Crítica


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Sinopse

Mildred Hayes é uma mulher do interior de luto pela morte da filha. Após meses sem que o assassinato da garota seja solucionado pela polícia, ela decide se vingar por conta própria.

Crítica

Chegando ao terceiro longa-metragem, o diretor, roteirista e dramaturgo londrino Martin McDonagh emprega seu traço cômico pitoresco (sombrio, ágil, mordaz e de notável sensibilidade britânica) num retrato tipicamente norte-americano, se refestelando com os arquétipos referentes ao meio-oeste/sul do país. Em Três Anúncios Para Um Crime, o cineasta mergulha no universo marcado pela violência, pelo conservadorismo e pelas questões raciais do interior dos Estados Unidos através da história de Mildred Hayes (Frances McDormand), moradora da cidade de Ebbing, no Missouri, que, após meses sem notar qualquer avanço nas investigações do assassinato da filha, Angela, decide cobrar um posicionamento das autoridades de modo inusitado: alugando três outdoors localizados à beira da estrada, próximos à entrada de Ebbing, para mandar uma mensagem direta ao chefe de polícia local, o xerife Bill Willoughby (Woody Harrelson).

A controversa atitude, que ganha notoriedade na mídia, desperta as mais diversas respostas da população local, com a maioria expondo seu apoio ao xerife de reputação ilibada e se voltando contra Mildred, mesmo que afirmem compreender a angústia da mãe em luto. Essa cadeia de eventos traz à tona figuras com as quais McDonagh faz piada, porém, sempre demonstrando algum afeto no olhar lançado sobre elas. Diferentemente do distanciamento irônico mais latente adotado em seus filmes anteriores – Na Mira do Chefe (2008) e Sete Psicopatas e um Shih Tzu (2012) – aqui, mesmo potencializando os estereótipos para fins cômicos e críticos, o cineasta se mantém sempre próximo aos personagens, buscando compreender, dentro das possibilidades, suas ações e pensamentos. E a compreensão desse cenário predominantemente masculino, para não dizer machista, se torna ainda mais interessante com a opção pelo protagonismo feminino.

Empunhando as armas que se apresentam ao seu alcance, Mildred surge como a mulher numa luta praticamente solitária por justiça, enfrentando, ao longo de sua turbulenta jornada, os pilares da sociedade hipócrita que a cerca, como a polícia e a igreja. Não à toa, a cena em que confronta o padre na cozinha de casa está entre os momentos mais emblemáticos do longa, sendo também um dos melhores exemplos da sinergia entre a entrega de McDormand no papel e o texto ferino de McDonagh. Proferindo uma infinidade de palavrões e xingamentos, bem como de observações sarcásticas hilárias, a atriz se agiganta como Mildred, propagando toda a sua força e determinação nas passagens mais intensas, ao mesmo tempo em que deixa revelar suas fragilidades – a dor, a culpa e a compaixão – naquelas que exigem sutileza, como na reação à condição de saúde do xerife durante um interrogatório.

Mildred, contudo, não é isenta de falhas, e McDonagh faz questão de explorá-las. Seja na relação com o filho (Lucas Hedges), que esconde carinho sob uma carapaça de hostilidade, e no fato de ignorar as consequências de sua luta sobre ele, ou ao, de certa forma, externar seus próprios preconceitos, vide o tratamento que dispensa ao anão da cidade, James (Peter Dinklage), que vive cortejando-a. A atriz sustenta todas essas nuances com enorme competência, se mostrando confortável num ambiente que por vezes ecoa o do cinema de Joel e Ethan Coen, que tão bem conhece. As camadas de desenvolvimento oferecidas por McDonagh a Mildred também se estendem às outras peças principais, como o Xerife Willoughby – com Harrelson se aproveitando e entregando mais uma grande atuação – que contraria as expectativas iniciais, se mostrando, de fato, íntegro – à sua maneira – e ao qual, juntamente com seu núcleo familiar, é dispensado um efetivo aprofundamento.

Tal estofo é essencial à geração de empatia e à aceitação das viradas dramáticas propostas. Ancorado numa sucessão de causas e efeitos extremos, o roteiro toma rumos imprevisíveis, apresentando reviravoltas que, felizmente, soam sempre genuínas, nunca forçadas. Isso contribui para a criação de uma atmosfera de absurdo na qual todas as figuras secundárias têm seu momento de brilho (se não através de arcos dramáticos, no mínimo com ótimas tiradas cômicas), como o dono da agência dos outdoors, Red (Caleb Landry Jones) e sua secretária, ou o ex-marido de Mildred, Charlie (John Hawkes), que vive com uma namorada muito mais nova, Penelope (Samara Weaving). De todos os coadjuvantes, entretanto, aquele que talvez melhor sintetize as qualidades do trabalho de McDonagh seja o policial Dixon, vivido por Sam Rockwell em desempenho tão inspirado quanto os de McDormand e Harrelson.

Ignorante, racista e controlado pela mãe (Sandy Martin) – de quem herdou as citadas características – Dixon surge como a figura que passa pela mais impactante transformação da trama, carregando a noção primordial de Três Anúncios Para Um Crime, de que mesmo obstruído pelo comportamento mais condenável, num reflexo das convenções do meio no qual está inserido, ainda é possível encontrar um resquício de pureza em sua personalidade – algo exaltado pelo xerife em sua carta. Não que seus atos pregressos sejam plenamente amenizados e não mereçam punição, pois ela ocorre, mas a possibilidade da redenção se mostra parte daquilo que faz do personagem um símbolo das imperfeições e da insegurança – dividida com Mildred no momento de hesitação do plano final, os aproximando muito mais do que poderiam imaginar – que configuram a natureza humana. É por essa razão que, mesmo envolvidos pela aura insólita do universo concebido por McDonagh, seus personagens, e os dilemas que os acompanham, sintam-se tão palpáveis.

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é formado em Publicidade e Propaganda pelo Mackenzie – SP. Escreve sobre cinema no blog Olhares em Película (olharesempelicula.wordpress.com) e para o site Cult Cultura (cultcultura.com.br).
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