Onde Assistir
Sinopse
Em Vingadora, Nikki, uma ex-militar marcada pela guerra, entra em confronto com o submundo do crime após o sequestro de sua filha, usando suas habilidades de combate enquanto é perseguida por criminosos e pela polícia em uma busca urgente por resgate. Ação.
Crítica
No final do século XX eram comuns longas de ação que seguiam essa lógica do “exército de um homem só” contra tudo e todos. De Comando para Matar (1985) em diante, dezenas de títulos desse subgênero fizeram de nomes como Arnold Schwarzenegger, Sylvester Stallone, Jean-Claude Van Damme, Chuck Norris e tantos outros (resgatados décadas depois na saga Os Mercenários) estrelas populares e campeãs de bilheteria. Como se percebe, no entanto, eram todos homens. Mulheres pareciam não ter acesso a esse “clube do Bolinha”. Mas aos poucos as coisas estão mudando – lentamente, bem lentamente, ainda assim, em transformação. E Vingadora faz parte desse processo. Pois o que se tem aqui é um típico filme dos anos 1980, cujo único diferencial é contar com uma personagem feminina como protagonista. E mesmo uma pífia tentativa de reviravolta ao final pouco efeito alcança no sentido de diferenciá-lo destes similares de décadas atrás. Uma bobagem passageira, que deve entreter os afeitos ao estilo “tiro, porrada e bomba”, mas que dificilmente irá perdurar na memória de sua audiência assim que as luzes se acenderem.

Se há um motivo, portanto, para se dar uma moeda de crédito para Vingadora é a presença de Milla Jovovich à frente do elenco. A atriz responsável pelo sucesso da saga Resident Evil e por tranqueiras recentes como Monster Hunter (2020) e Nas Terras Perdidas (2025) tem demonstrado dificuldade em se desligar desse tipo que entregou em grande parte de sua filmografia: da lutadora incansável, atleta hábil e feroz guerreira. Isto é, se é que ela de fato está disposta a se afastar desse estereótipo. Pois, se assim fosse, qual motivo teria sido suficiente para convencê-la a se envolver em algo tão genérico e pouco expressivo quanto esse título assinado por Adrian Grunberg. Cineasta que até então havia comandado brutamontes como Mel Gibson (Plano de Fuga, 2012) e o já citado Stallone (Rambo: Até o Fim, 2019), oferece agora uma abordagem mais feminina a uma narrativa que tem se mostrado constante em sua carreira.
Sim, pois Nikki (Jovovich) também é uma heroína desacreditada que deverá partir em uma missão sozinha, contra todas as probabilidades, para tentar fazer valer a justiça – a sua visão de justiça, ao menos. No caso, ela aparece como uma militar que, devido ao trabalho de campo, passou grande parte da criação da própria filha longe de casa. A menina, como não poderia ser diferente em casos como esse aqui citado, se tornou rebelde e refratária às orientações maternas. Em um raro momento das duas em casa, a jovem decide fugir pela janela do quarto para uma noite de festa com as amigas em uma balada. Como nada é por acaso, justamente o primeiro cara por quem ela se demonstrar interessada estará ali atuando a serviço de uma máfia de tráfico humano. Assim, não tardará para lhe aplicar um ‘boa-noite-cinderela’ e sequestrá-la. A mãe, antevendo o perigo à distância, partirá numa corrida contra o tempo para salvar sua menina.
Não há meio termo no discurso adotado pelo roteirista estreante Bong-Seob Mun. Assim que a mãe chega em casa ela e a filha já entram em conflito. Quando a mais velha vira as costas, a outra trata de escapar da vigilância materna. No primeiro drinque oferecido por um rapaz, esse é o vilão destinado a enganá-la. É como se não houvessem zonas cinzas, é sempre preto ou branco, bom ou mal. Bastou um vacilo, e a ameaça rapidamente se manifesta. E ninguém será forte, capaz ou bruto o suficiente para fazer frente aos esforços de uma mãe preparada e decidida a recuperar sua criança. Ela estará tão comprometida com essa jornada de vingança que até os laços que sempre a fizeram uma soldada das mais eficientes começarão a se desfazer, apagando o real do fantasioso, o concreto das teorias conspiratórias.

O mais problemático em assumir tal visão já quase ao término da história é colocar em cheque o propósito do enredo. Afinal, Vingadora se apresenta desde o começo – por meio do uso de números e estatísticas – como um filme-denúncia, disposto a oferecer luz a uma tragédia social que, segundo os realizadores, não estaria recebendo a atenção devida das autoridades. Mas quando até na ficção o que se vê é um apagamento das linhas entre imaginação e o factual, como levantar bandeiras sem bases que as sustentem? Assim, a despeito dessa busca por uma autoridade que pudesse lhe oferecer relevância, o que permanece é a luta daquela desacreditada atrás daquilo – ou de quem – possa lhe oferecer, enfim, paz. Um caminho que tem sido percorrido à exaustão pelo cinema em muitas e diversas abordagens, e que dessa vez não encontra oportunidade para se diferenciar das demais.
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