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Sinopse

Rivalidade Ardente acompanha Shane Hollander e Ilya Rozanov, astros do hóquei profissional e rivais ferozes dentro do gelo, cuja competição intensa esconde um romance secreto e duradouro. Enquanto enfrentam a pressão da fama, contratos milionários e a expectativa de torcidas apaixonadas, os dois precisam equilibrar o desejo de vencer com a necessidade de proteger um amor que não pode vir a público. Romance.

Crítica

São dois rapazes. São dois atletas. E são dois amantes. Esses parecem ser os elementos que despertaram atenção suficiente para fazer de Rivalidade Ardente um fenômeno de proporções mundiais – ainda que, obviamente, restrito a um nicho de audiência. Mas, e ainda bem, o programa baseado na série de livros escritos por Rachel Reid tem mais a oferecer (não muito, mas também não apenas isso). Para começar, há a escolha de novatos talentosos para interpretarem os protagonistas. Depois, a opção do esporte que praticam ser o hóquei no gelo é suficiente para motivar curiosidade, tanto pelo inusitado, como pelo visceral que agrega. Por fim, eis uma história de temática LGBT+ que se por um lado não foge de alguns esquemas recorrentes – a dificuldade de se assumir publicamente como tal, a insegurança quanto à própria sexualidade, o medo da homofobia – também evita repetir padrões desgastados (o gay como vilão, ou como alívio cômico, ou ainda destinado a morrer de AIDS ou como vítima de algum tipo de violência). Há, enfim, a possibilidade de um final feliz. Não muito diferente do que já foi visto milhares de vezes, porém com casais héteros à frente dos acontecimentos. Um detalhe que faz – bastante – diferença.

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Shane Hollander (Hudson Williams, que além de ter aparecido em dezenas de curtas-metragens fez também pequenas participações em séries como O Rastreador, 2025) é um dos nomes mais promissores do hóquei canadense. No país vizinho, porém, a prática não é tão comum – por mais que seja respeitada, envolvendo torcidas aguerridas – e muitos dos atletas são oriundos de outras nações. Como é o caso do russo Ilya Rozanov (Connor Storrie, visto rapidamente em Coringa: Delírio a Dois, 2024), chamado para jogar nos Estados Unidos. Shane e Ilya, portanto, não estão sempre juntos. Aliás, raramente se encontram. Mas, quando isso acontece, algo entra em ebulição. Desde o primeiro episódio de Rivalidade Ardente, é nítido tanto a vontade que ambos tem de se provarem os melhores em suas atividades, como o desejo que surge entre eles. Um sentimento não assumido publicamente, mas vivido com intensidade nos quartos de hotéis ondem seus times ficam hospedados. O programa criado por Jacob Tierney tem uma postura franca quanto a isso – as sequências de sexo entre os rapazes são parte fundamental da trama, ainda que não explícitas. Cada um deles, a seu modo, sabe bem o que quer. E está disposto a viver isso por completo.

Mas há mais em jogo do que apenas uma vontade individual. Se Hollander é um astro nacional, reconhecido nas ruas e estrela de diversas campanhas publicitárias, se assumir mesmo que em casa mostra-se uma tarefa difícil – afinal, a mãe é sua empresária, aquela que lida com contratos e negociações, e ele sabe bem o quanto uma novidade como essa poderia afetar tais discussões. Mais grava ainda, no entanto, é o caso de Rozanov. Não só – mas também, é claro – pelo fato da homossexualidade ser proibida e condenada da Rússia, sua terra natal. Porém o que lhe fala mais alto é a desaprovação familiar: o pai conservador, o irmão que abusa de sua confiança, todos lidam com essa fragilidade do rapaz – algo que esconde a todo custo, transformando essa dor em tensão nas quadras – como se esse estivesse sequestrado emocionalmente. Qualquer decepção, ou fuga das expectativas, poderia lhe custar o pouco apoio familiar que recebe daqueles que mais deveriam lhe dar suporte.

Hudson e Connor lidam bem com tais dualidades. O canadense, de ascendência britânica e coreana, guarda em si um sentimento sempre à flor da pele. Quando juntos, é o moreno que derrama pelos olhos um querer repleto de carinho e ansiedade. Já seu colega, nascido nos Estados Unidos, soa como dois lados de uma mesma moeda. Ao mesmo tempo em que se percebe o tanto que guarda em si, há também uma frieza emocional constante, armadura essa que usa para se proteger de qualquer proximidade. Não estranha o episódio 05 ser um dos melhor avaliados pelos fãs. É nele que ambos finalmente deixam cair suas máscaras e se revelam um ao outro além da fisicalidade que os une. É um projeto de continuidade que ali tem início. Algo ingênuo, é fato, mas também almejado por muitos. Os diretores do programa jogam com essa dinâmica sem resvalar no pueril ou na gratuidade, evitando também transformar a trama em apenas uma exibição de corpos sarados. Rivalidade Ardente peca pela falta de diversidade, sim, mas ao mesmo tempo faz muito com o pouco que tem em mãos. Parece ser o caso de um primeiro passo que se anuncia auspicioso pelo que pode vir a seguir.

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Muito disso, é posto, advém do impacto causado pelo episódio 03. Rachel Reid já escreveu seis volumes da série de livros Game Changers, e Rivalidade Ardente é uma adaptação não do primeiro, mas do segundo desses romances. Mas o tomo inicial não é ignorado por completo. É justamente nesse enredo que se concentra do terceiro capítulo, quando o foco desvia dos dois jogadores em ascensão para mirar seu olhar a alguém que está no ponto oposto desse espectro: Scott Hunter (François Arnaud, de Twinless: Um Gêmeo a Menos, 2025). Esse é o capitão do time, o veterano que está chegando aos 40 anos – e, com isso, em vias de uma aposentadoria quase compulsória. A percepção discreta que direciona às interações entre Shane e Ilya anuncia seu entendimento: Scott também é gay. Também está no armário. E também está apaixonado. Um segmento inteiro voltado ao desenvolvimento desse personagem e sua transformação diante e por trás dos holofotes é fundamental não apenas para gerar o peso emocional quanto ao que se espera a partir do envolvimento dos jovens, mas também justifica o próprio título original: ele é um dos que estão dispostos a mudar o jogo, seja ele qual for.

Com apenas seis episódios, anseia-se por mais quando Rivalidade Ardente, enfim, termina. Mas é uma parada momentânea – um segundo ano já foi confirmado. E no que depender da autora, há muito ainda a ser explorado. Shane e Ilya mostram que o sexo pode, sim, ser caminho para algo maior, apontando que inseguranças, traumas familiares, ansiedades e indecisões não são exclusividades da população heterossexual. E também servem para mostrar que casais gays não estão tão distantes dos demais, por mais excitante – ou fantasiosa – seja a ilusão (ou estereótipos) que se criam sobre eles. Se há pouco embate, os dramas nunca adquirem proporções impossíveis de serem superadas e a atração carnal, por maior que seja sua insistência, não consegue eclipsar tudo que é posto na balança, eis uma aposta arriscada, desenvolvida com cuidado, que entrega o que promete, ao mesmo tempo em que ousa ir (um pouco) além.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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