Crítica
Leitores
Onde Assistir
Sinopse
Em Primeiro as Damas, a vida de um conquistador muda completamente quando ele desperta em um mundo paralelo dominado por mulheres. Nesse novo cenário, as regras sociais se invertem, obrigando-o a lidar com dinâmicas inesperadas enquanto confronta uma colega de trabalho determinada em meio a uma sátira sobre papéis de gênero. Comédia.
Crítica
O argumento que move os acontecimentos de Primeiro as Damas está longe de ser inovador. Mais do que uma simples “troca de corpos”, como frequentemente se vê em tramas ficcionais, e menos do que uma “existência circular”, ou seja, a de alguém preso a um mesmo período de tempo, o longa dirigido por Thea Sharrock (Pequenas Cartas Obscenas, 2023) faz uso de lógicas semelhantes, porém em um outro contexto: o que se altera é tanto o entorno quanto o interior do protagonista, que se vê forçado a essa mudança particular para garantir sua continuidade. Assim como em títulos como Feitiço do Tempo (1993), o personagem principal tem uma lição pela frente a ser aprendida para que consiga se livrar da armadilha temporal na qual acabou envolvido. E este é o ponto que garante algum tipo de atenção para o projeto: o debate proposto. Afinal, a discussão percorre temas como misoginia, feminismo e as evidentes diferenças no trato entre homens e mulheres não apenas em um ambiente profissional – por mais que este seja o centro de grande parte dos eventos – mas também num espectro mais íntimo. Ou seja, ainda que não seja particularmente inédito, ao menos resgate uma ideia urgente e que merece um tratamento minimamente respeitoso, o que aqui se alcança apenas em parte.

Pra começo de conversa, importante apontar que esta não é uma proposta inédita nem mesmo em sua estrutura básica. Afinal, trata-se de uma refilmagem de uma produção francesa, da mesma forma pensada para consumo via streaming: Eu não sou um homem fácil (2018), de Eleonore Pourriat. Em ambos, o protagonista masculino é uma figura desprezível, assim mesmo apresentada aos espectadores e que transita entre diversos ambientes sociais ao longo do seu dia ostentando esse tipo de comportamento com até um certo grau de orgulho. Afinal, trata-se de alguém que “venceu” na vida, ao menos pelos padrões capitalistas modernos. Trata-se de um diretor de uma agência de publicidade prestes a ser promovido que a cada noite leva uma ou mais mulheres para cama, apenas para se ver livre delas no dia seguinte. Quando a empresa que o contrata corre o risco de sofrer uma denúncia por não contar com presença feminina em cargos de decisão, ele acredita ser possível se livrar do problema oferecendo um melhor cargo a uma de suas funcionárias. Só que essa não será escolhida por mérito, comprometimento ou tempo de serviço: seu nome surgirá praticamente a esmo, de forma aleatória. E quando ela se dá conta disso, percebe ter chegado a hora de dar um basta.
É neste ponto que, de forma quase infantil, a diretora propõe uma virada de jogo. Após bater a cabeça, aquele que sempre se julgou no direito de todos os privilégios que durante sua vida inteira lhe foram oferecidos desperta em uma realidade que não mais reconhece. Tem-se, enfim, um mundo no qual são as mulheres que ditam as ordens, são elas que respondem pelo “sexo forte”, enquanto eles são vistos como figuras frágeis, emocionais, instáveis e delicadas. Está posto o que Primeiro as Damas quer, portanto, discutir: se as coisas fossem invertidas, como seriam as reações? O que a diretora e os roteiristas Natalie Krinsky (A Galeria dos Corações Partidos, 2020), Cinco Paul (Schmigadoon!, 2021-2023) e Katie Silberman (Não se preocupe, querida, 2022) desenrolam diante da audiência, no entanto, vai contra uma ideia de igualdade sexual. Pois nesse mundo ao contrário, a partir do momento em que são as mulheres que ditam as regras, as situações não se mostram igualitárias, ou ao menos um pouco mais equilibradas: o que se vê é algo tão ruim e distorcido, tendo apenas ocorrido uma inversão de personagens.
Se não se diz respeito ao sexo, seria o poder esse fator capaz de gerar tal corrupção? Uma vez perseguida essa ideia, o filme poderia ter sido alçado a um outro nível de reflexão, indo além da mera substituição de papeis esquemáticos e já conhecidos. Mas, infelizmente, não chega a ser o caso. Os realizadores tem pouco em mãos para ser trabalhado, e o que almejam é um entretenimento rápido, sem maiores desdobramentos ou consequências. Se durante esse processo cumprirem alguma função social, estará mais do que no lucro. Damien, agora não mais desfrutando do status que antes lhe parecia tão fácil, terá que se esforçar para fazer valer seu valor e, de fato, conseguir propor uma nova lógica de relações. Poderia ser apenas curioso, mas a verdade é que se confirma ser impossível desviar da frustração quando se percebe que numa história com esse título e premissa, seja o tipo masculino o verdadeiro motor propulsor de todos os acontecimentos.

Tanto Sacha Baron Cohen – melhor ao ostentar arrogância do que em sua busca por humildade – quanto Rosamund Pike – também mais à vontade em sua versão gélida e intocável, do que como uma inocente mãe de família e funcionária devota – já foram indicados ao Oscar por atuações anteriores, e se mostram razoavelmente comprometidos com os papeis que aqui têm pela frente. Em Primeiro as Damas, no entanto, o que desperta interesse é menos a performance do elenco (que conta ainda com nomes de respeito, como Emily Mortimer, Charles Dance, Fiona Shaw e Richard E. Grant, nenhum aproveitado na medida que mereciam) e mais a constatação de como uma iniciativa que tinha tudo para ser crítica e provocadora consegue se provar tão acomodada e passiva frente a uma cartilha que há tempos vem ditando as regras. Ao invés de alterar a ordem das coisas, apenas as segue sem questionamentos ou dúvidas, contradizendo não apenas a si mesmo, mas também a um debate contemporâneo que não pode continuar sendo ignorado.
Últimos artigos deRobledo Milani (Ver Tudo)
- Dia D - 16 de junho de 2026
- O Afinador - 15 de junho de 2026
- Obsessão - 15 de junho de 2026
Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 3 |
| Leonardo Ribeiro | 4 |
| Ticiano Osorio | 5 |
| MÉDIA | 4 |

Deixe um comentário