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Artigas: La Redota

14/08/2012    

 

Crítica

A força da imagem. Em 1884, o governo uruguaio dá ao retratista compatriota Juan Manuel Blanes (1830 – 1901) a missão de retratar José Artigas (1764 – 1850). Motivos políticos à parte, a tarefa era grandiosa. Para os uruguaios, el libertador Artigas foi mais que o rosto de um homem corajoso. Pelos ideais cultivados e feitos realizados, o homem se confunde com a identidade uruguaia e o mais primitivo dos anseios do humanos: liberdade.

Produzido para a televisão espanhola como parte da série Os Libertadores, Artigas: La Redota é o segundo longa-metragem de César Charlone, que assina o roteiro em parceira com Pablo Vierci (El Viñedo, selecionado para o Festival de Gramado de 2000). Diretor de fotografia experiente e colaborador tradicional de Fernando Meirelles, Charlone veio a ser mais conhecido dos brasileiros por seu trabalho fotográfico em Cidade de Deus (2002), O Jardineiro Fiel (2005) e Ensaio sobre a Cegueira (2008). Sua estreia como diretor se deu com O Banheiro do Papa (2007). A história de um vilarejo que se prepara para receber o Papa lhe rendeu uma série de prêmios, entre eles o de melhor filme na mostra latina do Festival de Gramado e o do júri na Mostra de Cinema de São Paulo.

Em Artigas, Charlone deixa a beleza das histórias simples do primeiro trabalhou e o mundo contemporâneo dos filmes de Meirelles para apostar em um épico. O denso material histórico e político compõem a trama que tem na incumbência do pintor o ponto de partida para a reconstrução de um mito fundador. Ao vasculhar o material que lhe é dado para produzir a pintura, Blanes (Yamandú Cruz) se depara com as notas de Guzmán Larra (na boa interpretação de Rodolfo Sancho). Larra é um espião espanhol enviado para se infiltrar entre os revolucionários e matar Artigas (em atuação pouco inspirada de Jorge Esmoris). A sinuosidade estabelece duas narrativas, ainda que a de Blanes seja relevante unicamente em termos de encaminhar o início e o desfecho do filme, ambos didáticos.

A direção demonstra convicção no caminho que pretende seguir. Por isso, o épico constrói-se com as vantagens do gênero e sem as precipitações megalômanas que costumam surgir em decorrência da importância do tema. Acerto fundamental está em incorporar a linguagem cinematográfica moderna à narrativa. A técnica da filmagem com câmera na mão mostra-se competente para enfrentar o desafio, servindo tanto naturalmente às cenas de ação quanto se mostrando funcional nos diálogos em grupo e na composição do pampa. As cores equilibradas, com predominância para o contraste entre verde e azul, deixam o filme visualmente agradável, por vezes excessivamente. A edição de Daniel Rezende (Tropa de Elite, 2007, e A Árvore da Vida, 2011, entre outros) transmite a sensação de agilidade necessária para que passagens mais pesadas, como os momentos de explicação histórica, não se limitem a sequências maçantes. Combinados, o ritmo de Rezende e a fotografia, do próprio Charlone, são a marca técnica de Artigas, uma junção arriscada e acertada.

Sitiados entre a violência dos inimigos e a brutalidade do esquecimento, este traço característico do Sul, os revolucionários entoam, entre farrapos e escassa comida, canções como bandeiras hasteadas no peito. Temos de ser constantes aos nossos ideais, lembra uma delas, porque isso nos fará gigantes. A perseverança e a comunhão de esperança daquela pobre gente intriga Larra. Quem é o homem com tamanha persuasão para levá-los adiante? Que virtude emana de seu caráter? Aos poucos, o enviado da coroa reconsidera o mito. Artigas, o homem, é apenas mais um. Falível e por vezes ingênuo, como demonstra a cena em que aceita a deserção de um dos seus sem suspeitar que ele levaria outros consigo, além de animais, dinheiro e comida. Para tristeza do governo uruguaio e surpresa de Blanes, é pela força do povo que Artigas emerge, como o centro de uma força que já não se pode deter.

