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Em Velhos Bandidos, os aposentados Marta e Rodolfo decidem planejar um ousado assalto a banco como forma de transformar completamente suas rotinas. Determinados a executar o crime perfeito, eles percebem que precisarão da ajuda de alguém com mais agilidade e experiência nas ruas. É assim que entram em cena Nancy e Sid, um jovem casal que se torna parceiro na empreitada criminosa. Comédia.
Crítica
A despedida dos holofotes não precisa, necessariamente, ser um momento triste. Pode, é claro, ser um adeus em grande estilo, uma volta por cima, um “até logo” ensaiado, por mais que se conheça seu caráter irreversível. Infelizmente, não é o que o espectador irá encontrar em Velhos Bandidos, muito provavelmente a última aparição dos grandes Fernanda Montenegro e Ary Fontoura na tela grande. A percepção quase inevitável frente a essa farsa comandada por ninguém menos do que Claudio Torres – filho dela – é de um imenso constrangimento, para não dizer vergonha alheia, uma vez constatado o somatório de cenas desperdiçadas, participações sem sentido, um roteiro falho e de fácil antecipação. Ou seja, um conjunto que dificilmente se sustentaria se não fossem motivos reunidos que estão além do que se vê em cena. Eis, portanto, uma produção que busca desesperadamente seu valor não no que oferecer ao espectador, mas naquilo que pensa ter agregado, por mais que deixe claro não saber o que fazer com os elementos presentes.

A boa notícia é que tanto Montenegro, quanto Fontoura, já declararam não serem “bichos do cinema”, por assim dizer. Em sua autobiografia (Prólogo, Ato, Epílogo: Memórias, de 2019), a atriz indicada ao Oscar por Central do Brasil (1998) não esconde ser sua verdadeira paixão o teatro, enquanto que tanto os filmes, como as novelas, ela os encara como necessidades da profissão. Já o eterno seu Nonô (Amor com Amor se Paga, 1984), ou o prefeito Florindo Abelha (Roque Santeiro, 1985), ou o coronel Arthur da Tapitanga (Tieta, 1989) – entre dezenas de outros personagens marcantes – será para sempre lembrado como uma das figuras mais emblemáticas da telinha, ao passo que suas aparições nos palcos, assim como nas telonas, foram ocasionais, nas melhores hipóteses. Velhos Bandidos ganha importância simbólica, portanto, por representar o primeiro encontro da dupla em uma obra de ficção em mais de cinco décadas (atuaram juntos em uma peça há cerca de 50 anos, segundo declaração dele ao programa Conversa com Bial, 2026).
Mesmo assim tal relevância é limitada. Os dois interpretam Marta e Rodolfo, um casal que descobre ter sido vítima de uma dupla de bandidos que limpam as casas de velhinhos ausentes de suas residências. Quando pegam os larápios com “a mão na massa”, por assim dizer, ao invés de entregá-los à polícia, decidem fazer uma proposta a eles: que os ajudem em um assalto a banco. Claro que há um motivo nobre por trás disso: o senhor teria sido demitido injustamente anos atrás, e tudo o que deseja é apenas “reaver o que e seu”, ou seja, fazer justiça ao seu modo. Já os malandros, que ganham rosto e corpo de Vladimir Brichta e Bruna Marquezine – que possuem quase vinte anos de diferença, mas tentam convencer enquanto casal, para aumentar o tom da sátira, principalmente nele, que se esforça em peruca e em gestual para aparentar ser mais jovem do que de fato é – aceitam a ideia até certo ponto (não há dúvidas de que abraçarão uma agenda própria, dispostos a dar o golpe nos autores do plano no momento em que lhes for mais conveniente).
Se o argumento – escrito por Torres em parceria com Fábio Mendes (do catastrófico Quarto do Pânico, 2025, versão nacional do thriller de David Fincher) e Renan Flumian (do experimental Amores Pandêmicos, 2023) – tivesse ficado restrito a esse quarteto, talvez algo de válido permanecesse acima do ponto de corte. Mas a impressão é que o diretor nunca se dá por satisfeito. Assim, dá-lhe mais elenco, mais enredo, mais reviravoltas. Há um subplot envolvendo um grupo de veteranos – Vera Fischer, Teca Pereira, Hamilton Vaz Pereira, Tony Tornado – que nunca chega sequer a fazer sentido, um triângulo amoroso entre o casal de idosos e o personagem de Reginaldo Faria (tão artificial e mal executado que não chega perto de gerar a tensão almejada) e o desperdício mal creditado de artistas que em outras ocasiões teriam muito mais a render, como Nathália Timberg, Laila Garin e Mary Sheila. Mas nada é pior do que o investigador policial vivido por Lázaro Ramos. A inconsistência do tipo por ele desenhado, cuja moral parece balançar de um lado para outro conforme o vento, só não causa maior embaraços pois, definitivamente, ninguém aqui está se levando a sério.

E é somente por isso que Velhos Bandidos não se confirma um desastre de proporções titânicas. É certo que mais do que uma história de assalto, ou uma trama de ação, o que está sendo oferecido é uma comédia das antigas. Mas mesmo essas carecem de um mínimo de lógica interna, algo ignorado do início ao fim dos acontecimentos vistos. Tanto Ary Fontoura, quanto Fernanda Montenegro, mereciam mais – e melhor. Claudio Torres, que já teve grandes momentos – Redentor (2004) segue sendo lembrado como seu ápice enquanto cineasta – aponta um certo enferrujamento no estilo – ele não conduzia um projeto para o cinema desde O Homem do Futuro (2011)! Enfim, assistir a esse filme revela uma curiosidade quase mórbida da audiência, incrédula frente ao espanto ao qual se confere, ao mesmo tempo em que duvidosa de que o conjunto pode, ainda, piorar. E acredita: fica ainda mais bobo, previsível e esquemático. Uma lástima.
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Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 4 |
| Ticiano Osorio | 3 |
| Daniela Pedroso | 6 |
| Lucas Salgado | 3 |
| Renata Muniz | 6 |
| MÉDIA | 4.4 |

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