A Divina Sarah Bernhardt

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Sinopse

Em A Divina Sarah Bernhardt, a lendária atriz vive o auge de sua carreira e se consolida como uma das primeiras grandes celebridades internacionais. Admirada nos palcos, ela também se revela uma mulher apaixonada, independente e à frente de seu tempo, desafiando convenções sociais e construindo um legado que ultrapassa as fronteiras do teatro. Biografia.

Crítica

Sarah Bernhardt (1844-1923) pode ser apontada, mais de cem anos após sua morte, como a “primeira celebridade internacional” da História. Francesa, durante décadas conquistou plateias não apenas no seu país de origem, além de turistas vindos dos mais diversos lugares para vê-la atuando, mas também em muitos outros destinos, aos quais constantemente visitava. E não apenas na Europa, o que seria razoável, afinal viveu numa época na qual grandes distâncias eram percorridas por navios ao longo de semanas, se não meses. Só no Brasil, por exemplo, esteve em três ocasiões distintas. Não causa espanto, portanto, dedicarem uma cinebiografia inteira a uma mulher como essa. Guillaume Nicloux, no entanto, tem outra proposta para A Divina Sarah Bernhardt. Ao invés de simplesmente percorrer feitos e datas importantes da vida da artista, ele se dedica a estabelecer uma investigação pessoal sobre quem ela foi e o que a interessava. Pode não ser suficiente para quem busca uma pesquisa bibliográfica (algo que qualquer visita à Wikipedia pode resolver), mas oferece algo a mais, uma busca pela ideia de quem ela foi, o que a motivou e o legado que deixou como herança.

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Completamente cosmopolita, Sarah Bernhardt foi uma verdadeira diva. Para se tornar divina, portanto, não levou muito tempo. Levada às telas diversas vezes, chamou atenção até no cinema brasileiro, quando a cineasta Ana Carolina escalou a francesa Béatrice Agenin para vivê-la em Amélia (2000), drama que reconstituía sua passagem pelo Rio de Janeiro no início do século XX assumindo como ponto de vista o de sua empregada pessoal, vivida por Marília Pêra (a personagem que dá título ao filme). Antes, no entanto, quem a interpretou foi a duplamente vencedora do Oscar Glenda Jackson em A Incrível Sarah (1976), de Richard Fleischer. É nesta produção, aliás, em que Nicloux se baseia para compor sua versão. Porém, se o longa anterior tinha como intento resgatar o percurso da estrela, este mais recente parte de um momento específico: o relacionamento dela com Lucien Guitry, que também era ator e um dos seus mais constantes pares românticos. Porém, se na ficção um se entregava livremente nos braços do outro, nos bastidores a história era outra.

Guitry, quando vivo, chegou a ser apelidado de “Divã, o Terrível”, justamente pelo temperamento difícil e pelas constantes disputas de ego em que se metia com seus colegas de atuação. Por mais que fosse apontado como o equivalente de Bernhardt pela excelência de suas performances, não soube capitalizar tais avaliações a seu favor. Os dois nunca se casaram, mas entre idas e vindas ficaram por quase uma década juntos. A admiração, porém, não chegou ao fim. Nem o desejo. Ele a trocou por uma mulher mais jovem, com quem acabou se casando, o que gerou na atriz um impacto emocional avassalador. Alegadamente, os dois cortaram relações a partir de então e não mais se falaram. Mas Nicloux prefere imaginar um outro destino para ambos. Nessa elaboração, nada foi capaz de afastá-los, por mais que a paixão tenha se encerrado. Tanto é que as ligações entre eles teriam se mantido, inclusive por meio da presença do filho dele, Sacha Guitry, que se tornaria um dos mais célebres dramaturgos franceses – tendo, inclusive, escrito a última peça que Bernhardt encenou, em 1923.

Entre figuras célebres que se tornariam referências históricas nos anos seguintes, como Sigmund Freud (uma piada curiosa por ter sido, supostamente, desprezado por Sarah após ele ter lhe declarado ser um fã ardoroso de suas performances, a ponto de ter saído de Viena e ido até Paris apenas para conhecê-la pessoalmente) e o escritor Émile Zola (que teria feito parte do círculo mais íntimo da artista e, por sugestão dela, é que acabaria se envolvendo com o caso de Alfred Dreyfus, o que o levaria a escrever o icônico manifesto J’Accuse…!, em 1898), A Divina Sarah Bernhardt brilha quase que exclusivamente pela presença luminosa e hipnotizante de Sandrine Kiberlain. Vencedora de dois César (entre incríveis 9 indicações até o momento, e contando) e premiada nos festivais de Bruxelas e de Montreal, entre outros, ela oferece uma leitura muito própria do ícone, brincando tanto com os exageros que se tornaram mito, como também com o lado mais frágil e pessoal dessa mulher que até hoje é vista como exemplo de excelência para tantos, transitando por suas inseguranças e temores, assim como investe sem olhar para trás na exuberância e no carisma que a ela era tão natural.

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Guillaume Nicloux não é um dos realizadores franceses mais conhecidos no exterior, por mais que já tenha dirigido figuras como Isabelle Huppert (A Religiosa, 2013), Gerard Depardieu (O Vale do Amor, 2015) e até o saudoso Gaspard Ulliel (Os Confins do Mundo, 2018). Sem nunca ter se confirmado como autor, ao menos é competente no que faz, confiando em seus parceiros. Em A Divina Sarah Bernhardt essa sensação se repete, não apenas pela escolha da protagonista, mas também por colocá-la ao lado dos eficientes Laurent Lafitte (como Lucien) e o jovem Grégoire Leprince-Ringuet (como o filho de Sarah, Maurice). Entregando ao espectador mais uma sensação de quem foi a homenageada, ao invés de se ocupar em apenas repetir fatos e episódios marcantes, o conjunto serve não apenas para fazer jus ao brilho dela, mas também como oportunidade de recuperar a velha máxima que afirma que “quem sabe, faz ao vivo”. Sarah sabia, e como poucas, tendo feito e mergulhado de cabeça com tudo, tanto nos palcos, como em sua própria vida. Os limites entre público e privado para ela não existiam, antecipando em mais de um século um sentimento que hoje é até mesmo corriqueiro. Por isso, eis um retrato que merece atenção não apenas pelo que resgata, mas por tudo que antecipa.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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