Rodrigo Bolzan voltou neste ano ao Festival de Brasília numa situação distinta à vivida por ele na capital federal quando da exibição de Cama de Gato (2002), pelo qual, inclusive, foi premiado. Todavia, a maturidade e a experiência ampliadas, especialmente pelo teatro, não tiraram do ator o entendimento de que atuar rima com correr riscos. Em Pendular (2017) ele interpreta um artista plástico em meio a um relacionamento com uma bailarina, numa dinâmica entrecortada incessantemente pelas artes de ambos, o que propicia a simbiose entre instâncias, portanto, indissociáveis. Nesta conversa exclusiva que tivemos com Rodrigo, ele explica um pouco sobre seu processo criativo e comenta acerca das polêmicas que o filme pode suscitar, especialmente em virtude das cenas de sexo que protagoniza com a companheira de cena, Raquel Karro. Confia o nosso bate-papo inédito.

 

 

 

Nestes tempos tão nebulosos, como foi realizar um filme que aborda afetos maneira poética?
Foi um desafio bastante prazeroso. No convite da Julia (Murat, a diretora) vinha agregado esse despojamento, o desejo, a concentração em prol da realização de algo que mistura afeto e ofício. A proposta era que nosso trabalho fosse realmente atravessado pelo afeto e vice-versa. Foi um enorme prazer. Ocorreu uma sucessão de episódios de aproximação, entre todos os envolvidos, além das proximidades anteriores. Julia e Matias, respectivamente diretora e roteirista, são casados, por exemplo. Então, partimos de uma simetria ou até mesmo de uma assimetria, algo um pouco geométrico, formado por vários pontos envolvidos na criação. Fizemos negociações bonitas e concretas, relacionadas com as diversas linguagens interagindo.

 

Diferentemente da Raquel, que se expressa com a sua arte, você não é artista plástico. Como foi se apropriar desse universo?
Na verdade, essa diferença nem é tão radical. A Raquel também tem o trabalho de atriz, ela não é exatamente uma bailarina de formação, embora tenha aproximação com a dança, com a arte circense. Mas, realmente, essa ligação dela com corpo é mais evidente. Para mim, desafiador foi exatamente o fato de não ter grandes relações com artes plásticas e/ou artes visuais na minha história. Meu personagem é um artista experimentado nessa área. Acredito que esse movimento diga respeito à minha tarefa diária como artista de teatro, de abstração, de imaginação, de colocação no lugar do outro, de sensibilizar-se para determinadas texturas e discursos e colocar em prática, deixando isso passar pelo meu corpo.

 

Como você encara, em pleno ano de 2017, o espanto de algumas pessoas com as cenas de sexo no cinema?
Para algumas pessoas o sexo causa desconforto. Sexo ainda é tabu. Apesar de o Brasil ter a fama oriunda do carnaval, de todo mundo se tocando, essa é uma imagem bem superficial. A violência é bem mais explorada nas artes audiovisuais brasileiras do que qualquer espaço que concerna aos afetos, ao corpo. Entrando no circuito comercial, é cada vez mais urgente elaborar um discurso para que as pessoas entendam que isso não quer ofender, que o sexo faz parte da vida, podendo estar no filme de maneiras muito próximas as da realidade. E isso não vai interferir em alguém cuja vida sexual se inicia. Comento isso, porque Pendular acabou de ganhar a classificação etária 18 anos, por um detalhe de genitália que aparece. No filme, as cenas de sexo são minoria, mas de fundamental importância. Realmente espero que as pessoas não deixem de assistir. Elas vão gostar.

Rodrigo no palco, com a peça Let’s Just Kiss and Say Goodbye

 

Seu personagem precisa entender que certas coisas dizem respeito estritamente ao corpo Dela e isso gera conflitos. Como foi a construção dessa energia em cena?
O filme tinha várias outras motivações para os personagens, que não couberam no corte final. Apesar de parecer que nós, os personagens, – eu falo “nós” porque somos artistas também –, talvez sejamos um pouco mais evoluídos sobre determinados pontos, quem decide, no fim das contas, se vai carregar ou não o filho na barriga é a mulher. Meu personagem, de certa maneira, quer impor o afeto dele, como se o filho pudesse dar forma ao envolvimento do casal. Acredito que isso é completamente humano. O filme reflete sobre esses limites, o dentro e o fora, o meu corpo e o corpo dela, a minha arte a arte dela. Tentamos, o tempo inteiro, entender e lidar com esses limites, essas bordas.

 

(Entrevista concedida, ao vivo, em setembro de 2017)

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, também leciona ocasionalmente na Academia Internacional de Cinema/RJ.
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