Crítica


6

Leitores


Sinopse

O comediante paquistanês, Kumail, e a estudante de graduação, Emily, se apaixonam, mas eles encontram dificuldades quando suas culturas entram em conflito. Além disso, quando Emily contrai uma doença misteriosa, Kumail deve tentar resolver a crise com seus pais causada pelo conflito emocional entre sua família e seu coração.

Crítica

Um dos destaques do elenco da série Silicon Valley (2014-2017), o ator paquistanês Kumail Nanjiani parecia estar acostumado ao papel estereotipado que Hollywood geralmente reserva aos intérpretes de nacionalidades diversas que não a norte-americana. Porém, assim era apenas na superfície. Pois ao escrever, produzir e aparecer, enfim, como protagonista da comédia Doentes de Amor, ele mostra ter talento suficiente para ir além do clichê que insistiam em resigná-lo. É certo que volta e meia o conjunto aqui apresentado ou se mostra confortável demais, ou revela estar além das capacidades dele enquanto artista. Mesmo assim, só pelo esforço exigido o resultado já seria válido. E, assim, temos mais do mesmo, é claro, porém com cores diferentes e, por que não dizer, mais vibrantes.

Kumail (o próprio Nanjiani, afinal, esta é uma história autobiográfica) é o típico filho de emigrantes muçulmanos nascido e criado nos Estados Unidos: seus pais querem que ele siga as tradições dos seus antepassados, tão comuns no país de origem da família, porém essa não é a realidade na qual convive diariamente. Um bom exemplo está na insistência da mãe em apresentá-lo a uma moça em condições similares a dele, tanto nos laços familiares como nas crenças religiosas. Outro ponto importante é o seu futuro profissional: ao invés de advogado, como é o desejo paterno, tudo que ele almeja é fazer sucesso como comediante em apresentações stand-up.

Se conseguir vencer no ramo artístico é algo que já sabemos que irá conseguir – afinal, este filme é baseado na trajetória dele, lembra? – o mesmo não pode ser dito a respeito da sua jornada afetiva. Principalmente a partir do momento em que começa a se envolver com Emily (Zoe Kazan), uma garota mente aberta que deixa bem claro, desde o primeiro encontro deles, que não está buscando um relacionamento sério. “Acabei de sair de uma história muito desgastante, sabe?”, diz ela. Mas quando o coração manda, o que a razão sabe? E quando menos esperam, os dois estarão passando dias e noites juntos, e até mesmo começando a fazer planos. Mas apesar de estar seguindo tudo aquilo que parece ser o be-a-bá de qualquer comédia romântica que se preze, algumas mudanças de rumo serão necessárias.

E essas não tardarão a aparecer. Primeiro, a descoberta por parte dela da infidelidade dele. Não que a tenha traído com outras garotas. Mas também não chegou a ser completamente honesto. Afinal, sequer mencionou sua existência aos pais e irmão, certo de que o renegariam se soubessem do envolvimento dele com uma garota branca. Sem chances de um futuro juntos, ela prefere cortar o mal pela raiz, e o abandona. Porém, no meio da noite, o telefone dele toca. Emily está no hospital, e sem saber a quem recorrer, uma amiga em comum decide chamá-lo. E o que parecia ser tão bobo, quanto um resfriado ou um pé torcido, logo se revela muito mais grave. Em coma, os pais dela entram em cena – Holly Hunter, em pleno domínio da situação, e Ray Romano, competente no que lhe é exigido – mas ele insiste em permanecer por perto. A situação lembra um pouco o romântico Enquanto Você Dormia (1995), porém com menos fantasia e mais incertezas.

Se o final de Doentes de Amor não chega a ser nenhum grande mistério, com direito a fotos “das pessoas reais” durante os créditos, muito do seu valor está mais na forma como a história é contada, e menos no relato em si. Nanjiani – que se sai melhor nos momentos cômicos e menos do drama, passagens essas que deixam em maior evidência suas fragilidades – é dono de um texto simpático, composto por diálogos rápidos e envolventes, que combinam com a leveza pretendida, sem nunca permitir resvalar no dramalhão barato. Mas o mérito maior parece mesmo ser a mão segura do diretor Michael Showalter (Doris: Redescobrindo o Amor, 2015), que mesmo brincando com elementos potencialmente perigosos, é competente em buscar a harmonia entre eles. E assim tem-se um filme bonito, talvez não inesquecível, mas ainda assim agradável aos olhos e ao coração.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
avatar

Últimos artigos deRobledo Milani (Ver Tudo)

Grade crítica

CríticoNota
Filipe Pereira
7
Matheus Bonez
8
MÉDIA
7

Veja também

Comentários