Crítica


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Sinopse

Emma, a mãe da família Wishbone, está tentando de todas as formas salvar a relação com seus familiares, que não é nada amigável. Já que nenhum deles se dá muito bem e a paz e tranquilidade são quase impossíveis, ela planeja uma noite de diversão fora de casa. Mas a confusão começa quando, inesperadamente, uma bruxa os transforma em monstros.

Crítica

Produção alemã dirigida pelo veterano da animação Holger Tappe – o mesmo de A Terra Encantada de Gaya (2004) e Animais Unidos Jamais Serão Vencidos (2010) – esse Uma Família Feliz é o típico produto que apenas encontra espaço nas telas brasileiras – e, por que não dizer, entre as opções do público – na ausência de outros títulos mais atrativos e de histórico mais confiável, como as da Disney, Pixar ou Dreamworks. A trama, sobre um casal e seus filhos que vivem às turras uns com os outros e, após sofrerem uma maldição, precisam aprender a conviver em conjunto e descobrir o que de melhor cada um deles tem a oferecer, é um amontoado de clichês previsíveis e desinteressantes, alinhados a uma técnica de desenho pouco inspirada e a um roteiro que volta e meia derrapa em escolhas pouco adequadas ao tipo de público a que se dirige – crianças, e para que fique claro, as bem pequenas.

Emma (voz de Emily Watson, e no Brasil de Juliana Paes) não tem nada programado na agenda, mas mesmo assim decide ligar para uma loja de fantasias em busca de uma dentadura de vampiro. Como se fosse mera coincidência, acaba falando com o próprio Conde Drácula (Jason Isaacs, no original), que após séculos de solidão, parece estar disposto a se acasalar com qualquer uma que lhe dê o mínimo de atenção. Só que ela já é casada: Frank (Nick Frost), o marido, é um workaholic que está sempre com sono, Fay (Jessica Brown Findlay) é a típica adolescente rebelde, que vive reclamando dos pais e do irmão menor, ao mesmo tempo em que se descobre apaixonada por um garoto mais velho, e Max (Ethan Rouse), o caçula, o nerd que tudo sabe, menos se enturmar com os colegas de sala de aula – e por isso acaba virando motivo de bullying do valentão da turma. Como se vê por essa descrição apressada, são tipos iguais a milhares de outros, com pouco – ou quase nada – que possa diferenciá-los a ponto de estimular qualquer tipo de interesse por parte da audiência.

Drácula quer Emma para si, mas de acordo com a mitologia aqui proposta, se a morder, ela morrerá. Por isso, solta uma velha e atrapalhada feiticeira (Catherine Tate) para enfeitiçá-la – só que essa, há tanto tempo aprisionada, já esqueceu como colocar seus encantos em ação, e por isso acaba transformando a família por inteiro: Emma vira uma vampira, Fay uma múmia, Max um lobisomem e Frank um... Monstro de Frankenstein. O desespero diante de suas novas condições os impelem a ir atrás da bruxa e exigir um antídoto que os faça voltar ao normal. Mas como seguir com esse propósito ao perceberem que, com suas novas personalidades, as coisas para cada um deles parecem ter ficado muito melhores?

Max agora mete medo naqueles que o atormentavam, Fay consegue hipnotizar quem quiser, Frank se tornou, enfim, um homem desejado, e Emma passou a ter toda a emoção e excitamento que sempre desejou. Só que cada um descobre isso sem os outros por perto. E se o foco era ressaltar a importância e os valores familiares, o tiro parece ter saído pela culatra. Afinal, passa-se muito tempo com eles separados, explorando melhor as possibilidades que agora desfrutam. Mudar o rumo e forçá-los a se unirem mais uma vez termina por soar forçado. Se o feitiço só será desfeito no momento em que se descobrirem felizes enquanto família, talvez fosse melhor – e mais ousado – tê-los deixado exatamente do jeito que estão, adaptando-se, cada um a seu modo, a esta nova e estimulante realidade.

Ah, mas não é legal ser um monstro”, pode argumentar o mais ingênuo. Bom, os tempos são outros, e em nenhum momento o enredo tenta explorar os prejuízos da monstruosidade, colocando em evidência apenas as vantagens que passam a desfrutar após a mudança. Já o Drácula, primeiro visto como um tipo solitário e carente, logo que é rejeitado sofre uma alteração sem nuances de personalidade, virando quase que imediatamente no vilão unidimensional que o filme não precisava. E se esse texto pouco trabalhado não for suficiente, Uma Família Feliz carece também de um melhor desenho de produção, com personagens mais detalhados e donos de movimentos naturais e orgânicos – o contrário, infelizmente, do que se verifica em cena. Em resumo, este filme está mais para o oitentista Deu a Louca nos Monstros (1987) – um suspeito ‘clássico’ da Sessão da Tarde – e menos para o recente Hotel Transilvânia (2012), que a despeito de seus óbvios problemas, ao menos tinha bom humor e estava conectado com os dias de hoje. E se os padrões de comparação são estes – e com resultado inferior a ambos – já se pode ter uma boa ideia do quão descartável tal aposta se confirma no final.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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