar Palermo. Quando tudo parece perdido, confia ao coronel Orsini um plano engenhoso: simular uma retirada com um grupo de feridos e soldados para enganar o comandante inimigo. Começa então uma arriscada partida de xadrez militar. História.
Crítica
A parceria entre o diretor Roberto Andò e Toni Servillo, ator italiano que caiu nas graças do público internacional após sua performance mesmerizante no oscarizado A Grande Beleza (2013), vem de longa data. Para se ter uma ideia, A Ilusão é nada menos do que o quarto trabalho dos dois juntos, uma união que teve início há mais de uma década com Viva a Liberdade (2013) – pelo qual ambos foram indicados ao David di Donatello, considerado o “Oscar” da Itália. Porém, desde A Estranha Comédia da Vida (2022), o cineasta tratou de agregar ao time uma dupla de comediantes bastante popular em seu país, o que tanto deve ter agradado ao público local, como gerado estranheza junto ao espectador internacional. Salvatore Ficarra e Valentino Picone são estrelas cômicas que poderiam ser comparadas, no caso brasileiro, ao que Renato Aragão e Dedé Santana foram nos anos 1980, por exemplo. A presença de ambos meio que entra em colisão com o estilo mais refinado e subliminar de Servillo, gerando um ruído interessante, ainda que não deixe de perturbar uma imersão mais fluida. No caso dessa abordagem sobre a bem-sucedida campanha de 1860 liderada por Giuseppe Garibaldi, tem-se tanto a precisão histórica, como a leveza de um discurso que privilegia o humor ao invés da verossimilhança. Caberá, portanto, à audiência descobrir em qual lado centrar sua atenção neste projeto que termina por soar mais como dois longas lutando pelo mesmo espaço narrativo.
Garibaldi, como mencionado acima, é a força propulsora dos eventos presenciados em A Ilusão. No entanto, é não mais do uma menção, uma sombra que paira sobre os personagens, e menos um elemento incisivo e saliente. O ponto de vista escolhido por Andò é outro. De um lado está Vincenzo Giordano Orsini (Servillo, entre a concisão e a objetividade), um coronel siciliano que recebe do comandante a missão de liderar uma equipe heterogênea e mal preparada que deverá percorrer o sul do país e promover uma coesão entre tantos pensamentos e vontades distintas. Sem muito tempo em mãos, acaba aceitando sob seu comando qualquer um disposto a levantar armas em nome dessa causa comum. Até mesmo duas figuras que obviamente não possuem a menor noção do que estão ali fazendo. No primeiro confronto bélico, o resultado não poderia ser outro: entre os italianos amadores e os franceses que na época dominavam com força e treinamento a região, o que acaba acontecendo é um verdadeiro ‘salve-se quem puder’ entre aqueles no lado mais fraco. É quando Domenico (Ficarra) e Rosario (Picone) se encontram e decidem se apoiar um no outro. Desgarrados, precisam tanto evitar acusações de deserção, como também alcançar intentos individuais, como retornar a uma noiva prometida ou fugir de dívidas de jogo.

Eis, enfim, o maior mistério de um filme que brinca mais com aquilo que se imagina e menos com o que se tem de concreto diante de tantas limitações. A disputa, como se pode imaginar, é desigual. Se por um lado o apego aos fatos percebido no discorrer dos acontecimentos que contam com Orsini à frente se mostram imersos a tantos detalhes, explicações e nomes pouco familiares, a liberdade artística experimentada pelos dois trambiqueiros acaba por inevitavelmente conquistar uma simpatia quase imediata por parte da plateia. Mas as duas histórias estão transcorrendo em paralelo. E não tardarão a se encontrar. Suportar o tédio provocado pelo cruzamento de elementos facilmente verificáveis em uma rápida pesquisa na internet é um preço menor a ser pago pela oportunidade de presenciar dois humoristas adeptos à improvisação e ao acaso, que agem em um contexto de época como se estivessem no presente. Suas ligações são tão fortemente marcadas com o agora que a data pouco importa. São as expressões que envergam, os golpes quase infantis e os desenlaces ingênuos que enfrentam que aumentam a universalidade de suas ações. Podem não pertencer a um episódio tão divisor de águas para a identidade italiana, mas geram simpatia quase imediata frente a um espectador menos exigente e mais aberto a esse tipo de experimentação.
O título A Ilusão não é concedido de forma aleatória. Por mais que alguém possa se perguntar pela maior parte da narrativa quem estaria iludindo quem nesse jogo de aparências e hierarquias, com intenções não reveladas e segredos de guerra expostos apenas no último instante, será no terço final, quando os protagonistas voltam a se encontrar e um sacrifício maior por parte de um desses lados se mostrará incontornável, que uma mentira salvadora de vidas encontrará espaço, distanciando-os das brincadeiras irrelevantes de antes e levando-os para perto de consequências capazes de transformar verdades num futuro não muito distante. Roberto Andò sabe que o tema que tem em mãos é por demais importante. A decisão de abordá-lo tanto com a seriedade necessária, mas também por meio de uma graça que tanto abraça quanto facilita esses processos de leitura, tem seus méritos, e estes se mostram evidentes após certa espera, quando muito do que se apresentava como desvio, enfim, adquire sentido. Alguns episódios – como a visita ao convento – poderiam ser evitados sem grande perda aparente, mas ali se mostram inseridos pela necessidade do cineasta em elevar seus personagens além da caricatura, mostrando-os dignos de entendimento e simpatia. Nem tudo que os olhos veem, portanto, se confirma passageiro. Eis enfim o maior ato de ilusionismo de um filme que parte do ontem para se dirigir não apenas ao hoje, mas acima de tudo a um amanhã ainda em construção.
Filme visto durante o 20º Festival de Cinema Italiano no Brasil, em novembro de 2025
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