Emblemática a cena em que, no campo, o comandante espalha o esqueleto de um gado. Para cada parte da carcaça, o mundo que desejam se constrói em oposição ao anterior. Não há mais volta, pois o passo dado foi muito largo. Para os que foram tão longe e deixaram tudo, não servem mais migalhas. Até porque sem liberdade não há vida que lhes reste.

Nota da crítica

4/5

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Willian Silveira é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul, e da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Tem formação em Filosofia e em Letras, estudou cinema na Escola Técnica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Acumulou experiências ao trabalhar como produtor, roteirista e assistente de direção de curtas-metragens.

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Ficha Técnica

NOME ORIGINAL: La Redota - Una Historia de Artigas

PAÍS DE ORIGEM: Uruguai

ANO: 2011

DIREÇÃO: César Charlone

ROTEIRO: César Charlone, Pablo Vierci

EDIÇÃO: Daniel Rezende

FOTOGRAFIA: Fabio Burtin, César Charlone

MÚSICA: Luciano Supervielle

FIGURINO: Adriana Levin, Lucía Mangado, Alejandra Rosasco

PRODUÇÃO: César Charlone, Carla Schertel

ESTÚDIO: AIM Produções Cinematográficas, Cimarrones Orientales SRL, Wanda Filmes, Lusa Filmes

ELENCO: Yamandú Cruz, Jorge Esmoris, Franklin Rodríguez, Gualberto Sosa

Sinopse

Em 1884, o famoso pintor uruguaio Juan Manuel Blanes é encarregado pelo ditador do Uruguai de retratar José Artigas, o lendário libertador do Uruguai que, mesmo acuado por todos os lados, lidera um exército popular organizado no interior do país. Para realizar a tarefa, Blanes dispõe de um esboço realizado em 1811 por Guzmán Larra, espião espanhol que 70 anos antes havia sido contratado para assassinar Artigas. Na época, Larra seguiu os passos de Artigas até o acampamento em Ayuí e vivenciou os anseios de seus 8 mil seguidores. Quando os destinos isolados desses três homens se cruzam, nasce um novo sentido para cada um deles e para seu povo.

Curiosidades

- Segundo longa-metragem dirigido pelo uruguaio Cesar Charlone. Seu primeiro trabalho como diretor foi em O Banheiro do Papa (2007);

- O diretor Cesar Charlone mora no Brasil desde 1970;

- Charlone foi responsável pela direção de fotografia de Cidade de Deus (2002), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar;

- Premiado como Melhor Ator (Jorge Esmoris), Menção Especial, Melhor Filme pelo Júri Popular, Diretor, Melhor Filme e Melhor Longa Estrangeiro pelo Júri da Crítica no Festival de Gramado;

- Cineasta uruguaio também trabalhou nas produções O Jardineiro Fiel (2005) e Ensaio Sobre a Cegueira (2008).

2 comentários para “Artigas: La Redota”

  1. Adrianaem 19/08/2012 às 0:37

    Eu acho importante este resgate que o cinema pode fazer de nossa história latinoamericana, conhecemos tão pouco nossos “heróis”. O Artigas é uma fgura importantíssima, assim como San Martin, o Bolivar. Filmes épicos são tão dispendiosos que acabamos conhecendo tudo de George Washington, Abraham Lincoln (por causa de filmes como o estrelado pelo Daniel Day-Lewis, Holywood sempre valorizou a história americana)e deixamos de lado histórias interessantíssimas, próximas a nós

  2. Leoem 20/08/2012 às 7:23

    A historia de José Artigas é talvez a mais incrivel dos libertadores da A. Latina. Um pioneiro, um cara de absoluta vanguarda, que foi saboteado pelos Patricios (os ricos) de Montevideu, guerreado por Portugal e Espanha, Artigas deu terras, numa especie de reforma agraria nas Instruções do Ano 13, PARA OS INDIOS!!!! Em 1813!!!!
    Quem fazia ou fez isso em 1813? Ninguem!!! Um libertador NÃO CLASSISTA, que nem queria um pais independente, como depois foi o Uruguai. O que Artigas queria era AS PROVINCIAS UNIDAS DO RIO DE LA PLATA. Uma especie de Mercosul, contra o poder de Portugal e Espanha. E por isso foi inimigo das clases dominantes pro Portugal que moravam em Montevideu.
    Parabens a Cesar Charlone. Leiam a historia de José Artigas, vão se surpreender.

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