Telúrica, a Íntima Utopia

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Sinopse

Em Telúrica, a Íntima Utopia, a companhia teatral Ueinzz, formada por atores que vivenciam sofrimento psíquico, desenvolve um espetáculo sobre a extinção da Terra e o desejo humano de permanecer. Durante os ensaios, reflexões sobre memória, existência, pertencimento e sobrevivência se entrelaçam ao processo criativo, revelando a força dos vínculos construídos pelo grupo. Documentário

Crítica

Há filmes que parecem existir em uma corda bamba. Basta um passo em falso e tudo desmorona. Telúrica, a Íntima Utopia, de Mariana Lacerda, parte justamente de uma dessas premissas delicadas. A diretora mergulha no cotidiano da companhia teatral Ueinzz, coletivo formado por atores que convivem com diferentes formas de sofrimento psíquico, e acompanha seus ensaios e percepções de mundo. O resultado, nos primeiros minutos, pode soar estranho. Há falas desconcertantes, associações inesperadas e momentos que transitam entre o curioso e, até, o engraçado. Aos poucos, porém, a sensação muda. O que parecia exótico passa a soar profundamente humano. E talvez exista mais verdade nessas observações fragmentadas do que em muitos discursos perfeitamente organizados.

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Em cena, a companhia desenvolve uma peça que gira em torno da extinção da Terra e do desejo de permanecer. Enquanto ensaiam, os integrantes refletem sobre pertencimento e sobrevivência. Mariana adota postura discreta diante desse universo, com câmera que observa mais do que interfere. As perguntas, aliás, são poucas, pois não há desejo de conduzir conclusões ou fabricar conflitos artificiais. O projeto prefere confiar na força dos encontros e na espontaneidade das trocas. É um gesto simples, mas também corajoso. Em tempos em que documentários frequentemente parecem preocupados em explicar tudo ao espectador, este escolhe escutar.

E é justamente dessa escuta que surgem as questões mais interessantes. Em vários momentos, a dimensão do que está sendo registrado se impõe de maneira silenciosa. Até que ponto aquelas pessoas têm consciência do alcance artístico do que produzem? Onde termina a terapia, onde começa o teatro e onde ambos se confundem? O filme não parece interessado em responder definitivamente nenhuma dessas perguntas. Prefere permanecer no território da observação e da empatia. O que vemos não são personagens organizados para ilustrar uma tese, mas indivíduos tentando existir, se comunicar e encontrar algum sentido nas próprias experiências. Há algo de profundamente bonito nessa recusa em simplificar vidas tão complexas.

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No entanto, é preciso dizer, talvez a duração pudesse ser mais enxuta, pois algumas ideias retornam mais vezes do que o necessário, certos momentos parecem se alongar além de seu impacto e uma montagem mais rigorosa talvez tornasse a experiência ainda mais potente. Mas esse é tropeço relativamente pequeno diante do que a obra alcança. Em alguns momentos, aliás, Telúrica, a Íntima Utopia lembra Sing Sing (2023), indicado ao Oscar 2024. Não pela forma, mas pelo olhar. Ambos encontram beleza em espaços que a sociedade costuma enxergar apenas através da falta, da dor ou da exclusão. Ambos acreditam que a arte pode criar pontes onde antes existiam apenas muros, como flores que insistem em nascer em terrenos improváveis.

Filme durante o 15º Olhar de Cinema: Festival Internacional de Curitiba (2026).

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Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]
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